Parte 10: A Carretera Austral – parte Sul.

A golden haze just floating on
The broken sods of earth
A Minotaur is dead and gone
Since man had his birth
Ulysses no longer searches
For his golden fleece
But somewhere I know that I will
Find my place of peace
Oh now babe see what you have done

Some day sunrise coming my way
Some day sunrise coming my way
Some day sunrise coming my way
Some day sunrise coming my way

(…)

Man has taken all he wants
Given nothing back
Soon his bombs will open
Every fissure every crack

Novembro já chegava ao fim quando Kim e eu desmontamos nosso acampamento no quintal da El Charito, em El Chaltén. O pezinho da minha bicicleta finalmente quebrou. Depois de segurar os 60kg bravamente pelas secas estepes patagônicas, não posso reclamar do momento. De agora em diante eu entraria na Carretera Austral, onde água e árvores pra encostar a bicicleta não deveriam faltar. A estrada que parte da cidade rumo ao Lago del Desierto segue entre rios, nevados e bosques, já dá o tom do que encontraríamos no Chile. O ambiente é completamente diferente do semi-deserto que deixávamos para trás. O rípio ora compacto, ora pedregoso também já anunciava o terreno à frente.

Com cerca de 40km pedalados, chegamos ao Lago. Dali as alternativas são pagar uma bolada para atravessar até o outro lado com os barcos, ou se arriscar na trilha de cerca de 12km que segue pela margem. Tentando economizar essa grana e achando que 12km não podiam ser tão duros assim, entramos na trilha. Pra começar uma ponte de madeira e cabos de aço, bamba, em que não era muito fácil passar com a bicicleta carregada – com ajuda mútua conseguimos. Depois, entre pedras, raízes, galhos, sobes e desces empurrando aqueles trambolhos descomunais que carregávamos, tirando alforges, batendo a canela no pedal, o pedal em pedras… percebemos que não tínhamos feito 1km em 1h. Com o risco de acabar quebrando algum equipamento (o que naquele ponto poderia comprometer gravemente a viagem), voltamos e pagamos pela travessia no barco.

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Acampamento Lago del Desierto (norte)

Na mesma viagem foi um casal de experientes cicloturistas holandeses. Eles pagaram, ainda na cidade, o mesmo valor que nós. Pelo menos não estávamos sendo extorquidos, como havíamos suspeitado. De dentro do barco tentamos localizar a trilha, mas só víamos paredões cada vez mais íngremes. Já no acampamento, na margem norte, encontramos um caminhante argentino que achou a trilha bem dura. Nada recomendável para bicicletas.

Nesse dia e nos próximos eu e Kim conversamos algumas vezes sobre as possibilidades e limitações de uma viagem no estilo “bikepacking” (ao invés de carga pesada em alforges). O acampamento em si é digno de nota. Não tem estrutura, é só o gramado às margens do lago e ao lado da casinha dos militares argentinos (onde se carimba o passaporte). Como se o cenário já não fosse o bastante, a presença maciça do Fitz Roy ao fundo, ainda que parcialmente encoberto por nuvens, faz desse um dos melhores lugares em que acampei na viagem. Não podia faltar um banho nas águas de degelo – sem vento, o frio é totalmente tolerável e até agradável.

Combinei com o Kim de dormir até um pouco mais tarde, já que vinhamos acordando muito cedo sempre. Mas não teve jeito, estávamos com o relógio biológico adaptado e às 7:00h as barracas já estavam desmontadas. A trilha adiante prometia ser dura: um singletrack morro acima. Preocupados, os holandeses já haviam partido, junto com outros dois compatriotas que também estavam no acampamento na noite anterior. Esses últimos diziam ter tentado a trilha e que era impossível. Estavam tentando contato com o chileno de Candelario Mancilla para transportarem parte de sua bagagem em seus cavalos.

