Parte 11: A Carretera Austral – parte Norte.

Não posso afirmar que seja fácil sair de um quarto com calefação, cama macia e banho quente para voltar à estrada em um dia de clima indeciso. Mas alguns desconfortos que parecem impraticáveis para alguns, para mim se tornam irrelevantes diante da recompensa de ver, estar e ser parte do mundo. Para mim a experiência não seria tão intensa e autêntica se feita de dentro de um veículo motorizado.

Não quero dizer que se eu fosse caminhando pelado e descalço pelo mesmo caminho a experiência seria melhor, mas que na apreciação da natureza há um ponto de equilíbrio – que cada um precisa encontrar – entre as ferramentas que escolhemos para interagir com o mundo e a qualidade dessa experiência. Quando o sangue pulsou, o pulmão trabalhou e o suor brotou pelos poros; quando o vento atacou, o sol castigou ou a chuva me cobriu; foi então que me senti – de maneira contraditória – menos confortável e mais integrado aos lugares que visitei.

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Um dos dias mais bonitos na Carretera Austral.

Entre chuviscos e vento, saí de Coyahique e logo encarei uma longa subida que leva a um mirante na saída norte da cidade. Nesse trecho o movimento de veículos motorizados já me convenceu a fazer o caminho de ripio e não a possibilidade de asfalto via Puerto Aysen. Subi por um bom tempo pelas bucólicas estradas rurais, até que começou uma sequência de leves descidas e subidas, sempre entre grande quantidade de flores lilás e uma explosão de flores amarelas rasteiras. O dia nublado se iluminava pelas cores da vegetação.

As madeireiras atuam forte nessa área, tem alguns bosques claramente plantados e outros sendo derrubados aos poucos. Tomei uns cafes na mínima Villa Ortega e segui em um ripio bem pior. Encontrei uma senhora francesa viajando sozinha em uma brompton dobrável de aro 20 (ou talvez menor), surpreendente. Ela estava muito cansada, mas já bem perto da Villa. Alguns km depois encontrei um sr. Norte Americano empurrando numa subida íngreme. A mim não restavam muitas subidas no dia, mas eu não sabia disso ainda. Também encontrei um casal basco de bicicleta e uma família argentina de carro, todos lanchando à beira de um riacho. Fora um ou outro veículo de trabalho rural, esse foi todo o movimento do dia.

Depois de Villa Ortega o caminho segue entre as montanhas num lindo vale tomado pelas flores e riachos, até chegar novamente ao asfalto. Dali só segui alguns km até achar a entrada para o local em que os ciclistas de Hong Kong me indicaram como bom acampamento selvagem. Passei a tronqueira e fechei com cuidado e cheguei  à beira do Rio Manihualles, onde acampei escondido da estrada e plantado entre os milhares de Lupinos (as flores roxas, lilás, vermelhas, brancas, amarelas, etc. que parecem lavandas gigantes). Um lugar bem mais interessante que um camping pago.

Toda a noite foi chuvosa e pela manhã persistia uma fina garoa. Achei que ia parar e fiquei lendo e comendo. Ao contrário do imaginado, mas confirmando a tradição da Carretera Austral – a chuva resolveu aumentar quando eu estava desarmando a barraca. O aguaceiro me acompanhou por todo o dia, a água desceu pela calça e entrou na bota pela meia (nesse dia eu não usava as polainas impermeáveis), minha bota virou um aquário. Parei num ponto de ônibus pra esvaziar e torcer a meia, vestir uma seca não ia resolver, o tênis estava encharcado. Apareceram 2 ciclistas de Liechtenstein e me falaram que o Camping Laguna Las Torres, alguns km a frente, está abandonado e tem umas casinhas limpas em que dá pra por a barraca. Mesmo com chuva a estrada é bonita, só não deu pra tirar fotos porque a bolsa de guidão não é muito prática pra tirar e guardar a câmera com agilidade na chuva. Nesse trecho é asfalto e as inclinações são tranquilas.

