Parte 6: sul de Chubut, Punta Tombo e norte de Santa Cruz

Maybe I should turn around
Maybe I should stop
Maybe I should turn around

Speedin’ back to my baby
And I don’t mean maybe
Speedin’ back to my baby
And I don’t mean maybe

You know, maybe I should turn around
Maybe I should stop
Maybe I should turn around

I’m lookin’ for a station, ‘cause there’s no acceleration to get back
(Speedin’ back, ooh speedin’ back) Oh yeah
My gage is showin’ red and my battery’s dead, I’d better
(Ooh, speedin’ back, ooh speedin’ back) Find one fast

 

Depois de alguns dias dormindo em uma cama, turistando de carro, cozinhando em um fogão e com banho quente garantido, era hora de seguir viagem pra não amolecer as pernas. Retomei num dia bonito, uma quilometragem modesta, pouco menos de 70km. O vento não atrapalhou e cheguei fácil a Trelew, depois de uma longa e suave descida. No caminho passei por um parque eólico. Não entendo porque esses aparelhos não estão por toda a Patagônia, onde os ventos são tão constantes, o potencial energético é enorme.

Em quase todo esse trecho a Ruta 3 é duplicada e tem um largo acostamento. No caminho parei no emblemático El Solito, um arbusto que sempre aparecia nas fotos que eu procurava da Ruta 3 na internet. Um motoqueiro argentino, de Olavarria, voltando de Ushuaia numa moto offroad aparentemente comum, simples, parou do outro lado. Me contou sobre a árvore e me passou seu contato. Infelizmente seu celular estava apagado e as anotações que ele fez no meu aparelho se perderam. Ele não salvou o arquivo e eu não reparei. Nenhum de nós dois tínhamos uma caneta funcionando na hora. Fiquei com seu cartão, mas ele me avisou que estava desatualizado. Mesmo assim mandei um email, mas nunca tive resposta. Ele tinha ficado de me ajudar com alguns contatos no caminho, talvez lugares para dormir. O pessoal é bem solidário em toda a Patagônia.

El Solito, na Ruta 3.

El Solito, na Ruta 3. Trata-se de uma das poucas árvores da região e seria derrubada nas obras da rodovia. Sobreviveu graças a um acampamento e manifestações em contrário.

Em Trelew almocei minha marmita no posto da entrada da cidade e fui no Museo Paleontológico Egidio Feruglio – que é excelente, visita obrigatória. Tem uns fósseis de dinossauros sul americanos, brutais, que eu não imaginava que existiram. Inclusive a mais recente descoberta: o fêmur e outras partes do que pode ser o maior dinossauro já descoberto pela humanidade.

No escritório de informações turísticas ligaram para todos os campings das cidades vizinhas e não tinham aberto ainda para a temporada 2015/2016 – ainda era outubro. Tentei os bombeiros e mais uma vez rolou um apoio. Até me levaram na viatura pra tomar banho no outro quartel, porque onde fiquei o banheiro estava quebrado!

Parti cedo no dia seguinte. O plano era chegar o mais perto de Punta Tombo possível e tentar acampar em uma estância, para visitar o parque com a colônia de Pinguins de Magalhães no dia seguinte. Saí às 7h de Trelew e segui pela Ruta 3 subindo as ondulações que levam do vale em que se encontra a cidade ao platô da estepe. Peguei um pouco de vento mas segui sem pressa. Cheguei ao cruzamento da Ruta 75, que é asfalto e leva à Ruta Provincial 1 – essa era toda ripio, mas foi asfaltada no trecho que leva à entrada da Estância Perla, onde fica a reserva.

Passei por algumas estâncias em que podia ter pedido para passar a noite. Eram umas 13:30 e resolvi arriscar ir até a Punta e acampar em uma estância na saída, depois da visita, me adiantando nos planos. Sofri bastante nos últimos 20km, em ripio, já dentro da estância Perla. O que já é difícil estava ainda pior com o grande movimento de turistas do fim de semana passado, e que ainda continuava. Não sabia se preferia (ou odiava mais) areia, pedras grossas ou a mistura dos dois. Empurrei em uma subida e um casal numa caminhonete me ofereceu carona, agradeci e recusei achando que estava perto… enquanto sofria muito me questionei sobre a viagem de forma pessimista e achei que estava ferrado ali. Como é proibido acampar na reserva, achei que ia ter que voltar tudo aquilo pra acampar numa estância, e imaginei até mesmo que o guardafaunas ia me levar de caminhonete de volta pra Trelew! Delírios de uma mente cansada.

