Parte 9: pela pampa rumo à cordilheira.

Sick of politicians, harassment and laws
All we do is get screwed up by other people’s flaws
World turned upside down now, nothing else to do
Live in concrete jungles that blocks up the view
And that ain’t no joke
You can disappear in smoke
And that ain’t no joke
You can disappear in smoke
And I’m telling you that it ain’t no lie

Porvenir é uma cidade pequena e serve de entrada na Ilha Grande da Terra do Fogo para quem vem de Punta Arenas. Seria a minha saída. O ferry, pelo menos em novembro de 2015, só saía 1 vez por dia: Às 13h do continente para Porvenir e às 14h no sentido contrário. No dia anterior, por conta das más condições climáticas, os portos ficaram fechados.

Ainda pela manhã dei uma volta pelas ruas. Apesar de já ter entrado, saído e voltado pro Chile nas semanas anteriores, era a primeira cidade chilena em que eu entrava. As construções em geral são em madeira ou chapas de metal. O acabamento de janelas e portas e outros pequenos detalhes têm relação com a imigração de croatas do período da febre do ouro. Em geral achei que as pequenas cidades chilenas são mais bonitinhas e bem cuidadas que a maioria das suas irmãs argentinas, uruguaias ou brasileiras.

Nesse ferry precisei pagar pela viagem: 6.200 pesos chilenos. Enquanto fotografava o mar e passeava entre as cadeiras da embarcação, encontrei o suíço e a canadense que saíam de Ushuaia enquanto eu chegava. Assim como os escoceses, eles tentaram pedalar por umas rotas alternativas na terra do fogo e apanharam bastante do vento, mas só pegaram carona no último dia, para chegar a tempo do ferry. Chegaram a abrir e fechar diversas porteiras por estradas rurais, apenas para descobrir que o passo de fronteira alternativo não estava aberto e não seria possível pegar os carimbos nos passaportes.

Depois de me instalar no hostel em que eu já tinha reserva, fui dar uma volta pela cidade. Fui a um mirante que não é nada demais, um cemitério que é famoso mas eu achei meio normal e a dois museus. Fui primeiro no dos salesianos, Museo Maggiorino Borgatello, que dá uma geral na fauna, flora, povos originais, história e geografia. Bem superficial, contado de um viés bem eurocêntrico, mas com ampla variedade de objetos. Tem um pavimentado bancado pela indústria de óleo e mineração que é puro jabá, não dá pra levar a sério.

O Museu Nao Victoria tem 3 réplicas de barcos históricos em tamanho real. A Nao Victoria, do Magalhães, é menor que eu imaginava. Não nego que foi divertido entrar ali e imaginar aquilo navegando por anos e anos na volta ao globo terrestre. O mais foda pra mim é o James Caird: pequeno e precário, amplificou ainda mais a história quase impossível de um dos livros que li durante a viagem e já mencionei aqui: A Incrível Viagem de Shackleton, de Alfred Lansing.

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Passei na Zona Franca e achei irritante aquele monte de gente tensa pra consumir: hipermercados, eletrônicos, carros, motos… tem de tudo ali. Deu preguiça. Vi uma boa loja de camping, quase tudo material da marca local Doite (gostei das barracas deles). Os preços são bons mesmo, mas achei que minha barraca ainda dava pro gasto. Comprei um selante de costuras para dar um reforço e resolvi seguir com ela pro resto da viagem. Foi uma aposta, porque justamente o último mês de viagem era o que eu passaria na Carretera Austral, com enorme probabilidade de chuvas fortes e duradouras.

O dia em que saí de Punta Arenas começou com um caco de vidro furando o pneu de trás. Minha bomba de ar estava esquisita, com a vedação comprometida. Resolvi me prevenir antes de encarar a estrada: fui a uma loja de bicicletas e comprei uma bomba nova e o lubrificante de corrente, o meu já estava no fim.

