Parte 7: Santa Cruz e Estreito de Magalhães

Mesmo estando cerca de uma semana adiantado no meu cronograma original, por conta das caronas e de ter pedalado acima do esperado por vários dias seguidos, eu saí mais uma vez antes do planejado de Caleta Olivia. O custo da cidade me assustou mais que o forte vento oeste que peguei até pequena Fitz Roy. Principalmente porque, baseado no meu método (explico abaixo), concluí que era melhor ficar 2 dias parado (em um lugar barato). O xadrez contra o vento já tinha começado, e não seria muito inteligente continuar pedalando todos os dias.

O caminho até Fitz Roy foi de uns 10 ou 20km a beira mar, seguido de uns 30 ou 40km de uma serra suave. O vento oeste era forte e, conforme a curva, me empurrava para dentro da estrada (pouco movimentada, por sorte) ou me ajudava a atingir altas velocidades. Às vezes me via em situações confusas: num ponto da serra o vento me empurrava pela direita e também fazia a curva num paredão à esquerda, eu recebia rajadas dos dois lados! Fiquei muito atento ao retrovisor e andei pelo ripio do acostamento todas as vezes que vinha um veículo, pra não ter susto.

Dali pra frente foi aquele ventinho básico, mais constante, nas longas retas do platô deserto. Entre a vegetação bem mais rala, ovelhas pastam esquentando a lã sob um céu azul e sol ameno. Os cauquenes apareciam aos pares buscando um nãoseioque nas manchas de lama do que outrora foram poças de água.

Meu planejamento contra o vento, principalmente a partir desse ponto, passou a depender muito de escolher o dia certo para encarar a estrada ou ficar parado esperando as condições melhorarem. Pra tomar essas decisões tive 3 ferramentas importantes no telefone: os aplicativos do Accuweather, do Windguru e o Maps.me. O Accuweather na verdade só dava a previsão de tempo online, mas raramente falhava. Já o Windguru me permitiu manter gravados no telefone dados das previsões de clima e ventos de até uma semana adiante, em 10 pontos diferentes. O último é um mapa graficamente simples mas extremamente detalhado em termos de estradas e até algumas trilhas.

Passei a usá-los assim: 1) Verificava no Maps.me as localidades existentes nos próximos 500km (não foram muitas, acredite) e calculava as distâncias; 2) Buscava esses pontos no Windguru; 3) Com os dados de direção, força do vento e força das rajadas, voltava no mapa e tentava ver se a estrada era predominantemente sul, leste ou oeste, ou seja, se o vento viria na cara ou em um dos lados. Com ventos constantes acima dos 40km/h e rajadas acima dos 60km/h o pedal já é bem difícil, especialmente com a bicicleta carregada e zero aerodinâmica. Mas há momentos em que não se pode evitar o confronto.

O chato é que Fitz Roy não é um lugar especialmente bonito, digamos assim. A atração mais próxima da região é o Bosque Petrificado a 150km, e meio fora da rota. Para evitar o vento extremo na estrada, foram 2 dias parado no camping sujo (porém barato): lendo, fazendo manutenção na bicicleta e torcendo pra barraca dar conta das fortes rajadas. Com umas placas de compensado peparei um solo uniforme pra montar a barraca, que cerquei com alguns latões de lixo vazios que estavam jogados por ali, na tentativa de criar um bunker anti-vento. O mais difícil sempre foi fixar os espeques no solo duro e pedregoso da patagônia. Amassei e quebrei vários. Já considerava a idéia de comprar outra barraca melhor em Rio Gallegos. Acordei algumas vezes durante as noites para reforçar as amarras, que se soltavam e faziam o sobreteto tocar o mosquiteiro, trazendo a umidade para dentro. Ter acordado com a barraca congelada no dia de voltar pra estrada foi uma surpresa, mas não se revelou uma tragédia. Nas temperaturas de -5 a 8ºC, meu equipamento me serviu bem e fiquei mais confiante para o resto da viagem. Nesses dias eu estava lendo A Incrível Viagem de Shackleton, então me senti relativamente confortável.