Já no começo da trilha nos encontramos todos em um engarrafamento. Não é apenas um singletrack íngreme, mas em muitos trechos é uma vala estreita e tem uns 2 ou 3 riachos sem ponte para atravessar. As bikes carregadas simplesmente entalavam ou eram pesadas demais para empurrar. Eles sacavam os alforges, andavam 100m, instalavam novamente, buscavam o que tinha ficado pra trás e instalavam de volta na bike para seguir até o próximo obstáculo. Eu optei por outra estratégia, deixei minha bicicleta com a barraca e dois alforges pequenos no pé da trilha e subi com a mochila e os alfoges grandes feito uma mula de carga.

Andava rápido e cheguei primeiro ao Lago Larga, situado no meio da trilha, que nesse ponto sumia em um pântano. Eu procurei algumas vezes o caminho, até que achei no Maps.me a continuação da trilha pelo outro lado: teríamos que atravessar o pântano mesmo. Deixei minhas coisas ali e já comecei a descer num trote rápido para buscar a bicicleta. Encontrei o Kim subindo e o pessoal tentando passar os riachos com as bicicletas, avisei pra todos sobre o pântano e segui. Na volta, com a bicicleta leve e sem tanto alforge pro lado, subi com facilidade (mas não sem suor e uma leve garoa) e encontrei todo mundo receoso de pisar na lama, menos o Kim, que já tinha sumido. Quando apareceu o dono dos cavalos no meio do pântano, ficou claro que era por ali mesmo. Houve quem estivesse muito irritado de ter que enfiar o tênis limpinho na lama, mas quando viram no mapa as alternativas para chegar à Carretera Austral se convenceram.

Comi uns biscoitos com geléia enquanto eles se preparavam, fazendo uma espécie de cordão humano pra ir passando os alforges e bikes. Entrei na onda, ajudei e fui ajudado, mas ninguém se salvou de chafurdar os tornozelos. Depois dessa eles seguiram pela outra metade da trilha, no mesmo ritmo em que começaram. Eu repeti minha estratégia e levei alforges e mochila até a placa que diz “Bienvenido a Chile”. Quando finalmente peguei a bicicleta, consegui pedalar, me equilibrar com um pé no chão por vários trechos e empurrar muito pouco, chegando junto com todo mundo –e muito mais descansado – ao ponto em que a trilha volta a ser (mais ou menos) uma estradinha. Creio que até esse ponto foram uns 6km (como fui, voltei e fui novamente, pra mim foram 18km).

Dali em diante a estrada é ruim e tem muitas pedras soltas, pedras grandes e areia, sobe e desce constante, além de algumas árvores caídas e atravessadas. Pelo menos se atravessa pedalando com todos os alforges. Quando se chega ao topo a visão é ridiculamente bonita e faz esquecer todo o perrengue passado na trilha, as câimbras, dores e qualquer outro problema. O Lago O’Higgins e sua cor indescritível, cercado de montanhas, esperava ao fim de um downhill traiçoeiro. Precisei parar para regular os freios, mas só deu pra usar o traseiro naquela descida, íngreme e confusa sobre lascas de pedra solta.

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Entrando no Chile com vista para o Lago O’Higgins. Na foto parece até uma descida suave.

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Manutenção e limpeza no escritório do dia.

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Lago O’Higgins

Acampados em Candelario Mancilla estavam mais meia dúzia de ciclistas e caminhantes que aguardavam o barco rumo a Villa O’Higgins no dia seguinte. Um deles perdeu o barco 1 semana atrás e ficou preso ali. Por isso é importante saber os dias e horários do barco em cada mês (fora da temporada não tem barco). É um transporte caro, mas não existe alternativa. No sábado pela manhã aproveitei para secar umas roupas ao sol e dar uma geral na bicicleta e tirar toda a lama do dia anterior. Instalei novas sapatas de freio e deixei tudo o que estava ao meu alcance pronto para seguir adiante. Precisei limpar meu fogareiro mais uma vez, e vi um Primus dos holandeses que parecia muito mais simples e resistente que meu MSR.