A estrada começa margeando o Estreito, como uma despedida, virando a seguir para cortar a pampa a noroeste, rumo à cordilheira e ao Oceano Pacífico. No caminho para Villa Tehuelches vi uma Ema dessas que existem no Brasil, grande e solitária. Não deu tempo de fotografar, ela sumiu entre os arbustos e ovelhas. Já no povoado tomei um café num kiosko e tentei comprar um chip de celular chileno. Não tinha, mas o garoto que me atendeu deu um usado de presente, eu paguei só pela recarga.

Resolvi fazer os 46km até Morro Chico para ficar no abrigo de vento que ouvi dizer que tem por lá, mas o vento apertou e se armava uma chuva sinistra no céu. Logo na saída da vila na base da Vialidad chilena, pedi pra acampar num lugar protegido do vento e fui prontamente atendido. Quem trabalha exposto às intempéries sabe o perrengue que é e sempre ajuda como pode.

Montei a barraca e impermeabilizei as costuras externas. Acho que exagerei porque ficou tudo branco. Acendi o fogão tão rápido quanto apaguei quando começou a chuva. Esperei passar, cozinhei. Quase pronto o jantar e a chuva recomeça. Terminei de preparar o grude sob gordas gotas geladas. Tudo isso com 2 cãezinhos tão lindos quanto endiabrados tentando me roubar a comida. Guardei tudo na barraca e comi la dentro. Um inconveniente do fogareiro multicombustível é que não dá pra usar na varanda da barraca, a chama alta que se forma nos minutos iniciais consumiria a lona rapidamente. A chuva batia no chão e congelava, mas não senti muito frio. A barraca aguentou bem depois da impermeabilização das costuras, o que me deixa mais tranquilo.

O dia seguinte continuou com vento muito forte, conforme previsto. Resolvi não seguir. Não fiz muito. Li bastante Jack London, brinquei com os cãezinhos, que ainda queriam entrar na barraca, roubar minhas coisas e roer as amarras, remendei uma câmara, fiz mais uma limpeza no fogareiro e à noite assisti parte de Uruguai 3 x 0 Chile com os caras. Torci pelo Chile por mera cortesia de hóspede, mas com o Valdivia em campo ninguém estava muito animado.

Na manhã da esticada para Puerto Natales o vento sudoeste me empurrou nos 40km até Morro Chico. Estava bem frio, mas a ajuda foi bem vinda – até mesmo para carregar o celular no dínamo. Vento a favor dura pouco, eu já sabia, e dali em diante com a curva na estrada, o vento foi na cara até o destino final… leeeeeeento.

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Pestilência em forma de fofura.

No caminho encontrei 2 italianos que não falavam muito bem espanhol nem inglês, mas rimos muito com uns gestos e tentando entender a língua alheia. Um deles usava um macacão largo e nada apropriado para a situação, mas com o vento nas costas deve ser uma boa vela.

Eu estava com frio e com o fleece todo suado abaixo do anorak. Me fez falta um corta vento respirável. Apesar das dificuldades o dia foi de uma paisagem bonita, a pampa nessa região está verde e explodindo em flores amarelas. Por estar mais perto da cordilheira, sobra mais água que na pampa argentina, muito mais árida. A maior quantidade de ovelhas e vacas por metro quadrado atestam. Aos poucos foram aparecendo rios, laguinhos e árvores, conforme os me aproximava dos andes e da costa do Pacífico.

Pedi água nos carabineros uns 15km antes de P. Natales. É engraçado como passam tantas bicicletas carregadas ali, todos os anos, mas eles ainda não entendem muito bem.

“-Cayó la motocicleta!
-Es una bicicleta. Yo la acosté.
-Desde Brasil en bicicleta? No!”

Já em Natales acampei no hostel Josmar, que tem uma estrutura simples mas eficiente. Fiquei um dia a mais na cidade, precisava fazer compras grandes pros próximos dias, além de lavar roupas.

