Parte 8: Terra do Fogo

Amanheci já na ilha da Terra do Fogo. O ferry começaria a operar às 8:30h, parti o mais cedo que pude para aproveitar uma estrada só minha por muito tempo, até que os primeiros veículos fossem transportados do continente. Segundo o Windguru, o vento estava soprando a 50km/h, com rajadas a 70km/h e até que me ajudou por uns 20km. Fiz os pouco mais de 40km até chegar à pequena Cerro Sombrero por volta das 11 da manhã.

Entrando na cidade encontrei quatro ingleses que saiam de Ushuaia a Bogotá. Apanhavam do vento lateral como eu. Trocamos impressões da estrada e seguimos. Não acho que eles fizeram uma boa rota para sair da Tierra del Fuego pelo norte, via Porvenir seria certamente mais interessante.

Eu, por outro lado, tinha diante de mim pelo menos 3 possíveis rotas para San Sebastian (a fronteira de entrada na metade argentina da ilha). Uma delas era a estrada mais usada até poucos anos atrás, em rípio (cascalho) e tomando inicialmente o rumo leste para mais à frente dar uma guinada brusca ao sul. Uma outra possibilidade, também em rípio é uma estrada rural, pouco movimentada e supostamente mais protegida do vento, sobre a qual eu já tinha lido em algum relato de ciclistas. O problema era que essa rota não constava no meu mapa.

Por fim, a minha (duvidosa) escolha: Y-79, a estrada mais utilizada, parcialmente asfaltada e com os trabalhos a todo vapor. O problema é que antes de virar pra sul teria uns 10km de pedalada em direção ao vento. A tarde já se iniciara enquanto pedalei, com muito esforço, a ridículos 5km/h. O vento me contorcia e me fazia encolher, me jogava pra estrada e pra fora dela, estava ficando perigoso. Alguns caminhões mais altos estavam estacionados – só depois me explicaram que o vento também pode tombar um caminhão em algumas ocasiões.

Empurrei a bicicleta por mais uns 7km na esperança de conseguir pedalar quando a estrada virasse para sul, mas as rajadas beiravam os 100km/h (isso eu só soube depois), trazendo nuvens de areia e arrancando a bicicleta da minha mão para o chão algumas vezes. A sensação era de impotência. Eu só queria achar um lugar para acampar e seguir no dia seguinte, mas nem sequer água suficiente eu estava carregando. Quando uma caminhonete estacionou na minha frente e ofereceu carona, não pensei muito. Segui com o casal chileno até o cruce Onaissin – creio que todo esse trecho estará asfaltado em breve, as obras estavam bem avançadas.

Pedi pra me deixarem na primeira estância que apareceu quando a estrada virava para leste. Na estância fui recebido por uns 7 cães e dois gaúchos engraçados, de fala rápida, que me ofereceram café e uma cama no sujo alojamento para os trabalhadores temporários que vêm sazonalmente tosquiar as ovelhas. Com o saco de dormir e a tempestade de vento lá fora, não me incomodou nem um pouco dormir ali.

Ganhei pão, café solúvel e acabei comendo batatas e arroz pescados de uma sopa com muita carne. Comi rápido para não sentir muito o gosto – mas também pela fome – e o cara se empolgou e tacou mais “PAPAS! PAPAS!” no meu prato. Num lugar tão inóspito, com dias tão curtos no inverno, com uma vegetação extremamente rasteira e água salobra, fica difícil falar em vegetarianismo. Tudo aqui que não é ovelha vem de centenas de km de distância, não dá pra plantar um legume ou verdura. Eu nem quis tocar no assunto.

Os dois pastores são indígenas, originalmente da ilha de Chiloé. Embora gostassem de conversar, o sotaque carregado e algum bloqueio emocional os impediram de explicar porque não gostavam mais de morar na ilha. Conversamos um pouco – eu ainda estranhando o sotaque chileno – e na hora de dormir o Juan Antonio quis me cobrir à moda indígena, com uma capa de guanaco completamente empoeirada… agradeci mas meu saco de dormir estava ótimo. O vento não parou, as paredes de lata das edificações balançavam e batiam a noite toda.