Quando finalmente retomei o pedal, foi com meu inseparável companheiro, o vento contra. No horizonte nuvens escuras e um buraco azul, para onde eu torcia que a estrada me levasse. Foi direto pra nuvem mais escura e esfriou. Não choveu no platô, mas o frio endurecia as pernas, especialmente nas paradas. Os Três Cerros que dão nome ao destino do dia são três morrinhos de nada, nada mesmo. A “cidade” trata-se de um posto policial, um de gasolina e um hotel. Pedi e me deixaram acampar num gramado atrás da lanchonete do posto. Depois me ofereceram até um lugar pra passar a noite numas casas de trabalhadores da indústria de petróleo e gás. Mas eu já estava cozinhando e a barraca precisava ser montada para secar direito, foi guardada ainda com fino gelo e umidade da madrugada.

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Sim, são esses os “Três Cerros”. E esse lixo no chão é tudo o que as pessoas não jogam nas lixeiras adequadas e é arrastado pelo vento: sacolas, embalagens, latas, etc. A Ruta 3 é muito suja.

Fiz meu chá de desayuno, comi meus pães e biscoitos e ainda tomei um café na lanchonete do posto. Conversei com os curiosos e parti, com um vento sul bem fraco como previsto. Meu método funcionava. A vegetação baixava drasticamente quanto mais ao sul. Vi mais guanacos que nuvens no céu. O sol da uma força moral aquece as costas e relaxa os músculos, mesmo estando frio no rosto. Vi ñandus correndo mas não deu pra fazer foto. Na metade do caminho, depois de um lanche, no começo de uma subida encontrei o primeiro viajante em bicicleta em toda a etapa a argentina. Um Sr. espanhol, idoso mas muito forte, puxava um bob trailer e seguia de Ushuaia para Montevideo. Disse que pegou umas nevascas nos últimos dias, mas estava bem. Dei umas dicas para ele e eu tinha muito mais a dizer e perguntar, pena que nós dois ainda enfrentaríamos um longo dia pela frente – cada um pro seu destino.

Depois de mais algumas subidas leves e uns retões infinitos, uma serra deliciosa de descer em alta velocidade. Sem trânsito, ocupei a pista. Na primeira curva vi o Atlântico gritando “AZUL!” à esquerda e montanhas com neve à direita. Sorri e não parei para fotos, era mais um daqueles momentos para desfrutar completamente. Nos últimos 25km já estava bem cansado e peguei umas subidinhas chatas, nada demais. Na entrada de Puerto San Julian, uma parada no santuário da Difunta Correa: me perguntava se alguma daquelas águas estaria razoável para consumo em caso de emergência – se eu necessitasse usaria sem pensar duas vezes.Fui direto ao mercado e depois nas informações turísticas pra saber do camping municipal: era pago mas tinha uma boa estrutura – mas o banho quente é só até 20h. Já a funcionária do camping só apareceu às 19:45 pra abrir o banheiro.

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Um dos muitos santuários da Difunta Correa, sempre com dezenas de garrafas de água – não precisei, mas certamente usaria uma delas se fosse o caso.

O nascer do sol no camping à beira mar foi bem bonito, com um sol duplo refletindo a água. Subi uma serrinha e com uns 30 km rodados estava novamente no platô. Passei pelo mirante do Gran Bajo San Julian, uma das depressões mais profundas da superfície terrestre. Pena que a sujeira deixada pelos caminhoneiros tirava um pouco a graça de ficar por ali observando. Os caras deixam lixo acumulado em toda a Ruta 3, mas na Patagônia o vento espalha tudo – qual a dificuldade de levar o lixo até a próxima cidade e descartar por ali?

Vi muitos guanacos mais uma vez, alguns pulavam a cerca para voltar ao pasto e eu dava notas imaginárias ao salto – com voz de jurado do carnaval carioca. Me divertia sozinho entre o semi-árido e a fertilidade da minha mente. Só nesse dia testei o Strava, um aplicativo que marca sua rota pelo GPS do smartphone, e percebi que funcionava mesmo sem o sinal de celular e internet. Sem nenhuma utilidade prática, comecei a registrar minha passagem por ali.

Desse dia em diante tive alguns problemas com equipamentos. Na hora do almoço me distraí com a paisagem e deitei a bike no chão pro lado errado, quebrando meu retrovisor. Tive que redobrar a atenção com a estrada dali em diante. Irritado com o vacilo ganhei uma certa força e cheguei com facilidade até Comandante Luís Piedrabuena, mesmo cansado e com uma serrinha no caminho. Dentro de certos limites (maiores do que a gente imagina), a mente controla o corpo.