Até então eu consegui sempre que precisei usar o banheiro de um camping, posto de gasolina, restaurante, hostel, etc. Mas dali pra frente eu pretendia rodar menos km diários, especialmente na carretera austral, e fazer mais camping selvagem. Precisaria então acrescentar mais um peso na minha bagagem: uma pequena pá para cavar o banheiro natural de cada dia. Dali em diante, junto com a tarefa de armar a barraca eu passei a escolher um cantinho reservado, longe dos cursos de água e deixar um buraco cavado ali para atender ao chamado da natureza.

O fim do dia foi andando pela cidade, tomada pelas hordas de turistas que vêm e vão ao Parque Nacional Torres Del Paine. A vista de um dos braços de mar do Oceano Pacífico, com as montanhas nevadas por todos os lados, faz o calçadão da cidade um lugar bem agradável para matar o tempo… para quem não se incomodar com constante brisa gelada. Os barcos, ancorados e no estaleiro, denunciam a atividade da cidade que vai além do turismo: a pesca industrial – ou constante saque e pilhagem dos mares.

Saí cedo de Puerto Natales, foi um dia bonito de sol entre nuvens. Caí na besteira de ir à Cueva del Mylodon. Foram só 16km ida e volta, em uma estrada até bem bonita, mas o destino em si não é nada demais. Temos cavernas mais legais no Brasil e a informação sobre o Mylodon é muito superficial. Deveria ter pesquisado melhor, pois imaginei que teria pelo menos uma ossada da criatura para por lá. É um caça-níquel de turista.

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Puerto Natales.

De volta à estrada, toquei para a mínima Cerro Castillo (Não confundir com a Villa Cerro Castillo, na Carretera Austral), onde voltaria à Argentina pelo Passo Rio Don Guillermo. Esse trecho, entre lagos e montanhas, com pouco tráfego, é muito bonito. Já me aproximando da aduana chilena vi um ciclista vindo da Argentina, era o Kim, um sueco que também saiu de Puerto Natales naquela manhã mas passou batido da aduana chilena até a argentina e teve que voltar pra carimbar a saída no passaporte! É provável que ele tenha saído depois de mim enquanto eu fazia o desvio à Cueva del Mylodon.

O Kim tem cerca de 4 meses para viajar, saiu de Ushuaia, quer fazer a Carretera e depois pegar um ônibus até o norte do Chile para fazer Atacama, Bolivia e talvez Peru. Concordamos em seguir juntos por alguns dias. Gente fina, temos o mesmo ritmo e foi bom pedalar com alguém para conversar, especialmente depois de tanto tempo sozinho na estrada.

Enquanto conversávamos tomamos uma bronca de uma policial desocupada porque encostamos as bicicletas no lado argentino sem termos carimbado o passaporte. A polícia argentina estava a uns 10km dali, e a parede que servia de apoio era chilena, não tinha motivo pra ela vir com essa papo. Já dentro do guichê, nos pediram um documento de declaração de entrada da bicicleta no país. Eu tinha, o Kim não, e nem sequer entendia direito o que a policial (a mesma de antes) dizia.

Quando eu entrei pela primeira vez no Chile, não me pediram para declarar nada sobre a bicicleta, nem preencher ficha alguma. Quando saí em San Sebastian, me pediram o tal papel e eu não tinha. Falei que não me deram nada e o agente reconheceu que nem todos fazem, mas deveriam. Quando voltei de Ushuaia e entrei novamente no Chile, fizeram o tal papel (inútil, pois nem conferiram a bicicleta e eu declarei o que quis). Quando o Kim passou pelo mesmo ponto, não foi avisado. Agora, pra sair do país, a policial folgada queria botar uma banca no gringo.

Eu intervi, primeiro para traduzir tudo (não para a língua do escandinavo, é claro, mas para o inglês) e em seguida pra acabar com aquela palhaçada porque o dia estava passando e nós queríamos pedalar mais uns 50km naquela tarde. Abri meu passaporte, mostrei todos os carimbos de idas e vindas e relatei o que me falaram em cada aduana, disse que era brasileiro e que no meu país era a mesma confusão burocrática, etc. Uma outra policial ouviu tudo, se desculpou, entregou nossos documentos e nos dispensou. A primeira ficou lá sem resposta, engolindo em seco. Mucha policía, poca diversión. A entrada na argentina foi muito mais tranquila.