Cheguei na reserva umas 16:30h. Paguei a entrada e as senhoras da bilheteria me perguntaram da bicicleta, da viagem, etc. Perguntaram pra onde eu ia hoje e eu disse que não sabia. Elas falaram brincando pra eu dormir por ali, o que eu respondi rindo que “se posible…”. Quando cheguei na entrada da trilha o guardafaunas já me esperava, perguntou se eu tinha material de camping e me disse pra ir visitar os pinguins e conversar com ele na volta – fiquei um pouco apreensivo, o cara não parecia muito otimista.

Fui caminhar e logo vi que a reserva é maravilhosa e toda a preocupação se foi na hora, já não importava onde ou se eu ia dormir essa noite. Caminhei muito perto de pinguins e guanacos e acho que peguei boas fotos com a luz do entardecer. São inúmeros pinguins, é a maior colônia continental dos Pinguins de Magalhães. Ali eles são donos de tudo e vão onde querem, inclusive entram na trilha demarcada para humanos – a ordem é que os turistas não se aproximem muito e dêm a volta ou esperem o bicho se retirar da trilha antes de continuar. Vinham do mar em uma longa fila, se espalhando pelo terreno, buscando abrigo na escassa vegetação, gritando e batendo as asas em busca de parceiros para acasalamento – a temporada estava começando, o rala e rola comendo solto. Alguns mais animados já protegiam os primeiros ovos.

Fazia muito frio com o vento vindo do oceano, extremamente azul. Foi uma hora e meia de um entardecer inesquecível. No fim o guardafaunas me ofereceu o banheiro do parque para o pernoite. A estrutura é enorme e estava limpíssima, já preparada para o dia seguinte. Pernoitei com mais conforto do que em muitos lugares que eu já tinha pago pra dormir durante a viagem.

Pinguins voltam do mar em Punta Tombo

Pinguins voltam do mar em Punta Tombo

Alguns funcionários da Vialidad vieram bater papo e ofereceram uma carona até o asfalto, para o dia seguinte. Eles tirariam o lixo do parque, de caminhão, por volta das 9:30h. Aceitei tranquilo, não queria repetir aquele caminho sofrido. Eles ainda me chamaram para comer e beber, me safei de fazer desfeita e ter que explicar muito sobre minha alimentação vegan porque já tinha cozinhado e estava comendo quando chegaram. Fiquei de passar lá depois para conversar um pouco, mas saí sem lanterna e pro lado errado, não achei suas casas/containers. Estava frio, eu estava cansado e resolvi ir dormir ao invés de procurar pra outro lado.

Ventava muito pela manhã e o céu estava nublado. Um pouco do sol aparecia entre as nuvens e brilhava no mar próximo à pinguinera. De dia, com ajuda do guardafaunas achei a base dos trabalhadores: duas casinhas que na verdade são containers equipados com cozinha e beliches. É assim que vivem os trabalhadores da Vialidad argentina, fazendo a manutenção das estradas, especialmente no rigoroso inverno. Tomei um mate com os novos amigos e ganhei um saco com 8 laranjas.

Um deles queria me achar no Facebook e só aí que eu vi que rolava um wifi pros caras. Pedi a senha e tive a notícia – uma mensagem de 2 dias antes – de um problema de saúde sério na família. Foi um balde de água gelada. Eu tinha que estar lá naquela hora, dar algum apoio.

Não consegui falar com ninguém na hora. Juan e Nazareno me chamaram para sair, era a maneira mais rápida de eu chegar a qualquer lugar, então fui. Sofremos para subir os 50kg da bike no caminhão e ajeitei a coitada lá em cima do lixo. Na cabine do caminhão não falei nada com os caras sobre o ocorrido, pra não gerar um clima de ter que dar muitas respostas sobre o que eu não sabia. Acho que eu estava tentando não sofrer por antecipação também.

Tentei agir naturalmente na conversa amigável que tivemos. Durante o papo eles revelaram, com certo orgulho, que comem carne de guanaco. Achei que fosse um animal ameaçado, mas eles falaram que é uma praga, que até morre de fome por falta de pasto. Acho que na verdade falta pasto porque as ovelhas das estâncias disputam a mesma comida. No entanto, quando olho condições naturais aqui, clima extremo, vegetação rala, baixa, ressecada, solo muito pedregoso… não consigo imaginar nenhum tipo de agricultura em prática.