Na cidade fui ao mercado depois ao camping na Isla Pavón, uma ilha nas águas azuis próximo à foz do Rio Santa Cruz. Era meu primeiro contato com a cor peculiar dessas águas de degelo, fiquei hipnotizado. Eu ainda não tinha me dado conta, mas algumas semanas no futuro eu cruzaria o mesmo rio próximo à sua nascente, o Lago Argentino em El Calafate. Dei uma volta pelas margens do rio, vi várias aves da região, e aproveitei o longo dia patagônico pra tentar limpar meu fogareiro multicombustível (MSR Whisperlite International). Precisava de uma limpeza, pois eu vinha usando gasolina comum e não a benzina blanca (white gas). A chama saía amarela e cheia de fuligem.

Quando terminei a limpeza, com a mão imunda, o corpo suado de todo o dia pedalando e louco pra tomar um banho, me dirigi à recepção do camping pra pegar a chave do banheiro, conforme combinado quando me registrei horas antes. A atendente era outra e me informou que o banho era só até as 18h e já passava das 21h. Argumentei que tinha recebido informação diversa, mas ela disse que no máximo eu poderia tomar um banho frio, os aquecedores já estavam desligados. Mesmo pagando 100 pesos pela noite, 10x mais que em Fitz Roy (o camping pago mais barato da viagem), me resignei naquele debate inútil e tomei meu banho frio. Se eu soubesse disso teria procurado um lugar pra acampar de graça do outro lado do rio, se era pra tomar banho frio a existência do chuveiro era irrelevante. Eu também não sabia, mas dali pra frente não pagaria menos em estadia nenhuma – tudo também fica mais caro mais ao sul.

Na Isla Pavon dormi um pouco a mais, estava precisando. Arrumei as coisas lentamente e saí já umas 9h. Tarde. Tirei fotos na ponte, mas sem o brilho dourado da tarde anterior. Eu pensei se visitaria o Parque Nacional Monte León ou não e só decidi que não quando passei pela entrada. Certamente seria interessante, mas acabei desistindo porque os pinguins, lobos marinhos e guanacos seriam os mesmos que eu já tinha encontrado pelo caminho. Os pumas, bem… eu até tinha (tenho) vontade de ver, mas não em qualquer situação. Se fosse pra acontecer, eu teria ainda boa parte da patagônia argentina e toda a Carretera Austral pela frente.

Tenho certeza que ir ao parque seria uma ótima opção também, mas não me arrependi. Depois da serrinha pra sair do vale do Rio Santa Cruz, já no alto do platô, peguei vento a favor e segui sem muito esforço entre 27 e 35km/h – o que é bastante para uma bicicleta carregada e pesada. Fui assim até um lugar que consta em todos os mapas e placas da estrada: Le Marchand. Meu plano era só conseguir água, não tinha mais nenhuma gota além do suor que me escorria pelo rosto. Dali ia achar um lugar pra acampar. O problema é que esse lugar não é nada além de uma casona fechada. Havia um carro na porta mas ninguém respondia aos meus chamados.

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Do instagram: “Nada a declarar”.

Segui porque tinha pesquisado antes os mapas via satélite e sabia que tinha uma estância à frente. Desci uma longa ladeira em curva e já reconheci o lugar pelas árvores que via. Parecia a descrição do lugar em que recusaram abrigo ao Thiago Fantinatti quando passou ali. Tentei a sorte. Fui recebido por um funcionário sorridente, conversei sobre a viagem e ele me deu água. Pedi pra acampar mas ele disde que estava sozinho e o patrão e todos da estância estavam na cidade para as eleições. “O patrão é gallego, sabe como é que são esses gallegos…”.

Aqui foi impossível não cair a ficha da estratificação social na região: via de regra os patrões são os brancos, descendentes dos galeses que desembarcaram na área de Puerto Madryn no século XIX, fundando cidades e estâncias para criação de ovelhas pelo sul da Patagônia. Os peões em geral, rurais ou urbanos, são os descendentes dos habitantes nativos da região.

Uma certa dose de racismo deve existir por aqui também. Eu, ruivo, quase não tive problema para lidar com as pessoas, obter informações ou ajuda. Frequentemente me perguntavam minha ascendência – e isso acontece no Brasil também – quando digo que sou um brasileiro comum com diversas gerações por aqui estabelecidas, normalmente as pessoas não se contentam com a resposta, como se isso fosse uma qualidade em detrimento das demais características genéticas da humanidade. Se eu sou ruivo só posso ser descendente de europeu, e isso é bom. Racismo que diz né? Não acho que ocorreriam casos de violência ou preconceito explícito, mas também não posso afirmar que um brasileiro descendente de nativos ou de escravos trazidos da áfrica teria as mesmas facilidades que eu tive. Um certo racismo velado, à brasileira, também exala seu mau cheiro por aqui.