Cheguei fácil ao camping e lá estava um motoqueiro que passou por mim com uma prancha de surf e uma lona esvoaçante por cima da bagagem. Parecia um cospobre do Batman. Ele estava com a mesma idéia que eu – de ocupar uma das cabanas abandonadas para secar roupas e equipamento –  e começamos a conversar. Max veio de Portland – com a moto, prancha de surf e skate – e na hora de atravessar do Panamá pra Colômbia conheceu o André Fatini, que eu também conheço e que vinha pedalando do Alaska ao Brasil.

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Vista do meu abrigo no abandonado Camping Las Torres.

Na manhã seguinte o sol deu as caras, dourando as faces rochosas em torno do Lago Las Torres. Me despedi e fiz uma foto com o Max, mas na verdade combinamos de nos encontrar a noite no camping do Parque Nacional Queulat,  onde iríamos ver o Ventisquero Colgante. Pedalei bem leve até Villa Amengual,  onde parei num mercadinho e comprei umas frutas e comida pra ficar um dia a mais no parque. Confirmei a informação sobre obras (e bloqueio temporário) na estrada à frente e segui.

A maior parte do caminho foi descendo pelo vale do Rio Cisnes,  não me esforcei muito e parei bastante. Já eram umas 16h quando cheguei ao fim do asfalto, início das obras e da temida serra do parque. Estavam trabalhando na estrada, mas não precisei parar ali. Pedalei 100m no ripio me preparando para a escalada quando ouvi um pssssssssffff do pneu de trás esvaziando em um segundo. Um cravo do pneu se soltou pela metade e a câmara estava exposta porque a fita antifuro se moveu. Troquei a câmara,  ajeitei a fita e comecei a pedalar esperando o pior. Não achei que com aquele buraco conseguiria seguir muito, mas felizmente nada aconteceu. Essa falha foi desgaste precoce do pneu: além de ter usado pressão mais baixa que o ideal (pra poupar o bagageiro dos impactos), eu devia ter feito o revezamento de pneus 2000km atrás e fiquei de preguiça.

A subida da serra é forte e com muitas curvas em serpentina,  com algumas cachoeiras bonitas pra se apreciar e respirar um pouco. Com o ripio solto da estrada sendo preparada para receber o asfalto a ascensão de uma bicicleta carregada demanda muito esforço. Bem no alto já se vê a placa que indica o inicio do Parque Queulat. O topo nunca é onde eu imaginava, mas quando começa a descida o visual das montanhas do parque compensa muito. A serpentina é ingreme e exigiu muito dos freios, pois eu estava preocupado se o pneu ia estourar e não deixava pegar velocidade. Parei numa das últimas curvas pra ver o Salto Padre Garcia,  a poucos metros da estrada. Quase passei direto, porque a placa estava meio escondida. É uma cachoeira intensa e volumosa, vale a visita.

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Fiordo Queulat.

Quase no fim encontrei 3 cicloviajantes americanos que iam encarar a subida já meio tarde, umas 17h. Tudo bem porque os dias aqui são longos. Dali em diante a estrada é,  para padrão chileno,  plana. Margeia o Fiordo Queulat, que eu demorei pra me tocar que é o mar – só percebi pelo nível das marés quando parei pra uma foto. Eu já estava bem cansado e pedalava olhando pro chão – não sei porque levantei a cabeça – quando vi ao longe, lá no alto, o impressionante Ventisquero Colgante.

Logo antes da entrada do parque uma senhora tentou me convencer de que o quintal cheio de lama era um camping. Era a metade do preço do camping oficial, mas não fazia sentido acampar ali. Subi, paguei a entrada do parque e fui instruído a acampar em algum dos espaços vazios e pagar ao encarregado no dia seguinte. A ducha estava fria. Fucei no aquecedor a gás até conseguir agua quente – a única razão para eu pagar por um camping na Carretera. Os espaços do camping têm uma churrasqueira coberta,  uma mesa e uma torneira para cada grupo de 8 pessoas. Escolhi uma área vazia, afastei a mesa e montei a barraca sob a cobertura – queria me prevenir contra as goteiras que apareciam novamente na barraca. Enquanto me ajeitava ajudei um ciclista japonês com a rota, o desgraçado ia pedalar até a cidade de Perito Moreno (na pampa Argentina) pra ver o Glaciar Perito Moreno (entre as montanhas em El Calafate.

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Trilha para o Ventisquero Colgante, Parque Nacional Queulat.