O mesmo barco que nos levaria para norte, trazia uma leva de ciclistas para o sul. Com suas bikes limpinhas, mal sabiam o que lhes esperava à frente. Creio que naquele sentido é ainda mais difícil. Navegamos o Lago O’higgins por umas 3h até Villa O’higgins, com uma paisagem brutal de montanhas,  pequenas praias desertas e muitas cachoeiras. No primeiro dos 7 ou 8 km do porto até o povoado, meu bagageiro traseiro quebrou novamente, em outro ponto. Gambiarrei com abraçadeiras plásticas e silvertape pra chegar lá. Todo mundo ficou no camping/hostel El Mosco (valeu pela internet, banho quente e cozinha, mas o chão é inexplicavelmente duro para o espeque das barracas). Até mesmo com internet na praça central, o povoado é bem arrumadinho e fica numa região muito bonita. Localizei um soldador para arrumar o bagageiro, mas ele estava fora e só voltaria na segunda. Reforcei toda a gambiarra e segui viagem com o Kim.

Entramos finalmente na Carretera Austral. Lugar de tantos relatos lidos, de montanhas e lagos com que sonhei por alguns anos. Numa manhã fresca e agradável seguimos contornando o relevo e a vegetação da região. A umidade é o que se destaca e o que era uma névoa onírica não demorou a se transformar em uma chuva gelada na  primeira subida mais longa, onde encontramos mais alguns ciclistas dos EUA finalizando a Carretera. Após descer chegamos ao vale de um rio. A estrada não ficou plana por mais de 500m e já iniciamos outra longa subida, cercados por uma quantidade inacreditável de cachoeiras à esquerda e por um abismo do profundo vale do Rio Bravo. A chuva fina encharcava tudo o que estava fora da roupa impermeável, o suor cuidava do que estava dentro. Enquanto eu girava em uma cadência alta e na marcha mais leve para vencer a subida, um condor nos sobrevoava de uma altura imensurável. A cada pedalada eu repetia o mantra “Some day sunrise coming my way“. Não estávamos muito longe do campo de gelo do sul da Patagônia.

Quando fizemos o segundo downhill do dia, acampei protegido sob a ponte do Rio Tranque. A barraca do Kim não é autoportante. Não dava pra armar na base de concreto da ponte. Ele teve dificuldade em achar solo seco onde pudesse se acomodar. Ali, tudo o que não era ponte ou estrada estava tomado por uma espécie de línquen espesso e que atuava como uma esponja na retenção da água. Enquanto preparávamos nosso jantar na varanda gourmet, sob a ponte mas uns 10m acima do nível do ruidoso rio, quebrei uma peça fundamental do meu fogareiro: A bomba de combustível. Fiz a limpeza, troquei umas vedações e, na hora de montar… crek numa peça plástica. Sem chance de achar outra dessa naquela região. Passei a usar o do Kim emprestado e dei todo o meu combustível para ele. Se eu quisesse cozinhar minha comida, teria que seguir na bota do sueco até a próxima cidade, Cochrane, 2 dias a frente. Eu estava cansado e planejava esticar o trecho em mais dias para aproveitar melhor, mas não me restou outra opção. Ele precisava seguir num ritmo mais forte o seu cronograma. Fogareiro, bagageiro, meu equipamento ia se desintegrando, mas não dava pra me irritar muito naquele cenário. Era manter a calma e dar um jeito.

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Vale do Rio Bravo

No meio da madrugada acordei com uma chuva intensa e prolongada. Acordei novamente 6:30h, comecei a me arrumar e vi o Kim do outro lado guardando a barraca na chuva. Tomamos café e saímos sem esperança de ver o sol. Logo encontramos um holandês com problemas nos rolamentos dos pedais. Ele esperava consertar em Villa O’higgins.