O trabalhador disse que tinha mais duas estâncias à frente, olhou para o relógio e calculou que eu chegaria em 1h, não sei como fez essa conta. 2:30h e 45km depois, cheguei a um vale com um rio/oasis e quando atravessei a ponte tinha uma estância de cada lado. O vento estava forte e eu não achei um local abrigado pra por a barraca fora de vista da estrada. Fui na estância mais próxima, 2km no ripio. Um funcionário me indicou a casa do gerente, que não estava. Me pediu então para esperar no portão. Fiquei cerca de 1h ali até chegar um carro, outro empregado com a família. O patrão não voltaria e ele não quis autorizar, disse pra eu acampar na beira da estrada que dava na mesma, que ali não é um lugar turístico, que não era problema dele, etc. Vi que sua mulher estava com uma expressão de pena e insisti olhando pra ela, até que ele olhou pro lado e autorizou de má vontade. Acampei em terreno inclinado só pra me proteger do vento na parede de uma casa fechada. Depois chegou o Garcia, um outro funcionário, bem mais receptivo, me deu água e conversamos um pouco.

No caminho até ali um gaucho numa caminhonete me ofereceu uma carona até Rio Gallegos, mas não aceitei porquê sabia que precisava superar aquela situação para chegar à Terra do Fogo – que prometia ser o lugar mais ventoso e inóspito da viagem – com mais experiência e confiança. Não dava pra não passar pela situação sem me virar, mesmo que o me virar significasse somente pedir insistentemente por um canto pra por a barraca.

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Do instagram: A placa não mente. Nos dois dias a caminho de Rio Gallegos o vento me empurrou e me segurou, ditou minha marcha como quis. Cheguei aqui ontem e estou descansando para encarar a prova de vento na Terra do Fogo.

Choveu um pouco pela manhã, mas a chuva naquela região não costuma ser muito forte ou duradoura. Vai e vem com uma certa displicência, ao sabor do vento. Guardei a barraca molhada mesmo e fiz os 89km até a cidade. A maior parte sob forte vento contra(desculpem, mas não vai dar pra mudar de assunto tão cedo), indicado pelas placas na estrada, exceto os últimos km depois da polícia rodoviária, já ao nível do mar.

Fui parado na barreira e pegaram meus documentos. O policial falou alguma coisa dessas coisas que policiais idiotas falam, e eu ignorei, apenas passei meus dados e saí. Dias depois eu soube, por outro viajante, de uma história que ocorreu nessa base: Um outro ciclista europeu (não me recordo de que país) pedalava em direção a Rio Gallegos e foi parado ali. Os policiais disseram que era proibido pedalar até a cidade por aquela estrada. O ciclista estranhou mas disse que tudo bem, mudaria de rota. Os policiais falaram então que também não era permitido pedalar pela outra estrada e que ele teria que pagar 1000,00 pesos argentinos para uma caminhonete vir da cidade buscá-lo. Depois de muito argumento e ameaças de confiscar a bicicleta, ele acabou pagando, vencido pelo cansaço. Certamente o dinheiro foi dividido entre os policiais e o dono da caminhonete. Eu pedalei por toda a estrada e da base até a capital da província o acostamento é largo, além de ser toda iluminada. Não é proibido pedalar por ali. Apenas quando de fato se entra em perímetro urbano a estrada se divide em via expressa e via local, havendo algumas placas de “proibido bicicleta” na via expressa, o que é facilmente contornável. Mucha policia, poca diversión.

Em Rio Gallegos me dei ao luxo de ficar numa hospedaria mais econômica (mas não tão barata) que encotrei, para me recuperar e sair descansado pra Terra do Fogo. Meu dia de descanso deveria ser também para resolver algumas coisas no comércio local, mas era feriado da morte do Nestor Kirchner, não consegui comprar espeques novos pra barraca (os outros estavam todos tortos do solo pedregoso da Patagônia), não fiz câmbio por pesos chilenos, não consegui raspar barba e cabelo, não consegui nada. No dia seguinte eu queria resolver tudo cedo e sair, mas não teve jeito: nada abre antes das 10h da manhã, que é a melhor hora para pedalar. Não valia a pena me meter na ventania da tarde. Fiquei uma terceira noite antes de me lançar em direção à temida Terra do Fogo.