Seguimos pelo rípio com o vento ajudando até o asfalto da Ruta 40 e continuamos sendo ajudados até a base da Vialidad em Tapi Aike. Tive que pedir na polícia para acampar e o cara ofereceu até a cozinha. Ele saiu por um acidente na estrada e nós tomamos conta. Tomei até um rápido banho gelado.

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Acordamos cedo e tomamos um café na cozinha da polícia. Saímos umas 8h, pela estrada dura de ripio pesado, com pedras grosseiras. O vento não estava forte ainda, mas foi aumentando. Foram uns 45 km de uma estrada com enormes pedras soltas, mas com a visão das montanhas no fim da pampa à esquerda, até chegarmos no outro posto policial, que estava fechado. Dali pra frente melhorou bem a estrada. Mais uns 20 ou 25Km de vento a favor e estávamos no asfalto. Na base da Vialidad em Cerrito (novamente, não é um povoado, mas apenas um lugar com um nome) encontramos um casal de franceses almoçando. Os funcionários ali não são tão simpáticos e não deixam os ciclistas entrar. Falaram que antes sempre ficava gente ali mas ocorreram abusos. Ficamos todos na garagem descansando um pouco.

Eu e Kim saímos antes deles pensando em achar um lugar pra acampar antes de Rio Bote. O vento lateral não atrapalhou e até ajudava um pouco. Encontramos um nicaraguense nos últimos dias de uma longa viagem, já louco para voltar pra casa. Chegamos ao começo de um downhill que não esperávamos e o visual da cordilheira com o céu muito limpo estava incrivel. O dia todo foi muito bonito.

O Kim instalou minha filmadora no capacete e começamos a descer, mas novamente bateu um vento fortíssimo que freava no downhill. Não sei porque ainda me iludia com as descidas. Tenho vídeos de toda a viagem com a GoPro, mas não gostei do resultado e ainda não me dei ao trabalho de tentar editar. Talvez quando concluir esses relatos. Por sorte já estava perto de Rio Bote: um rio com uma casa grande, um galpao e umas árvores. Parece ter sido um restaurante ou hotel, mas não estava ativo e só morava o caseiro ali. Don Gonzales é um velho gaúcho muito gente boa e falador. Nos recebeu com mate, banho quente e camas. Logo depois chegaram os franceses que também foram bem recebidos. O Kim ficou deslumbrado com a cuia e a bomba do mate, todas trabalhadas em gravuras. Pareceu meio receoso quando a bomba passou de boca em boca enquanto nosso anfitrião abria um sorriso com 6 dúzia de dentes, mas logo desencanou. Depois de alguns meses tomando mate de anfitriões diversos desde o Rio Grande do Sul, eu já não me importava. Ainda tentei umas fotos no por do sol, mas cheguei um pouco tarde demais, quase à noite.

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Eu, Don Gonzales e Kim, em Rio Bote.

Depois de um horrível café da manhã de mingau de aveia (já tentei adicionar passas, frutas secas, canela… não é pra mim), e uma foto com nosso anfitrião, partimos para a curta pernada até El Calafate (antes que o vento acordasse). Os franceses ficaram dormindo. A estrada estava linda como o dia. Chegamos cedo e nos ajeitamos no camping El Ovejero. A cidade é bonitinha, bem turística. Fizemos compras e relaxamos no camping. Fiz um curry razoável com arroz, passas, amendoim, couve flor e leite de côco em pó (que peguei nas sobras que uns turistas de Taiwan deixaram no hostel de Ushuaia ). Para mim, um banquete refinado. Fomos à beira do Lago Argentino e decidimos tentar a sorte no dia seguinte em uma carona pro Glaciar Perito Moreno, mesmo sendo segunda-feira, um dia de pouco movimento.