Acordei e estava chovendo, bateu a preguiça. Dormi mais e acordei com sol na cara. Dei um pulo e me agilizei pra fazer a trilha antes que o tempo mudasse. O japonês tinha ido na chuva e já estava de saída. Entrei na trilha e fui subindo em meio à floresta super úmida e pulando a lama que se acumulava. Em alguns momentos a trilha passa por uma cristas em que é um barranco pra cada lado, apenas a vegetação esconde a ribanceira. Outros trechos são dentro de riachos. Não levei garrafa e bebi água direto das cascatas que vinham da lateral esquerda.

Quando cheguei ao topo fiquei desnorteado. A geleira se acumula no espaço entre dois picos e dela saíam 3 enormes cachoeiras,  sendo uma muito mais volumosa que as outras. Volta e meia se desprendia um pedaço pequeno de gelo com um estrondo. Tive a sensação de ter entrado em alguma passagem que me levou a outro lugar do espaço-tempo, algum ponto entre o Triássico e o Jurássico – ou talvez ao cenário de O Elo Perdido. Depois de observar algumas vezes o estrondo do gelo despencando na pedra vários metros abaixo, retornei pelo mesmo caminho antes que qualquer dinossauro, algum sleestak ou o próprio Tchaca dessem as caras.

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Ventisquero Colgante, Parque Nacional Queulat.

Na descida encontrei o Max subindo, ele chegou tarde e a cancela estava fechada, sem malícia de passar direto e sem a tolice de ficar no camping da lama, fez um bivak enfiado em algum mato na beira da estrada. De volta à base, fui verificar a situação do pneu. A fita tinha se movido novamente. Pensei em costurar mas não via muito bem como fazer naquele caso. Pensei em enfiar uma nota de 1000 pesos chilenos ali, fazendo um manchão, mas a nota é muito lisa e ia se mover. A solução veio com duas largas camadas de silvertape dentro do pneu pra não ter o risco da câmara de ar sair pelo buraco e furar novamente. No dia seguinte o Max me ofereceu um silicone que ele usa na moto pra tentar tapar o buraco do pneu, eu usei mas não ajudou muito – na verdade fez uma lambança. Pensando positivamente, talvez tenha evitado que entrasse umidade que poderia amolecer a fita. Entre mortos e feridos o pneu continua em uso com a mesma fita, 1 ano depois (mas não muitos km).

Me despedi do Max, trocamos contatos e parti. Nos 20km de poucas inclinações até Puihuapi eu vesti e tirei a roupa impermeável 2 ou 3 vezes. Perto da cidade encontrei um alemão e dois espanhóis, trocamos informações da estrada e segui. Eles me fizeram achar que os 50km restantes até La Junta seriam difíceis. Na verdade foi muito tranquilo. Parei em Puiuhuapi rápidamente pra comprar uns pêssegos e por crédito no celular. Falei rapidinho com a Lena,  cada vez com mais saudades de casa. Entre chuviscos e leves oscilações de relevo fui margeando o Lago Risopatron, ainda parte do Parque Nacional Queulat. Logo me apareceu um asfalto e foi bem fácil chegar a La Junta. Quem estava achando esse trecho difícil não fazia idéia do que é a Carretera.

La Junta não é muito mais do que o nome diz: um povoado que se formou em uma encruzilhada. Com a exceção de uma placa em destaque que diz “Carretera Austral – General Augusto Pinochet U.”, é um lugarejo bem agradável. Conferi um possível acampamento grátis abaixo da ponte norte da cidade, mas havia muita sujeira e lama acumulada. Voltei ao camping – o lugar era barato e tinha água quente – e um casal de bascos acabara de chegar. Éramos só nós por ali, eles eram gente fina e conheciam os bascos que encontrei semanas antes em em Rio Grande (Argentina). Vinham de Futalefu, rota que eu não seguiria, então só tinham uma dica de camping pra mim. Eu passei todas as informações mais importantes pra eles, principalmente após El Chalten até Ushuaia que é onde o bicho pega mesmo.