Começamos a subir bastante o que achávamos ser a última grande escalada antes de Cochrane. Mesmo com o tempo fechado e eu empapado de suor por baixo da jaqueta, a paisagem é linda com o vale do rio muito abaixo e inúmeras cachoeiras despencando das montanhas nevadas. A chuva ia e voltava e o vento também. O downhill em serpentina fiz segurando muito nos freios, com medo do bagageiro quebrar de vez. Ah, se eu tivesse no esquema bikepacking…

Depois foram algumas retas e pequenas subidas e descidas até Puerto Rio Bravo, no final a estrada estava com mais pedras soltas, mas no geral é boa em todo o trecho. Ali o sol já estava aparecendo e logo o dia ficou lindo. Esperamos umas 2h. Cochilei no abrigo de madeira em que muitos ciclistas passam a noite e o Kim abriu a barraca dele pra secar. A balsa é grátis e demorou uns 50minutos pra atravessar, cochilei novamente.

Do outro lado 2 ciclistas da África do Sul esperavam a próxima travessia, tomamos um café e trocamos impressões da estrada. Descobrimos ali que teríamos mais uma escalada no dia, o que é meio óbvio já que estávamos em mais um lago cercado de montanhas. A única saída é pra cima. Dali em diante a inclinação em alguns pontos é muito intensa e com cascalho solto e a bike pesada foi duro, empurramos uns 500m e voltamos ao pedal. No topo da estrada e no downhill,  entramos no vale do Rio Vagabundo, onde passamos por mais ciclistas indo para o Sul.

Não fomos para Caleta Tortel e seguimos adiante já numa área plana até dois campings que tinha no mapa. O primeiro era só um lugar de camping selvagem na beira de um rio, que já estava bom. O segundo era um camping privado mas estava vazio. Seguimos até um outro rio que tinha no mapa e acampamos atrás de uns arbustos. Com minha barraca laranja eu não devia estar muito escondido da estrada, o verde ali ia bem melhor na camuflagem.

A madrugada foi fria e o céu estava completamente limpo e estrelado. Pela manhã percebemos que o sol demoraria a subir pelas montanhas até nos atingir no fundo do vale do Rio Carrera. Na esperança de secar as barracas do sereno da noite,  arrumamos as outras coisas e comemos preguiçosamente. Não tinha uma nuvem no céu quando começamos a pedalar, e ficou assim o dia inteiro. Depois de alguns km entre bosques e pouca elevação,  encontramos mais 2 franceses. Logo em seguida entramos em uma serra em caracol…nos primeiros 5km é uma ascensão íngreme e quando parece que chegou o topo e começa uma reta ou leve descida, sobe-se mais. Não existe topo nas estradas chilenas.

O Kim sumiu na frente e só o encontrei quando ele parou pra cozinhar. Retomamos o pedal mas o calor era extremo, somado as nuvens de poeira que nos cercavam a cada carro que passava. Eu já estava muito fraco quando o vi quase cair e começar a empurrar a bicicleta. Confesso que fiquei aliviado, pensei que só eu estava sentindo a porrada. Combinamos de parar na próxima sombra, mas não tinha muita opção naquele trecho surpreendentemente seco da Carretera Austral. Eu pedi sol, não pedi? Dormimos na beira da estrada, sob a primeira árvore que apareceu, por uns 30 minutos, para esfriar o corpo. Nos últimos 15km antes de Cochrane a estrada era apenas areia e costela de vaca. Só compensou porque costeava a Laguna Esmeralda,  cujas águas verdes e translúcidas são difíceis de descrever. Fiquei aliviado de chegar à cidade sem mais nenhuma baixa no meu equipamento.

Comecei dezembro no Camping Cochrane, onde também está uma família da Nova Caledonia,  uma ilha francesa no Atlântico. Pai, mãe e um casal de pré-adolescentes pedalam duas tandems semi-reclinadas, além de outros ciclistas e caminhantes que também se espalhavam por ali. Pela manhã ainda fui correr atrás de fazer um reparo no bagageiro, o que consegui com apoio de um cara do Warmshowers, o Tomas, que foi muito gentil e me levou a cada oficina automotiva da cidade até conseguirmos alguém que fizesse. Essa foi a única vez que consegui aproveitar o Warmshowers em toda a viagem. Também fui ao supermercado na praça central, onde a seção de ferramentas e ferragens é muito boa e é ali que eu teria que achar alguma solução de gambiarra mais forte caso não tivesse conseguido soldar. Nesse supermercado comprei um novo fogareiro a gás e mais 2 ou 3 botijões. Por fim, depois de umas 3 tentativas de mandar o fogareiro velho e umas roupas pro Brasil, por alguma regra do correio que não consegui entender, tive que mandar o pacote para a casa do pai do David em Santiago (para resgatar depois). Valeu Batera!