Amanheceu com chuva. Me preparei e tomei café com meus camaradas da estância. O tempo vira muito rápido por aqui. Quando abriu um solzinho, depois de uma foto de Juan com o cachorrinho Robata (foi o nome que entendi), segui viagem. Em poucos minutos o sol sumiu entre escuras nuvens baixas e começou uma chuva que, empurrada pelo vento, me causava dor a cada gota que me acertava. As rajadas me empurravam a 30km/h, mesmo em uma estrada de rípio com grandes pedras soltas. Ainda assim, o esforço era grande, dessa vez com os braços: pra guiar, equilibrar a bicicleta e não cair.

Para vestir as roupas de chuva, parei num velho abrigo na beira da estrada – não mais que um barraco sem porta e muito empoeirado. Ali as paredes e o teto guardavam mensagens e desenhos de viajantes em bicicleta de todo o planeta: todos em suas rotas para o fim (ou do começo) do mundo. De conhecidos vi os Pedarilhos. Procurei uma caneta pra deixar minha marca, mas minha velha esferográfica não pegava.

Protegido da chuva, encapotado, segui… em minutos abriu sol. Empurrado pelo vento cheguei com facilidade a San Sebastian (Chile). Fiz a burocracia de saida e segui pouco mais que uns 10km pela “terra de ninguém” rindo da força do vento e da tempestade de areia que me expulsavam do país. Em San Sebastian (Argentina) fiz o trâmite de entrada. San Sebastian, as duas, não são povoados: apenas polícia, posto de gasolina e hotel. Vale a dica: Na base argentina tem uma salinha onde é possível pernoitar de graça, muitos ciclistas fazem isso. Dormi por ali na volta, explico melhor depois.

Ainda estava na metade do dia, resolvi seguir até Rio Grande. O problema é que a estrada virou para sul e depois de um pequeno relevo e da agradável visão do oceano atlântico, fiquei totalmente exposto lateralmente ao mesmo vento que me ajudava minutos antes. Pedalei com muito esforço, empurrei no ingrato acostamento de rípio muito solto. No desespero pedalei até na vegetação abaixo do nível da estrada… sofrimento!

Cheguei em Rio Grande bem no fim do dia. Todos os hotéis e hospedagens possíveis já estavam ocupados para o feriado prolongado de finados. Negociei um acampamento no estacionamento do hostel e usei as instalações de cozinha e banheiro, estava aliviado de ter vencido (dessa vez sem precisar de carona) um trecho extremamente duro – talvez o mais difícil da viagem.

Precisei dormir um pouco a mais para me recuperar do dia anterior e saí meio tarde de Rio Grande, umas 9h da manhã. Peguei mais uns ventinhos na saída da cidade, segui lento mas com outro humor: animado pela visão das distantes montanhas nevadas para onde me dirigia. Finalmente, depois de meses de longas planícies semi-desérticas, usaria as marchas mais leves da bicicleta.

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As primeiras árvores  que vi após muitas semanas estavam assim.

No meio do caminho apareceram as primeiras matas de lengas: primeiro algumas secas e mortas, depois algumas com um leve verde e finalmente, à medida que o terreno ganhava relevo, a floresta completa. Muito mais água e alguns rios apareceram nessa transição, junto com as subidas que anunciam os cumes nevados.

Dei um pouco de azar de pegar essa estrada no feriado… mais uma vez muitos turistas na estrada. O barulho dos carros e das buzinas (bem intencionadas mas num completo anticlímax) incomodou tanto quanto as ultrapassagens arriscadas. Os caminhoneiros da Ruta 3 sempre foram muito mais cuidadosos. Apesar disso, o caminho é lindo.