Em algumas manhãs você olha para o céu e sabe que não pedalará sozinho, a chuva vai ser uma companheira durante todo o dia. Eu não estava com pressa e resolvi esperar que ela desse uma trégua, nos encontraríamos mais à frente,  mas queria começar o dia seco. Saí no lucro com um pouco de sol. O ripio recomeçava depois da ponte. Estão trabalhando no asfaltamento também por ali. Em 40km se alternaram ripio de muita pedra solta e asfalto a meia pista. Prefiro asfalto do que os trechos em que tem máquinas trabalhando, mas gosto mesmo é dos trechos em que a estrada é apenas suficiente. Recomendo a todos que pretendam visitar a região: vão o quanto antes, porque junto com o asfalto virão turistas mal educados, caminhões em excesso e sabe-se lá mais o que traz o “progresso”.

Encontrei um japonês sem freio da frente, só acharia outra peça em Coyhaique, uns 250km pra trás. Ta lascado na serra do Parque Nacional Queulat, coitado. Logo vieram mais dois franceses e em seguida um casal mais velho do Alaska e outra americana, todo mundo reclamando do ripio ruim. Aqui é tudo quase plano e tranquilo, não sei como eles vão encarar as grandes subidas ou o vento da Argentina. Até lá, acho, terão acumulado experiência suficiente pra não reclamarem tanto.

Perto de Villa Vanguardia começa o asfalto novamente e a estrada segue naquele sobe e desce suave. O cenário ainda é muito bonito, mas já perde muito pro sul da Carretera.

Parei e acampei a 3km de Villa Santa Lucia, na margem do Rio Frio, o lugar indicado pelos bascos. Mais uma vista impressionante, com montanhas e floresta ao fundo e o leito do rio à frente. Já estava mal acostumado. Depois que terminei de jantar e já ia deitar, apareceu uma mulher pra cobrar pelo “camping”. O lugar não é cercado, é acessado direto da estrada, não tem banheiro,  ducha, nada. Dali não via nenhuma casa ou sinal de ocupação humana, vaca ovelha ou plantação. Ela queria 2000 pesos, eu juntei as moedas que tinha (700) e disse que era o que podia pagar, e que iria embora sem problemas se ela não aceitasse. Felizmente ela se deu por satisfeita, porque eu não estava nem um pouco a fim de sair dali.

Acordei preguiçoso, mas resolvi sair logo porque não tinha chovido à noite e dava pra guardar a barraca seca antes da chuva que o céu prometia. Dito e feito, antes de eu completar os 3km até Villa a chuva começou. Parei numa marquise e vesti as roupas de chuva, entrei num mercadinho e comprei pão e tomei um café  – instantâneo, que é o que tem em quase todo lugar da região, mas pelo menos aquece. O asfalto acabou ali no povoado e na saída norte já encarei uma longa subida em ripio molhado e com pedras soltas. As pedras grandes presas no chão viram um sabão com a chuva. Mas eu estava tranquilo e subi lentamente sabendo que a pedalada é que me mantém quente, e o dia estava frio!

Infelizmente, quando entrei num downhill íngreme e divertido, tive que segurar no freio por medo do pneu falhar. Fazia uns dias que vinha sentindo leves dores na mão direita, no pulso. Com o frio e a chuva já não sentia nada, quase uma compressa de gelo!  Essa parte da estrada também estava sendo preparada pro asfalto, tem pedra solta pra todo lado. Depois da descida uma longa reta sem pedra e com muitos buracos empoçados. Foi divertido dar uma acelerada e ficar desviando.

No sopé da próxima subida, em que as máquinas estão trabalhando,  fiquei preso naquele pare/siga. Depois de uns 20min na chuva mexendo os pés, mãos e pescoço pra me manter quente o negócio parou de ficar divertido. Na subida via pedras caídas na estrada e estrada caída ribanceira abaixo. É uma zona de erosão constante,  muito difícil construir e manter essa estrada. Especialmente na margem do Lago Yelcho. Lá em cima ainda precisei atravessar um riacho que cruzava a estrada. Foi difícil com as pedras muito grandes no fundo, mas consegui passar. Mais adiante, na fila parada do sentido contrário, o único ciclista do dia. Ia abrir pra ele, estava frio e a chuva apertou, então nem parei,  só gritei: “You’ve got a little river to cross” e ouvi um “OH SHIT!” Seguido de uma risada. Mantendo o bom humor e estando pronto para o pior, no fim é tudo divertido. Esse cara eu tenho certeza que fará uma viagem excelente.