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Lago Esmeralda, nas imediações de Cochrane.

Nesse meio tempo o Kim estava pronto para partir e nos despedimos lembrando como a gente se deu bem na estrada, mesmo ritimo,  peidos e piadas idiotas – além de termos saudades das namoradas esperando em casa na mesma ansiedade. Por outro lado, não posso negar que eu já estivesse a fim de pedalar sozinho novamente. O Kim estava no primeiro mês de viagem, louco para andar numa cadência forte até a Bolívia. Eu estava no último mês de viagem e já preferia relaxar e aproveitar os acampamentos selvagens que a Carretera Austral oferece.

Quando pensei numa viagem assim, quando me preparei para isso, sempre pensei em autossuficiência, em ser capaz de resolver sozinho os problemas que aparecessem e de sair das enrascadas em que me metesse. É importante pensar assim e se preparar para isso, porque algumas situações aparecem. Mas a verdade é que não se viaja sozinho. Entre as pessoas que me abrigaram, que me ofereceram carona, que me deram informação na estrada, Kim, Tomas, David, os que me escreveram mensagens de apoio na internet, sem nem falar da minha família e do meu amor, encontrei incontáveis companheiros de viagem e muita solidariedade – inclusive de gente que normalmente não estaria entre minha esfera de convivência se morássemos na mesma cidade. Ninguém viaja 100% sozinho.

A saída de Cochrane, tinha um rípio horrível, como na entrada sul. Depois de uns 10km vira o melhor ripio do mundo, perfeitamente liso e superior a muito asfalto que peguei na viagem, mas so até a entrada do Vale Chacabuco. Depois de uma segunda subida íngreme no dia, voltei a margear o Rio Baker em seu azul inexplicável até que avistei uma cachoeira do rio. A queda não é grande,  mas o volume de água impressiona. Depois de um tempo passei a margear o Baker quase em seu nível. Faltavam 2km para o povoado Puerto Bertrand quando avistei da estrada, uns 8m abaixo e entre as árvores,  um abrigo de madeira com aspecto de abandonado. À frente e perto da água de um verde azulado extremo, restos quase irreconhecíveis de uma canoa. A trilha não tinha sinal de uso recente, nem o piso do abrigo, que varri com um galho cheio de folhagem. Montei a barraca dentro, consegui um espaço pra bicicleta (de pé) e ainda havia uma prateleira que foi minha cozinha. Tomei banho na prainha de água calma em frente da minha cabana particular temporária. O refugio perfeito para a noite.

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Vista do abrigo, às margens do Rio Baker.

Saí do meu chalé particular às 9h e quando estava na estrada montando os alforges passou voando um ciclista viajante que provavelmente dormiu em Puerto Bertrand, começou o dia animado. Nem entrei no povoado,  já segui pela carretera para a primeira subida do dia. Do alto vi as montanhas nevadas e um braço do lago Bertrand que é contornado pela estrada. A cor é a mesma inacreditável. Comecei a passar por vários ciclistas sem bagagem significativa.  Achei que fosse algo como um audax ou alguma prova, pois tinham placas com números, mas cada um usava uma bicicleta de uma modalidade diferente.  Depois perguntei a uns que estavam parados: vêm de Bogotá até Ushuaia,  mas têm um caminhão de apoio.

A estrada seguiu margeando o Lago General Carrera, impressionante por ser ao mesmo tempo gigante e mesmo assim limpo e translúcido. Quando a estrada se afastou um pouco do Lago, começou uma sequência de ripio horrível e zero sombra. A essa hora eu já queria almoçar,  mas tive que pedalar mais uns 15km assim até conseguir uma sombra e água. Minha garrafinha menor caiu pelo caminho e nem vi onde. Apesar desse trecho, a Carretera Austral praticamente dispensa garrafas. Tem tanta água por ali, que uma canequinha ou mesmo um canudinho dariam conta. Imagina a cena.