Acordei 4 da manhã pra ir ao banheiro e meu tênis tinha sumido da varanda da barraca. Procurei, reclamei na recepção do roubo e um adolescente sonolento disse não ter visto nada. Esperei a luz do dia e avisei ao Kim pra ir sozinho à geleira pra não perder o dia bonito (a previsão não era tão boa para o dia seguinte). O comércio na Argentina não abre direito antes das 10h, mas mesmo assim ele quis me esperar comprar um outro tênis, já que só sobrou o chinelo.

Resolvi fazer um café da manhã. Meu fogareiro estava bem sujo e funcionando mal, abri para limpar e perdi uma pecinha mínima – uma pequena agulha que fica na saída de combustível. Procurei por 2h no chão de areia e nada. O Kim me ajudou muito, mas o treco desapareceu. Péssimo começo. Resolvi testar o fogareiro sem a peça e funcionou. Menos mal. Reclamei com o gerente do camping El Ovejero sobre o roubo do tênis e só consegui “ganhar” uma noite grátis e um monte de desculpas, nada mais. Os alemães de uma barraca ao lado perderam uma mala inteira, com roupas e passaporte na mesma madrugada.

Abriram as lojas e comprei um tênis cano alto, o segundo impermeável disponível. O da outra marca era caríssimo. Esse era menos caro, mas El Calafate é provavelmente o pior lugar (em termos de preço) pra eu comprar isso. Se a carona já era uma opção, depois do prejuízo se tornou obrigatória. Não queríamos pagar o preço das vans turísticas, nem ficar limitados aos cronogramas pré-estabelecidos. Fomos pra saída da cidade (já íamos levantando o dedo no caminho), conseguimos rapidamente que alguém parasse, e nos apertamos na Saveiro. O Tito, um Sr. muito gente fina e falador, nos explicou muito sobre o glaciar e a vegetação local.

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Glaciar Perito Moreno, Argentina.

O Glaciar Perito Moreno é muito impressionante, gigantesco. Volta e meia despenca uma parte do gelo com um forte estrondo. Como acontece de tempos em tempos, o gelo atravessou o lago até a outra margem e separou um dos lados do lago do restante da água. Normalmente fica muito tempo assim, enquanto o nível da água vai subindo e pode romper o gelo a qualquer momento, o que é um espetáculo incrível pra quem tem a sorte de estar por lá na hora.

A carona na volta demorou, muitos passaram com espaço no caro, mas não paravam. Matávamos o tempo e a ansiedade ensinando inglês pro garoto do estacionamento e espanhol pro Kim, eu no meio me achando um poliglota. A língua do sueco ninguém aprendeu. Volta e meia ouvíamos um estrondo impressionante do gelo caindo longe de nossas vistas. Finalmente veio a carona, um brasileiro e um argentino que foram muito simpáticos e solícitos. Apesar do prejuízo e da manhã horrível, o dia acabou muito bem.

Não sem percalços, quase descalço, cumpri a missão em El Calafate. Partimos no dia seguinte, chegaríamos a El Chalten 2 dias depois. Retornando à Ruta 40, sentido norte, seguimos pela pampa ventosa, com o Lago Argentino à nossa esquerda, a cordilheira ao fundo, e raríssimas estâncias muito longe da estrada. Somente quando cruzamos a ponte sobre o azulíssimo Rio Santa Cruz é que me dei conta que estava na origem do rio que eu havia cruzado quase na foz, algumas semanas antes em Cmdte. Luís Piedrabuena.

Terminamos esse dia pulando a cerca de uma área com algumas construções abandonadas, o antigo Parador La Luz Divina (mais conhecido como “casa rosa” ou “pink house”), presença constante nos relatos de ciclistas viajantes que passam todos os anos por ali e muito fácil de se identificar: é uma das únicas construções às margens da Ruta 40 nesse trecho. Nas paredes do lugar quase não achamos espaço para deixarmos nossas marcas, rotas, datas, origens, destinos de quem se abrigou por ali um dia estão por todos os lados. Todos os cômodos encontram-se bem detonados, mas um deles estava limpo e tem uma madeira obstruindo o vão da janela, protege bem contra o vento. A água é a do Rio La Leona, que passa ao fundo, garantindo um entardecer cinematográfico.