Logo antes de Puerto Cardenas cruzei uma grande ponte e recomeçou o asfalto. Quando vi uma parada de ônibus mais arrumadinha, me abriguei para almoçar e fazer um chá pra me esquentar. Dali pra frente o caminho foi fácil e a chuva diminuiu. Hospedagem em El Amarillo é cabaña para grupos ou uma pousada mais cara. O povoado gira em torno do turismo da entrada sul do Parque Pummalin, onde se situa a sua sede. Fui conferir o camping do parque, é espartano. Não tem ducha e o banheiro é seco. Foi a primeira vez que usei esse tipo de banheiro e é bem tranquilo – a única diferença é não poder mijar onde se caga, são compartimentos diferentes. Isso pode requerer um pouco mais de treino pras mulheres, imagino. Depois que eu já tinha me instalado sob a única cobertura do camping, que seria a “cozinha”, chegaram uns 4 viajantes. 2 acharam um cantinho ali pra se instalar, os outros tinham uma barraca grande e ficaram na chuva mesmo.

Naquela quarta-feira pedalei o tempo todo nos limites do Parque Nacional Corcovado até o Parque Pummalin, entre montanhas que devem ser muito bonitas – mas com frio, chuva e neblina… não as vi. Apesar de tudo, foi um dia muito divertido e que eu sabia que ia chegar. Não dá pra sair da Carretera Austral sem alguns longos e chuvosos dia.

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Proximidades de Chaitén, Chile.

O Pummalin é impecável, a grama e a estrada muito bem mantidas e imagino que as trilhas também sejam. Como a chuva não parou, a visibilidade não era das melhores, desisti de tentar alguma. Pedalei uns poucos km subindo por uma estrada vicinal em ripio até as Termas El Amarillo, um pequeno sítio que cobra uma módica entrada para desfrutar de suas piscinas de águas aquecidas pelo vulcão Michimahuida. A chuva não parava, a temperatura estava em torno dos 15ºC, não havia melhor maneira de relaxar os músculos, bastante combalidos pelos 3 meses e 17 dias de estrada, que ficar enfiado naquelas águas. O único inconveniente é que toda a turma de alunos e professores de uma pequena escola de La Junta também estavam por ali, fazendo uma zona da porra.

Durante a tarde fiz o curto e suave pedal até a cidade de Chaitén, onde dormi num hostel e comprei mantimentos para passar os próximos dias no Parque Pumallin. No caminho, mesmo 7 anos depois, foi possível ver traços da destruição causada pela erupção de 2008. Vizinha dos gigantes vulcões adormecidos, Corcovado e Michimahuida, a cidade não esperava a violenta explosão do pequeno Chaitén. Além de cinzas e detritos, a erupção foi particularmente desastrosa para a cidade por ter alterado o curso do rio vizinho, que inundou a cidade. Hoje Chaitén vai sendo reconstruída aos poucos, mas ainda sem muita certeza do futuro.

Segui para o norte num curto pedal até o primeiro dos 4 ou 5 campings que o Parque Pumallin oferece aos visitantes ao longo desse trecho entre Chaitén e Caleta Gonzalo. Descobri ali que a temporada oficial do parque só começa em janeiro, portanto não estavam cobrando nada mas a estrutura estava toda disponível (com exceção de algumas trilhas) – isso foi um alívio, pois os preços estampados na tabela não eram muito convidativos. O El Volcan é também o camping mais agradável em que fiquei: a área é bem grande e cada módulo tem uma grama perfeitamente aplainada e aparada para montar a barraca, além de uma cobertura com mesa para cada barraca. O banho é frio e não há energia elétrica, mas quem se importa? Depois de instalado parti para uma leve trilha toda plana que faz um circuito pela vegetação da região e comi várias frutinhas roxas/azuladas que lembram o calafate, mas não tenho certeza se era.

No dia seguinte, quando finalmente o sol se escancarou e elevou bastante a temperatura, deixei tudo no camping e pedalei de volta pela estrada até a entrada da trilha do vulcão Chaitén. Tranquei a bicicleta por ali e comecei a subir. A trilha não é muito técnica e em muitos trechos foram montadas escadas de madeira e terra. Foi cansativa para mim porque os músculos da caminhada e da pedalada são bem diferentes e eu senti isso com as dores no dia seguinte.