Nas subidas algumas mutucas enormes me perseguiam o tempo todo, mas eu não me sentia tão fedido assim. Quando parei na sombra pra comer, elas vieram com tudo. É fácil matá-las antes da picada, mas aos poucos eram 2, 5,10… voltei ao pedal. Calor, mutucas e estrada ruim, nada que chegasse a ser um problema naquele ambiente.

Que as Capillas de Marmol ficam em Puerto Rio Tranquilo eu só lembrei por causa das placas na beira da estrada. Lembro que minha mãe tinha lido alguma coisa sobre isso na internet e me recomendou. Resolvi fazer o passeio e valeu muito a pena. Parei no primeiro camping que encontrei e me arrependi, Camping Silvana é horrível. A internet é fraquíssima, tive que pedir pra dona arrumar o chuveiro e descobri que ela tinha pego o gás pra cozinha dela pra esquentar água pro mate. Pra completar perdi a chance de fazer o passeio no mesmo dia porque ela me empurrou pro barco do filho dela junto com outros hóspedes.  No fim não teve passeio porque precisava de 5 pessoas no mínimo. Acabamos fechando com outro barqueiro por um preço melhor para a manhã seguinte. No fim das contas deu tudo certo, porque lá nos paredões e grutas bate o sol da manhã, não o da tarde. Indo naquela tarde eu teria perdido os reflexos extraordinários que a água projeta no mármore. À noite uma dupla de Hong Kong que está numa das cabines do camping veio conversar,  também estão de bicicleta e trocamos dicas valiosas do caminho.

Pela manhã peguei o barquinho turístico. Todo o passeio levou 1:50h. A transparência do lago General Carrera é inacreditável. Queria ter ido de caiaque e feito fotos com mais calma, mas é muito mais caro. As fotos falam um pouco (bem pouco) do que é esse lugar, não vou nem tentar descrever (tem muitas outras no link no fim da página).

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Capillas de Marmol

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Capillas de Marmol

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Capillas de Marmol

Como em toda a Carretera, o trecho do dia alternou ripio horrível e excelente, nunca consegui entender o critério adotado para cuidarem apenas de certos pedaços da estrada que não são delimitados por cruzamentos ou povoados. Naquela região sempre tem alguma inclinação, mas o dia foi bastante plano e as subidas foram curtas. Primeiro contornei parte norte do Lago e depois a estrada segue pelo Rio Murta.

No caminho reencontrei um casal de alemães que quase sempre dorme no carro ou ao ar livre (sem barraca), nos conhecemos na trilha do Lago del Desierto para Candelario Mancilla e até Villa O’higgins, onde eles tinham deixado o carro. Depois encontrei dois franceses com as bikes encostadas numa ponte. Esperavam o terceiro, que chegou de carona numa pickup: ele tem quase 70 anos e ha 40 anos trabalha 3  para viajar 9 meses do ano, sempre de bicicleta. Infelizmente ele estava cansado e seguiu de carona, não deu pra conversar ou tirar uma foto do Jean Claude. Mais adiante encontrei outro francês. Acho que são os que mais pedalam por aqui.

Eu estava pensando se acampava ou se fazia mais 15km até um lago no meu mapa. Creio que havia passado do local indicado pela dupla de Hong Kong, não quis voltar. Achei uma casa que parecia vazia. Ninguém respondia, mas o terreno estava bem cuidado e a cerca fechada. Segui adiante até que vi uma tronqueira aberta e fui olhar: um gramado com vestígios de uma fogueira de um acampamento anterior. Eu estava à beira do Rio Murta, mas em terreno elevado e oculto da estrada. Nada mal. O leito do rio é enorme e grande parte está seca, são apenas pedras e vestígios de troncos que arrastou em períodos de cheia.