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Casa rosa abandonada ou “Parador La Luz Divina”.

Na manhã seguinte o cenário foi bem semelhante, com o Lago Viedma e a cordilheira à esquerda, até que mudamos de estrada em direção a El Chaltén. Esse trecho não foi fácil, o vento vem da cordilheira em linha reta na nossa cara, mas pelo menos tem um riacho que passa por ali e uma estância próxima à estrada, em que poderíamos pedir mais água se fosse necessário. Nesse dia cruzei na estrada por uma kombi que vinha no sentido contrário, na qual estavam 2 brasileiros que conheci no hostel em Puerto Natales. Acenamos sem parar e cada um seguiu seu caminho.

O tempo estava razoavelmente aberto, mas não víamos o topo do maciço de montanhas do qual nos aproximávamos em mais uma incrível transição entre deserto e cordilheira. Inexperientes no assunto, mas maravilhados com as montanhas, tentávamos descobrir onde estavam o Cerro Torre e o Fitz Roy. Naquele cenário já bastante impressionante ainda divisávamos, ao fundo do enorme lago, uma das geleiras que alimentam suas águas.

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O Fitz Roy, rumo a El Chaltén.

A 10 km da cidade começou a subida, que não é enorme, mas foi suficiente para castigar nossas já combalidas carcaças. Chegamos em uma boa hora, quando a siesta estava no fim e as lojas reabrindo. El Chalten é uma localidade absolutamente turística, não tem nenhuma outra atividade ali. Tudo é caro e não há muitas opções nos mercadinhos. Pretendo voltar uma outra vez só para fazer as trilhas que partem da própria zona urbana e movimentam a economia da cidade. Naquele momento, eu só pensava na Carretera Austral.

Achamos a casa de ciclistas (chama-se El Charito) que já nos tinha sido indicada. Na verdade é uma casa onde a proprietária libera o quintal para acampamento. A dona está viajando mas já tínhamos avisado de nossa chegada antes de sair de El Calafate, conseguindo permissão pra acampar. Pedi água para o vizinho e usamos o banheiro do escritório de informações turísticas. Fui a um café caro só pra usar a internet (o chip da Claro não funcionou na região). Foi bom para mandar notícias pra casa, conversar um pouco com a Lena e avisar que não teria comunicação na próxima semana. Dali em diante, entraríamos no Chile – onde nos esperavam estradas muito precárias, trilhas ainda piores, pequenos rios sem ponte, enormes lagos e talvez uma ou outra surpresa.

Todas as fotos do trecho (clique na imagem para ver maior):

20151126_goingsouthbound_2685
mapa-puntaarenas-elchalten

Clique na imagem para ver o mapa completo e dinâmico dessa etapa da viagem (aproximado, puxado da memória quase um ano depois).

14/11 – Punta Arenas – 12km
15/11 – Punta Arenas (descanso)
16/11 – Villa Tehuelche – acampamento Vialidad – 107km
17/11 – Villa Tehuelche – acampamento Vialidad
18/11 – Puerto Natales – 147 km
19/11- Puerto Natales (descanso)
20/11- Vialidad Tapi Aike – 136km
21/11 – Rio Bote – Don Gonzales 122 km
22/11 – El Calafate – 43km
23/11 – El Calafate – Glaciar Perito Moreno (carona)
24/11 – La Luz Divina – casa rosa abandonada – 97km
25/11 – El Chalten – quintal El Charito – casa de ciclistas – 124km

Distância percorrida no trecho: 788 KM.
Total até 25/11: 5986 KM.
Total de gastos no trecho: 61.597 pesos chilenos + 2756 pesos argentinos (inclui o tênis que comprei).

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2 pensamentos sobre “Parte 9: pela pampa rumo à cordilheira.

  1. Kra, SHOW DE BOLA. Acompanhei todo o seu relato e curti mt. Espero um dia ainda poder “sofrer” nesta Carretera. É uma aventura marcante para todo cicloturista de vdd.
    Boa sorte aí!

    [ ]s
    Sergio

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