Embora a vegetação já tenha se recuperado bastante, ainda há grandes áreas de árvores secas, como enormes palitos enfiados no chão. Pequenas e brilhantes pedras de material vulcânico se espalham pelo chão. À medida que se sobe a devastação fica mais clara, com enormes troncos secos arrancados do chão, outros completamente secos. O topo da trilha não é de fato o topo do vulcão. Chega-se à beira da enorme cratera, dentro da qual se formou um novo monte que me ultrapassava em altitude e, lá em cima, fumegava. O terreno arenoso, as cores estranhas e os restos de água pouco convidativa no fundo da cratera dão ao ambiente um cenário que se espera de algum outro planeta. A madeira seca e em formas bizarras remetia minha imaginação a grandes totens de uma civilização pretérita. A descida fiz já sob calor muito intenso (foi bom ter subido bem cedo) e com pausas para beber água e apreciar a vista do camping, do curso do rio e do mar com sinal de terra distante, possivelmente a Isla Grande de Chiloé – de onde veio meu anfitrião na Terra do Fogo, Juan Antonio. A tarde desse mesmo dia foi na barraca, sem sobreteto, para escapar das mutucas. Mais tarde, quando elas se renderam, muitos momentos de contemplação do Michimahuida e seu enorme topo nevado por um lado e do fumegante Chaitén pelo outro.

No dia seguinte parti preguiçoso. Por um lado, após subir ao vulcão, eu já me sentia realizado, a viagem estava completa e eu estava morrendo de saudade da Lena. Por outro eu já tinha passagem de ônibus comprada de Puerto Montt para Santiago mais ou menos uns 10 dias depois, quando ela chegaria a Santiago. Fiquei então com esse tempo livre para pedalar trechos curtos. Assim, saí do camping El Volcán e já parei no Camping Cascadas Escondidas (ainda do enorme Parque Pumallin), apenas 15km depois. Mais um camping muito agradável e estruturado (ainda que sem energia ou água quente, como os outros), do Pummalin. Aproveitei o tempo bom para fazer as trilhas que levam a diversas cachoeiras muito bonitas e escondidas na floresta, entre enormes folhagens (Nalcas, Samambaias muito grandes, etc), gigantescos alerces, mínimos musgos e línquens por todos os lados. O dia seguinte já foi chuvoso novamente, então resolvi ficar parado por ali tomando chá, comendo e lendo enquanto a água despencava fora da pequena cobertura em que me instalei.

A chuva persistia pela manhã, mas o natal já se aproximava e meu plano era passá-lo enfiado no Parque Nacional Alerce Andino, já bem perto de Puerto Montt. Eu não queria nenhum contato com as festas ou com qualquer sinal de civilização, então resolvi partir na chuva mesmo. Foram apenas 15km pedalados até Caleta Gonzalo, onde há outra instalação do Parque Pumallin, com camping, café , lojinha e um pequeno porto. Dali peguei um barco da Transportes Austral, que faz as vezes de estrada para todos os veículos que passam por esse trecho da estrada. No site da empresa indicam 2 barcos intercalados por um pequeno trecho de terra. Depois de esperar algumas horas no café e depois sob chuva mesmo (o café fechou para a siesta), acompanhado por um ciclista suíço, embarcamos e descobrimos que seria um barco direto a Hornopirén (faz mais sentido).

Essa navegação é paga e leva umas boas horas. As cadeiras não são muito confortáveis, eu estaria mais à vontade pedalando, mas vale a pena pelo visual do litoral chileno, muito arborizado e pontilhado por pequenas comunidades locais de pescadores e pelos golfinhos  que vez ou outra seguiam a embarcação. No povoado fiquei numa hosteria com preço de camping e pela janela vi uma cena inusitada. Dezenas de aves marinhas do tamanho de um pato voavam até um ponto rio acima, pousavam na água e desciam boiando pela correnteza até o mar. Repetiam isso por horas e horas. Só no dia seguinte fui entender: rio acima tem uma fábrica que processa os peixes pescados e criados nas fazendas de salmão, os detritos saem por um cano para a água do rio e as aves fazem a festa.