Resolvi ficar por ali. Fiz uma simulação de como seria seu tivesse que montar a barraca na chuva, mas o grande desafio foi sobreviver às dezenas de enormes mutucas que vinham me seguindo há alguns dias. Matei algumas enquanto tentava montar a barraca, mas sempre aparecem mais. Enquanto cozinhava aproveitei a chama do fogareiro pra reacender a fogueira velha, só o mínimo suficiente pra fazer uma fumaça e espantar os bichos. Não estava frio e eu não queria ser visto da estrada, então não deixei virar fogo alto e apaguei antes de entrar na barraca.

Ainda havia luz do dia mas as mutucas já haviam se recolhido quando fui observar o rio. Horas antes fui buscar água tive que caminhar pelo leito de pedras secas até o fluxo de água que corre pela margem direita e só ocupa 1/4 da largura. Coisa de 2 ou 3 horas depois a água já achava um caminho na margem esquerda e eu já não conseguiria chegar ao ponto em que tirei algumas fotos. Se era degelo ou chuva ao norte, eu não fazia idéia. Interessante presenciar uma mudança tão rápida.

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Acampamento nas margens do Rio Murta.

Acordei com uma esperada chuva na madrugada. A barraca estava seca. Era o primeiro teste de chuva realmente forte depois que impermeabilizei as costuras. A única vantagem do fogareiro a gás é que eu consigo,  com muito cuidado e só em caso de necessidade,  usar abaixo do sobreteto da barraca enquanto a água molha tudo lá fora.

O dia já começa numa bela inclinação. Subi lentamente e lá em cima o sol achava seu caminho entre as nuvens, arrancando da estrada fios de vapor. Após a longa e suave descida cheguei ao Vale Muerto, com tempo ainda indeciso e rápidas chuvas chegando com o vento. Como já não fazia e eu não sentia tanto frio, parei de usar a calça e a polaina impermeáveis em chuvas leves. A bota resistente à água e a calça de secagem rápida são mais eficientes do que a calça que não deixa o suor secar.

Breve comentário sobre os equipamentos impermeáveis:  1) No anorak da Trilhas & Rumos, senti falta de aberturas para transpirar melhor,  como zíperes sob os braços. 2) As polainas da Alpamayo podiam ser mais compridas na canela. 3) A bolsa de guidão da Ararauna, tem um volume excelente, é muito forte e resistente e oferece compartimento para a câmera e lentes, mas não é impermeável. Isso pra mim é incompreensível, já que eles fazem um alforge impermeável. Se têm a tecnologia, porque não usar num equipamento que se propõe a levar eletrônicos? A capa de chuva da bolsa atrapalha: zero praticidade e às vezes o ziper prende no saco estanque e dá muito trabalho pra abrir. Perdi umas boas fotos por isso. O Kim tinha uma bolsa impermeável, muito mais prática. Para sacar a câmera e guardar rapidamente, mesmo durante chuvas. No fim das contas, estavam certos os Pedarilhos. Nada contra meus alforges Ortilieb (são ótimos), mas faz mais sentido pra economia da viagem usar alforges nacionais de cordura (Ararauna, Aresta, Alpamayo, Deuter…), com sacos estanque dentro e uma bolsa de guidão impermeável. Fiz o contrário. 

Do Vale Muerto em diante teve mais uma subida forte e descida. Todo esse trecho está em obras e o ripio ainda é um amontoado de pedras soltas, algumas enormes. Difícil. Dois ciclistas passaram direto e depois dois poloneses pararam, um deles com uma jersey de ciclismo do popeye que parecia um abadá de carnaval, ele estava muito feliz e bem humorado embora não falasse nada de inglês ou espanhol. Mais adiante encontrei um alemão que já rodou a África e agora roda as Américas, já perdi a conta de quantas pessoas encontrei pedalando por ali. O dia foi todo com muitas nuvens e ainda assim a visão do Cerro Castillo é impressionante. No povoado homônimo ao pé das montanhas, fiquei num camping muito vagabundo que só tem grama e água, mas só paguei uma merreca simbólica. Eu poderia ir procurar um lugar na estrada, certamente encontraria, mas estava já bem cansado.