Na pequena Tolhuin me abriguei na famosa Panaderia La Union. O proprietário do lugar (que não conheci) abriu um quartinho no galpão do estoque da padaria e passou a abrigar todo e qualquer ciclista que passe por ali. As paredes estão tomadas de mensagens, desenhos e agradecimentos. Pedarilhos, Solo na Escola e outros brasileiros marcavam presença. Sou o primeiro a chegar em semanas. Sebastian, um alemão, está aqui desde março: trabalha na padaria e aprende espanhol.

No dia seguinte acordei ansioso para finalmente chegar a Ushuaia! Saí do quarto e me deparei, pela janela da cozinha, com uma nevasca forte empurrada pelo vento. Foi a primeira vez que vi neve caindo do céu na minha vida, e não pareceu com aqueles floquinhos estrelados de filme de natal. Foi como uma raspa de congelador, grossa e muito branca. Esse clima no começo de novembro, no hemisfério sul… sinal de que eu estava longe de casa. Desisti de seguir nesse dia e voltei para a cama. Mais tarde, com um solzinho, fui dar uma caminhada até o enorme Lago Fagnano. Antes de chegar no lago eu já estava sob neve novamente. Muito frio e alguma lama, mas tudo novo para mim.

Mais uma noite ali e mais um dia nevando, não segui. Matei tempo conversando com o pessoal da cozinha da padaria. Eles oferecem muita comida para todos os ciclistas, mas não tinha nada vegan, fui me esquivando. Dei mais um passeio ao lago e aproveitei para descansar, escrever e ler bastante também.

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Lago Fagnano, Tolhuin, Argentina.

Na minha segunda manhã em Tolhuin fazia frio e garoava, mas pelo menos não tinha previsão de neve. Resolvi seguir, não sem antes posar para um retrato tirado pelo Sebastian, que documentou todo viajante que passou por ali nos meses em que ele ficou.

A chuva era muito fina e já ia molhando e secando ao mesmo tempo, não incomodou. Por uns 50km a estrada margeia o Lago Fagnano e me levava para as lindas montanhas nevadas – eu tentava adivinhar em qual delas seria o passo. Logo cheguei ao Lago Escondido, onde almocei minha bóia fria.

A escalada ao Paso Garibaldi foi tranquila, enquanto observava a grande quantidade de neve acumulada nos últimos dias, muito perto de mim, entre árvores e no topo das montanhas. Tirei algumas fotos apesar do dia escuro. Do alto dava para ver os dois lagos alinhados (Escondido e Fagnano), é um cenário incrível.

Quando virei o passo me imaginei em uma descida triunfal e um pedal rápido nos pouco mais de 40km restantes. Passei as marchas, comecei a embalar e fui violentamente atacado por um vento que canalizava no vale e me atingia ora de frente ora de um ou outro lado. Era imprevisível e tive que me esforçar pra pedalar na descida a 15km/h. Encontrei um casal de suíço e canadense a poucos km de Ushuaia. Já eram umas 6h, meio tarde para pegar a estrada, mas isso era opção deles.

Entrei em Ushuaia no trânsito pesado, ainda assim me respeitaram. Fui direto para a placa do “Fim do Mundo”. O Hostel Backpackers, que apoia quem viaja de bicicleta, e me foi indicado pelo Sebastian, não tinha camas vagas. Foram bem gentis comigo, acampei no quintal e usei todas as instalações, com café incluso. Foi muito mais barato e tive privacidade e mais espaço para guardar meu equipamento.

Eu estava bastante realizado de ter conseguido chegar até ali, e com o ânimo revigorado pela paisagem de montanhas nevadas, cachoeiras, lagos e mar. O tal do “fim/começo do mundo” guardou alguns passeios memoráveis e uma dose de dor de cabeça também.

Logo na minha primeira manhã resolvi subir ao Glaciar El Martial, que fica dentro do perímetro urbano de Ushuaia. Resolvi subir até a base do começo da trilha com a bicicleta descarregada. Saí do hostel, posicionei a bike na ladeira (a cidade é espremida na encosta entre mar e montanhas) e na primeira pedalada ouvi um estalo. Olhei pra trás e meu câmbio traseiro (Shimano Deore) estava todo torto. Ainda tentei desempenar mas a estrutura toda estava comprometida. Até imagino, mas não tenho uma explicação para o que aconteceu, de qualquer forma a solução era conseguir outro.