Um dos caras me deu de presente uma ponta de flecha dos antigos indígenas locais, de certa forma seus antepassados. Disse que tem várias em casa, encontra sempre nas andanças pelo mato. Eu agradeci e recusei, explicando que a aduana me encrencaria se me pegasse com aquilo. Na verdade na hora eu achei que esse tipo de peça não tem que sair dali assim nas mãos de particulares. Aquilo tem uma história, uma identidade e pertence ao lugar, aos herdeiros daquela cultura e talvez a quem for fazer uma pesquisa séria a respeito. Agora estou meio dividido, porque era uma flecha bonita, de pedra vermelha e polida e certamente gostaria de tê-la comigo.

Desembarquei na Ruta 3. Os caras seguiam para Gaiman. Eu, para Comodoro Rivadavia (onde estava o aeroporto internacional mais próximo). Seriam cerca de 80km até Uzcudum, que não é um povoado mas apenas um posto de gasolina. O vento sul era forte, resolvi encará-lo para não perder tempo. Foi sofrido demais e ainda vieram umas chuvas que ocultaram o sol completamente. Eu rodava a 14km/h, às vezes a 10km/h. Quando completei 30km é que me toquei que o pedal começou tarde e naquele ritmo eu não chegaria a Uzcudum com luz do dia. Além de tudo, minha cabeça não funcionava, não estava ali no meu corpo, focada em chegar a algum lugar. Eu estava desorientado.

Tentei uma carona na beira da estrada, mas esperei uns 20min e o suor abaixo das 3 camadas de roupa ficou gelado. Voltei a pedalar batendo o queixo e pedia carona em movimento quando alguma caminhonete aparecia no retrovisor. As enormes 4×4 passavam voando por mim. Algumas não vi a tempo, outras me ignoravam. Nenhum caminhão com espaço vazio passou. Eu tentava acelerar mas o vento ria de mim.

Finalmente, com 54km rodados, parou uma caminhonete surrada, com dois caras na cabine e uma enorme rede de pesca embolada na carroceria. Iam para Camarones, um povoado no litoral. Fomos eu e a bike ali em cima da rede, o cara me deu mais um casaco pra vestir, pois eu não cabia na cabine. Sentei olhando a estrada pra trás, ele acelerou muito – como todos por ali – e eu só registrei mentalmente aquela loucura que era ver a estrada voando pra trás, eu e a bike sobre a rede e o capuz do casaco me dando tapas na cara por causa do vento. Algum tempo depois chegamos ao posto e fui direto tomar um café enorme pra me esquentar.

Pedi permissão no posto pra acampar por ali. Me indicaram um gramado colado na lanchonete em que eu teria proteção do vento pelos lados sul e oeste. Com muito frio, cozinhei. A comida me esquenta o corpo. Tentei secar as roupas molhadas de suor, mas não rolou. Garayalde estava a 60km mais pra frente e, apesar de também ser só um posto de gasolina com uma base policial, lá pelo menos tem sinal de celular. Eu poderia seguir até lá no dia seguinte para tentar ter notícias. Eu estava muito mal de não estar em casa naquele momento difícil. Esse foi o dia mais duro da viagem em todos os sentidos.

Acordei, tomei alguns cafés quentes no posto e não me vesti pra pedalar. Fui pra beira da estrada pedir carona. Esperei cerca de 1h e ninguém parava. Um caminhão do Instituto Provincial del Água, ou algo assim, entrou no posto. Fui até o motorista e contei minha história, ele topou me dar a carona. Subi uma escada até a carroceria do alto caminhão e ele me ajudou a subir com a tralha. Amarrei de qualquer jeito atrás dos tonéis vazios que ele transportava e fui convidado à cabine onde também ia seu filho de uns 15 anos. Conversamos um pouco e logo o garoto pegou no sono. Eu cochilei mas logo acordava com a música regional altíssima que o motorista ouvia.

O caminhão da última carona.

O caminhão da última carona.

Passamos por um posto abandonado, no trevo para Camarones, e depois pelo de Garayalde, não tive certeza se tinha uma lojinha aberta, talvez nada. Conforme os relatos que já li, nunca esses 3 postos funcionam ao mesmo tempo. Informação importante para quem vai encarar essa estrada, pois o caminho entre Trelew e Comodoro Rivadavia é muito ermo e duro para ciclistas. Vimos um zorro gris cruzando a estrada. O motorista cumprimentava os gaúchos das ovelhas, e indicava onde tinha moinhos de água que tinha instalado (esse era seu trabalho), alguns com 200m de profundidade.