Acordei cedo ainda na tediosa e melancólica Rio Gallegos e peguei a estrada à primeira luz da manhã. Mesmo antes de chegar à fronteira com o Chile alguém ligou o ventilador e na mesma velocidade em que o sol subia nos céus austrais a hélice acelerava. Enquanto tentava descobrir qual das pequenas elevações no horizonte eram o tal Monte Aymond, que da nome ao Paso de Integración Austral, eu já pedalava jogando o peso pra direita. No sentido contrário via motoqueiros com as motos também inclinadas.

O Paso de Integración Austral é uma fronteira muito movimentada, em geral por Argentinos. Muitos vão a Punta Arenas fazer compras na zona franca chilena e muitos outros – principalmente os caminhões – vão para a metade argentina da Tierra del Fuego, que fica ali isolada do resto do país. Não foi a primeira vez que passei numa fronteira de entrada no chile por terra, então eu já conhecia o esquema. Você declara tudo o que tem num formulário, se eles revistarem (e revistam!) e acharem algo não declarado e proibido, dá encrenca. No meu caso o risco era na comida. Normalmente não entram queijos, alimentos frescos e alguns tipos de grãos. Queijos eu não como mesmo, as minhas últimas maçãs eu comi ali antes de passar na revista. Declarei e acabei perdendo somente as minhas lentilhas… me restou arroz, polenta e aveia pra seguir viagem.

Já em estradas chilenas se nota uma diferença no asfalto, a estrada parece ser construída por uma sequência de placas de concreto. Não sei se o vento deu uma rápida trégua ou se eu parei de percebê-lo com o impacto da visão do mar adiante: não havia dúvida, só podia ser o Estreito de Magalhães. Isso deu um ânimo pra seguir, mesmo que em velocidade muito, muito baixa. Já estava no meio da tarde e o ventilador ligado no 220v. Do povoado de Punta Delgada para o porto onde se faz a travessia do estreito, havia a possibilidade de fugir da rodovia pela estrada de rípio, mais próxima do mar, mas o dia já estava no fim e eu queria passar a noite do outro lado.

Quando saí da estrada 255 para a 257, o vento passou a me empurrar e eu atingi sem muito esforço 35 a 40km/h, no plano, com meus 60kg de carga. Cheguei ao porto, passei por uma fila de carros e caminhões, por um grupo de turistas que rodeava o restaurante e desci a rampa com bike e tudo, por pouco não entrei nas águas geladas do estreito. Queria ver de perto para cair a ficha de que sim, eu pedalei alguns milhares de km do Brasil ao Estreito de Magalhães!

Ciclista e bicicleta não pagam o ferry, prêmio merecido. Enquanto eu batia queixo no convés, tentando fazer alguma foto, alguns pinguins desgarrados nadavam tranquilamente. Mesmo sem grandes ondas, a corrente do estreito é forte. A mente viajava tentando imaginar os povos nativos que navegaram por aqui durante séculos, ou a chegada e passagem das naus europeias.

Sob uma densa camada de nuvens desembarquei. No porto do lado da Tierra del Fuego há um refúgio climatizado, com banheiro, ducha quente e wifi… até as 9h da noite. Já eram mais de 8h, tomei banho correndo, usei a internet e consegui autorização pra acampar por ali mesmo, na frente da casa e abrigado do vento – que empurrava as turbinas eólicas com toda a força. Sem minhas lentilhas, cozinhei arroz com aveia, receita que adotei pro resto da viagem (aveia doce eu não gosto e só como por necessidade mesmo). Antes de dormir ainda ganhei um saco de castanhas e frutas secas, de um garoto gente boa que mora por ali e também gosta de sair viajando às vezes. Quinta-feira, 29/10/2015, foi a minha primeira noite na Tierra del Fuego.

19/10 – Fitz Roy – 78KM
20/10 – Fitz Roy
21/10 – Fitz Roy
22/10 – Tres Cerros – 135km
23/10 – Puerto San Julian – 149km
24/10 – Comandante Luis Piedrabuena – 130km
25/10 – Estancia Coy Aike? – 157 KM
26/10 – Rio Gallegos – 89 KM
27/10 – Rio Gallegos – descanso
28/10 – Rio Gallegos – descanso
29/10 – Estreito de Magalhães – 128km

Distância percorrida no trecho: 866 KM.
Total até essa data: +/- 4.463  KM.

Total de gastos: 2087 pesos argentinos. + 800 pesos chilenos.

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