Guardei a bike e subi tudo a pé mesmo. A temporada de ski estava encerrada, mas a trilha aberta. À medida que se sobe a visão do Canal Beagle se amplia, com impressionante vista das terras chilenas mais ao sul e da cidade bem abaixo.

Com a nevasca recente já havia neve acumulada desde o começo da trilha. Eu nunca tinha andado na neve e me atrapalhei diversas vezes. Afundei o pé no gelo e logo estava encharcado, até porque usava tênis de cano curto. Tentei escalaminhar o flanco direito da montanha e fiquei bem acima da trilha. Não cheguei ao que parecia ser o topo por pouco, barrado pelo excesso de pedras soltas que deslizavam demais. Segui em direção à trilha, cortando o caminho pelo alto para encontra-la bem mais à frente. Tentei subir pelo gelo junto com outras pessoas, desisti quando a neve estava no meu joelho e percebi que não chegaria ao topo sem equipamento adequado para aquelas condições. Foi muito bonito e divertido de qualquer forma.

No meu segundo dia resolvi partir para o Parque Nacional da Terra do Fogo, que é um dos lugares mais bonitos em que eu já estive na vida. Não dava para ir pedalando e resolvi não desperdiçar o clima favorável tentando arrumar a bike. Existia a possibilidade de pegar uma van no centro da cidade por 300 pesos, mas como eu ia precisar comprar o câmbio da bicicleta, resolvi economizar e fazer de carona os cerca de 20km até o parque. Separei apenas o equipamento que eu usaria. Peguei um ônibus até a saída da cidade e ali esperei pouco mais de 30 minutos, até conseguir parar uma caminhonete e seguir.

Paguei a entrada do parque e a carona me deixou no “Camping Organizado”, que é onde tem banho quente e é pago: 100 pesos em 2015. Hoje eu optaria por uma das áreas de camping sem estrutura, porque tinha luz do dia até 10h da noite mas banho quente só das 4 às 6h. Ou seja, eu tomava banho e ia andar e me sujar novamente, podia ter ficado com um banho frio expresso mesmo.

Montei acampamento no parque e já parti para a trilha Hito XXIV, pela margem do Lago Roca até a fronteira com o Chile, que é só uma placa de “Proibido Passar”. Do outro lado do lago as montanhas nevadas com cachoeira de gelo que virava água refletiam no espelho perfeito. Foram 3h ida e volta, com vários riachos de degelo pra pular e enlamear o pé. Cozinhei, tomei banho e fui me sujar outra vez nas trilhas menores: Castorera, Turbal e Bahia Lapataia. Muito bonitas e quase vazias ao fim da “tarde”. Na Bahia Lapataia se encerra oficialmente a Ruta 3, a estrada em que viajei quase todo o tempo na Argentina, desde Cañuelas.

No dia seguinte peguei carona até a entrada da trilha costeira e voltei por ela até perto do camping. Foram 4h de constantes subidas e descidas. O visual impressiona: diversas aves nos pântanos e bosques de lengas, ñires e canelos, próximo ao mar e com montanhas nevadas por perto. O Parque Nacional da Terra do Fogo é um dos lugares mais bonitos e impressionantes em que eu já estive. A idéia era ficar no camping mais uma noite para fazer a trilha do Cerro Guanaco. Como a trilha estava fechada, voltei um dia antes para a cidade, novamente de carona.

Considerando que para seguir viagem eu teria que voltar vários km pela mesma estrada, que eu precisava de uma peça nova para a bicicleta e que em Punta Arenas, no Chile, tem uma zona franca, resolvi pegar um ônibus. Mas como tomei essa decisão no domingo 08/11/2015, não seria possível tomar nenhuma das providências que eu precisava para pegar o ônibus. Então aproveitei para visitar alguns museus na cidade: A Prisão Naval (que conta a história da cidade) e o Yamana (que é focado nos povos nativos).