De Hornopirén segui pela Carretera Austral, quase toda asfaltada, em um dia que alternou chuva e sol, quando passei por dois brasileiros iniciando a pedalada. Próximo ao mar, o trecho não deixa de subir e descer o tempo todo até Caleta Puelche, onde peguei mais uma balsa para La Arena, a última da viagem. Alguns km depois saí do asfalto para a estrada que sobe em direção ao Parque Nacional Alerce Andino. O camping do parque estava interditado, assim como metade da trilha. Resolvi então me instalar no camping imediatamente fora do parque, à beira do Rio Lenca.

Fiquei por ali por mais dois dias, em um dia fiz a metade aberta da trilha (o plano original era ir à portaria norte do parque em um dia e voltar no outro) e passei a véspera de natal muito bem instalado no camping deserto, hotel de bilhões de estrelas naquela noite de céu limpo, à beira do rio. O que eu não esperava é que no meio da madrugada chegassem 3 carros tocando um tipo de tecnobrega local no último volume e começassem um churrasco às 2h da manhã. Nada que o fone de ouvidos não resolvesse…

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Puerto Montt: onde, sob a mira de dois vulcões, desmontei e encaixotei a bicicleta para ir de ônibus até Santiago. Recomendo a quem vá fazer o mesmo, pelo menos um dia inteiro livre para achar uma caixa e fazer o trabalho. Na falta de ferramentas, a cidade tem boas bicicletarias para ajudar.

Na pedalada final até Puerto Montt, foi engraçado reencontrar os ciclistas sulafricanos que já havia conhecido em Puerto Rio Bravo, nos primeiros dias na Carretera – foram até Puerto Natales e voltaram de barco, se não me engano. A estrada nesse último dia não foi das mais agradáveis. O ambiente ainda é bucólico, embora mais povoado, mas o movimento dos motoristas de feriado, com suas buzinas e habilidades duvidosas não ajudou. Apesar disso, eu me sentia feliz e com sensação de ter completado uma viagem sonhada e planejada por tanto tempo. A cada pedalada estava mais perto de casa, do meu cachorro e da minha namorada (agora esposa, vejam só!). As últimas pedaladas, prestes a entrar em Puerto Montt, sob a mira distante dos vulcões Cabulbuco e Osorno, foram dadas enquanto repetia o refrão:

I’m coming home, I’m coming home, yeah
I’m going back to my home

I’m going home, home, home
Going home, home, home
I’m coming back

Todas as fotos do trecho (clique na imagem para ver maior):

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Clique na imagem para ver o mapa completo e dinâmico dessa etapa da viagem (aproximado, puxado da memória, quase um ano depois).

10/12 – Acampamento selvagem a sul de Villa Manihualles – 70 KM
11/12 – Camping Laguna Las Torres – 59 KM
12/12 – Camping Parque Nacional Queulat – 79 KM
13/12 – Camping Parque Nacional Queulat (visita ao Ventisquero Colgante)
14/12 – Camping La Junta – 66 KM
15/12 – Camping “Selvagem” Rio Frio – 70 KM
16/12 – Camping Carlos Cuevas (Parque Pumallin Sul – El Amarillo) – 63 KM
17/12 – Hosteria em Chaitén – 41 KM
18/12 – Camping El Volcán (Parque Pumallin) – 32 KM
19/12 – Camping Cascadas Escondidas (Parque Pumallin) – 15 KM
20/12 –Camping Cascadas Escondidas (Parque Pumallin)
21/12 – Hosteria em Hornopirén – 15 KM (até Caleta Gonzalo. Depois, longas horas de navegação)
22/12 – Parque Nacional Alerce Andino (camping do lado de fora) – 79 KM (+ pequena navegação)
23/12 – Parque Nacional Alerce Andino (camping do lado de fora)
24/12 – Parque Nacional Alerce Andino (camping do lado de fora)
25/12 – Hosteria Miramar em Puerto Montt – 43 KM

Distância percorrida no trecho: 632 KM.
Total da viagem: 7.242 KM (marcados no odômetro, fora empurradas, caronas e barcos).

Total de gastos no trecho: 53.400 pesos chilenos

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