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Vale Muerto

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Reserva Nacional Cerro Castillo, vista da Carretera Austral.

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Caracoles saindo de Cerro Castillo sentido norte.

Na madrugada saí da barraca e passei alguns minutos observando as montanhas recortarem o céu já absolutamente limpo e infinitamente estrelado. Me arrependo de não ter acordado novamente com o sol nascente pra pegar uma boa foto do castelo de pedra. Saindo da cidade vi alguns lugares pra acampar que seriam melhores que o “camping”, assim como fazendas em que podia pedir pra acampar e um ou dois campings privados antes da subida em serpentina, que é bem divertida. Opções não faltariam. Ali eu sentia um ventinho que ajudava e atrapalhava dependendo da curva. Encontrei mais dois italianos descendo, conversamos um pouco. Terminei a subida e comecei a descer rapidamente.

Liguei a câmera na esperança de ver um Huemul, já que estava dentro da Reserva Nacional Cerro Castillo. Não tive sorte. Num certo ponto eu descia suavemente um trecho em que o rio corria no sentido contrário e gerava uma sureal confusão mental, como se a água estivesse subindo.

Cheguei ao camping da Reserva e ninguém apareceu para me receber, fui me instalando. Depois de 2 horas tentando fazer um fogo decente na caldeira que aquece a água do banho, consegui uns 5 min de água morna. Enquanto isso eu lia e observava a brusca escalada do vento que sacudia todas as árvores e a minha barraca, que seguia resistindo bravamente. Eu só fui saber no dia seguinte, mas esse vento foi o responsável por virar o caiaque e levar à morte por hipotermia de Douglas Tompkins – o milionário conservacionista que foi responsável por boa parte dos parques e reservas ecológicas da Patagônia.

Saindo do camping e do parque a estrada continua o downhill do dia anterior, acho que nesse dia bati o recorde de velocidade da viagem, 69km/h. Aos poucos foi aparecendo uma zona rural mais povoada que os trechos da Carretera que eu deixava para trás. O vento lateral bateu forte conforme o relevo se tornava mais plano e mais aberto. Quando cheguei ao cruzamento da rodovia que liga Coyhaique ao aeroporto Balmaceda a estrada perdeu um pouco a graça: o movimento de carros e caminhões é bem intenso, o vento pampero voltou com tudo e me cansou apesar de ser ainda uma longa e suave descida. A paisagem é interessante, mas por ali já se vê muita erosão com dedo humano e umas tentativas de reflorestamento que parece ser para segurar os desmoronamentos.

Na cidade girei em circulos em busca de camping ou hostel, meu celular estava sem bateria. Achei dois ciclistas que me indicaram o camping, fora da zona urbana e sem internet. Fiquei numa hosteria com quarto só meu, café e internet boa. Mais barata que o hostel descolado que vi depois. Resolvi ficar duas noites, fazer um dia de descanso, e pra dar uma revisada na bike antes de partir para a última etapa da viagem: a metade norte da Carretera Austral.

Todas as fotos do trecho (clique na imagem para ver maior):

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26/11 – Lago del Desierto – 39km
27/11 – Candelario Mancilla
28/11 – Villa O’higgins
29/11 – Ponte Rio Tranque – 69km
30/11 – Ponte Rio Carrera – 90km
01/12 – Camping Cochrane – 74km
02/12 – Camping Cochrane
03/12 – Abrigo à beira do Rio Baker 47km
04/12 – Puerto Rio Tranquilo – 71km
05/12 – Acampado no Rio Murta – 56km
06/12 – Villa Cerro Castillo – 70km
07/12 – Camping Parque Nacional Cerro Castillo – 41km
08/12 – Coyhaique – 67km
09/12 – Coyhaique

Distância percorrida no trecho: 624 KM
Total até 09/12: 6610 KM
Total de gastos no trecho: 115.950,00 pesos chilenos

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