No dia seguinte era hora de resolver questões práticas: aí começou mais um dos problemas de Ushuaia. Na cidade fui atrás de uma caixa pra bike, já que as empresas de ônibus não toparam transportar sem caixa – ao contrário do Brasil. Na bicicletaria Ushuaia Extremo queriam me cobrar 100 pesos na caixa (que obviamente iria para o lixo). Consegui em uma outra loja, a DTT, grátis. Depois precisei de uma chave 15 pra soltar os pedais, que teria que comprar ou tentar pegar emprestado em algum lugar.

Antes de desmontar a bicicleta fui comprar a passagem. Lá fui informado que só tinha pra dali a 3 dias e que o motorista decidiria na hora quanto ele ia querer me cobrar para transportar a caixa da bicicleta…”entre 400 e 900 pesos”. Aquilo pra mim foi a gota d’água. A cidade é muito turística e eu já estava de saco cheio para o jeito que todo mundo te olha, com grandes $$ nos olhos (com a excessão do pessoal do hostel e das caronas no parque). $ por papelão velho foi irritante, mas um valor duvidoso que era quase o mesmo da passagem pra transportar a bicicleta… não. Acabou saindo mais econômico comprar a peça ali mesmo e ir embora pedalando. Infelizmente tive que dar dinheiro pra Ushuaia Extremo, a única que tinha a peça que eu precisava. Eu mesmo instalei e aproveitei pra dar uma geral na bicicleta antes de começar a segunda metade da viagem.

Com pouco vento saí forte de Ushuaia e cheguei bem a Tolhuin. A paisagem é linda mas eu já tinha as fotos, não parei muito. Encontrei um português gente boa a uns 20km de Tolhuin, numa bicicleta Peugeot de aço e componentes de 20 anos de idade (equipamento não é desculpa para não viajar). Cumprimentei todo o pessoal da Panaderia La Union e me instalei no quartinho. O Sebastian tinha ido dar um role e só voltou bem tarde, eu já estava dormindo.

De Tolhuin saí bem, até que o relevo foi mudando pra pampa e o vento pegou frontal e lateral. A bicicleta e fazia uns ruídos estranhos, achei que era o câmbio novo. Uma hora olhei pra corrente e vi que estava torta, um link tinha rachado, mas ainda estava rodando. Essa corrente já tem um missing link, eu não quis por outro e nem trocar de corrente, resolvi me testar numa situação real e substituí os links quebrados pelo pedaço da mesma corrente ainda novo que eu tinha guardado. Não tenho pratica nisso, errei na primeira mas logo acertei, o que está bom demais para um acostamento empoeirado e ventoso no fundão da Argentina. Consegui isolar o mundo externo e agir de forma fria e prática para sair de uma encrenca. Estava pronto para seguir adiante.

Cansei de repetir a estrada e o vento forte. Tentei carona na entrada de uma estância mas não rolou. Pedalei mais um pouco, sempre a uns 12 por hora e em Punta Maria almocei à beira mar. Pedalei mais um pouquinho e consegui uma carona. Passei de carro pelos dois franceses em triciclos reclinados que saíram da panadería no dia que eu cheguei. Estavam uns 15km a minha frente. Eles pedalavam lado a lado pra ocupar a faixa e aumentar a visibilidade, mas com o vento iam muito lentos. Não me pareceu uma boa idéia fazer uma massa crítica de 2 numa estreita rodovia no fim do mundo.

Em Rio Grande, na porta do hostel em que fiquei acampado na ida, ninguém atendia. Nesse momento apareceu um casal de escoceses pedalando. Também vinham de Tolhuin, mas em 2 dias, via estradas vicinais de ripio. Tinham ótimas bicicletas no estilo touring, com rodas 700, mas pneus talvez um pouco finos demais pra aquele tipo de estrada, estavam moídos. Foram a todos os hotéis, que estavam cheios mais uma vez. Eu ia tentar os bombeiros mas em uma última hospedaje eles conseguiram um quarto com cama de casal e uma de solteiro por 650, me ofereceram a de solteiro por 200. Resolvi aceitar pra conversar um pouco mais sobre as viagens e porque sabia que teria dias duros à frente ainda na terra do fogo.

Reza e Laura são médicos e dedicaram sua viagem para divulgar e chamar a atenção para um projeto de distribuir um aparelho que visa tornar as cirurgias algo mais seguro em muitos lugares do mundo que não contam com recursos pra esse tipo de de tecnologia. Tem mais informações e muitas fotos e histórias boas no site deles.

Tentamos jantar junto num lugar, mas não tinha nada vegan. Fui ao mercado comprar coisas cruas porque não dava pra cozinhar. Tomate, abacate, pão e umas frutas. Eles estão muito no começo de uma viagem de um ano até a Colombia, resolveram usar o tempo para descansar e esperar até domingo, quando o vento vai dar uma pausa de 2 dias.

Eu já estava sonhando em sair da Terra do Fogo e resolvi seguir em frente, pegaria uma carona se precisasse. Saí umas 8h do hotel. Não tinha muito vento e me concentrei pra manter a  velocidade a 20km/h. Um casal de ciclistas bascos que vinha do México me lembrou da sala da da polícia em San Sebastian (Argentina) e decidi que ficaria ali naquela noite. O resto do caminho foi a 10km/h. Menos pior que as empurradas da ida. O acostamento de ripio nessa area é impedalavel.

A noite na fronteira não foi tão ruim e dado o constante mau tempo e os frequentes viajantes (e ciclistas) que passam por ali todo verão, a polícia de fronteira oferece uma sala aquecida, com um fogãozinho, pia, banheiros públicos e uns bancos de madeira. Eu estava sozinho e logo os transformei em cama. Não precisa nem de autorização, mas eu resolvi perguntar mesmo assim (enquanto carimbava a saída da Argentina) e foi bem tranquilo.

De volta à terra de ninguém, pedalei calmamente (mas não sem muito esforço) os cerca de 14km até a aduana chilena, fiz os papéis e dessa vez fizeram um formulário com a marca e a cor da bicicleta pra entregar na aduana de saída. Burocracia. O vento já estava muito forte e resolvi tentar uma carona até Porvenir ou ao cruce Onaisin, o que viesse primeiro. Um cara com a caminhonete vazia falou que nao tinha espaço, outro simplesmente que não, outro não tinha espaço na cabine e não me deixou ir na carroceria. Finalmente um outro topou e depois lembrou que não tinha espaço e me mostrou que estava cheio mesmo.

Já era quase meio dia quando consegui carona até Onaisin, que não é mais que um cruzamento, não tem casa nem comércio. Nem água. É um ponto de ônibus com os vidros quebrados e um outro abrigo melhorzinho com espaço para a bike e umas 4 pessoas dormirem. Não estava limpo mas não estava horrível também. Tinha um colchão velho no chão. Quando sai da caminhonete e agradeci, chovia. Entrei no abrigo, almocei e meditava se enfrentaria o desvio de 15km de rípio e vento lateral (mais 15para voltar ao cruzamento) para ver o Parque Pinguino Rey.

Abriu um sol e logo chegou um carro com dois caras e eu abri a porta dizendo “bem vindos ao hotel”. Riram e me perguntaram dos pinguins, apontei a direção. Se chamam Maximo, pai e filho, de Santiago. Eles mesmos me deram a idéia e tranquei a bike dentro do abrigo, para seguir de carona com eles levando só a bolsa de guidão com câmeras, grana e documentos. A entrada do parque custava 12.000 pesos chilenos, eu tinha 10.000 e estava convencendo a senhora que nos recebeu a aceitar a diferença em pesos argentinos, quando o Maximo pai pagou os 2000 pra mim. Gente muito boa.

A senhora falou que o vento naquela tarde já tinha batido os 100km/h no parque. Os pinguins são bem bonitos e muito maiores que os de Magalhães. Só um filhote da última ninhada sobreviveu. O filhote tem uma plumagem marrom e mais bagunçada, que não é impermeável como a dos adultos. Um outro filhote foi morto pelos machos ha pouco tempo quando tentou entrar no grupo prematuramente. Esse parque não é como Punta Tombo, aqui se vê de longe os bichos. Eu acho que valeu a pena, mas para o viajante que estiver com pouco dinheiro não recomendo o desvio de bicicleta para conhecer, porque 12.000 é um valor alto.

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Parque Nacional Pinguino Rey, Terra do Fogo, Chile.

De volta ao abrigo, umas 15h, dois pastores tinham se instalado. Iam passar a noite por ali e estavam observando a bicicleta enquanto almoçavam. Eu já estava considerando passar a noite com eles, mas ainda tentei sair pedalando contra o vento para acampar em alguma estância. Pedalei 100m, o vento quase me derrubou, eu fazia muita força e não saia dos 8km/h. Voltei. Resolvi ficar tentando caronas, se não rolasse dormiria ali. Bem mais tarde consegui, e ainda me levaram pra conhecer uma estrada alternativa chamada de estrada do ouro, que passa por uma serrinha que eu não imaginava que existisse numa ilha tão plana. Tive uma bela vista da Laguna de Los Cisnes e Laguna Verde, antes de Porvenir.

É uma estrada da época da febre do ouro do fim do século XIX mesmo, em que a mineração foi controlada por Julius Popper, com base em imigrantes croatas. Julius chegou a ter um pequeno exército privado e a cunhar moedas e selos que ostentavam seu poder. A história foi semelhante à de outros lugares: uma tragédia para os nativos, uma forte alteração no meio ambiente e pouco ganho economico para a colônia. (vide Genocídio Selk’nam ).

Em Porvenir eu pensei em ver a possibilidade de acampar perto do ferry, mas antes entrei num hotelzinho pra ter uma idéia do preço, já que o vento seguia muito forte e montar a barraca daria um trabalho. Recém entrando no Chile, errei minha conta mental de cambio e achei barato. Depois que paguei, tomei banho e relaxei, entrei na Internet e me liguei a merda que fiz: paguei caro, literalmente. Eu poderia ter usado meus 4 dias de folga no cronograma pra esperar o vento se acalmar e pedalar todo esse trecho, mas acabei preferindo guardar pra um lugar mais bonito como a Carretera Austral. Não me arrependo, embora tenha ficado frustrado no dia. Mas o que eu queria? Com 3 caronas, visita aos pinguins e um apresentação à estrada do ouro que eu desconhecia completamente, não posso dizer que tive um dia ruim.

Todas as fotos do trecho (clique na imagem para ver maior):

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mapa-terra-do-fogo1

Clique na imagem para ver o mapa completo e dinâmico dessa etapa da viagem (aproximado, puxado da memória quase um ano depois).


29/10 – Estreito de Magalhães – 128km
30/10 – Estância – 59km (uns 10 ou 15 empurrando)
31/10 – Rio Grande – 137km
01/11 – Tolhuin – 116km
02/11 – Tolhuin
03/11 – Tolhuin
04/11 – Ushuaia – 109 km
05/11 – Ushuaia – Glaciar
06/11 – Lapataia – Parque Nacional da terra do fogo
07/11 – Lapataia
08/11 – Ushuaia
09/11 – Ushuaia
10/11 – Tolhuin – 106km
11/11 – Rio Grande – 80km
12/11 – San Sebastian – sala da gendarmeria argentina
13/11 – Porvenir – 3 caronas

Distância percorrida no trecho: 735 KM.
Total até 13/11: 5198 KM.

Total de gastos no trecho: 42800 pesos chilenos + 1848 pesos argentinos.

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