Chegando perto de Comodoro, placas indicavam possível gelo invernal Eu não gostaria de passar por ali no inverno. Logo apareceram indicios à direita de um enorme vale e em seguida começamos a baixar, saindo lentamente da região que batizei de Platô da Desolação – eu não sabia que estava tão alto. Gostaria de ter aproveitado a enorme descida pelos canyons em cima da bike, mas não teria cabeça nem para chegar ali pedalando, 2 dias depois. A carona foi a melhor decisão.

Fui com eles a Caleta Córdova descarregar um material e ajudei a achar o caminho no mapa/gps. É um povoado num recanto de praia com pequenos estaleiros e alguns barcos abandonados. Na volta me deixaram no centro. Logo que tive sinal no celular, entrei em contato e as notícias eram um pouco melhores. Ao mesmo tempo, dali pra frente tudo seria mais remoto e difícil. Se eu fosse voltar para o Brasil, aquela era a hora, eu precisava decidir. Consegui abrigo nos bombeiros e peguei um dia a mais para aguardar o desenrolar das coisas no Brasil e pensar.

Caleta Cordova

Caleta Cordova

No dia seguinte, com o apoio vindo do meu amor e bons conselhos de mãe, tomei a decisão de continuar. Comprei um pasamontañas (perdi o meu não sei onde) e uma garrafa térmica pra levar chá. Foi caro, mas valeu a pena. Dali em diante o xadrez contra o vento e o frio seria cada vez mais complexo. Nos bombeiros apareceu um cordeiro inteiro e sem pele, pronto pra ser assado, na sala de confraternização/churrasco em que eu estava alojado. Me passaram pro cassino (sala de jogos), onde tive uma noite meio agitada dormindo no sofá enquanto os plantonistas matavam o tempo.

Parti umas 8 da manhã rumo a Caleta Olívia, vento oeste como previsto. Nos primeiros 30km a estrada faz um zigzag pelos morros à beira mar, o vento ora atrapalhou ora ajudou. Logo entrei na província de Santa Cruz e pela primeira vez a polícia de fronteira argentina quis anotar meus dados – é uma província muito militarizada, especialmente no lado atlântico. A estrada estava sendo duplicada e tinha longos trechos de asfalto ou ripio bem assentado, ainda não liberados pros carros. Segui relaxado com aqueles trechos de estrada particular. Almocei curtindo o visual das loucas praias, sem areia, mas com muitas pedras soltas e arredondadas. A mudança na paisagem foi muito bem vinda.

De volta à estrada, vi uns 4 lobos marinhos atropelados e não entendi muito bem porque foram para a estrada, bem mais alta que a praia. Encontrei um ciclista treinando e conversamos um pouco, foi um recomeço ameno.

Caleta Olivia é muito cara, assim como em Comodoro Rivadavia, tudo gira em torno do petróleo. Todas as cidades petroleiras em que passei eram mais caras, cresceram de forma mais desordenadas e eram mais feias que as cidades e povoados comuns da mesma região. O progresso anunciado é muito duvidoso. O camping estava fechado, pernoitei num hotel com banheiro compartilhado que foi o mais em conta que achei. Nesse não deu para cozinhar no quarto, porque a janela da pro corredor. Jantei frutas e um sanduíche de salada. Resolvi que, mesmo com a previsão de ventos ainda mais fortes, frio e chuva pros próximos dias, seguiria para Fitz Roy (não a montanha, o povoado) em busca de economia.

Talvez devesse ter acampado na estrada, saindo da cidade, mas ainda precisava fazer compras e não daria tempo de procurar algo antes de escurecer. Toda vez que vou ao mercado faço compras como se não tivesse quase nada, mas tenho muita comida guardada. A mente é de um faminto, mas na verdade eu poderia passar uns 3 dias acampado e bem alimentado com o que eu tinha, se encontrasse alguma fonte água no caminho. Só que aqui é a Patagônia Argentina, nada menos.

Clique na imagem abaixo para ver a galeria completa de fotos desse trecho:
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13/10 – Trelew – 66km
14/10 – Punta Tombo – 126km
15/10 – Posto Uzcudum – carona + 54km + carona
16/10 – Comodoro Rivadavia – Bombeiros (carona)
17/10 – Comodoro Rivadavia
18/10 – Caleta Olivia – 99KM

Total até essa data: +/- 3.597  KM.

Custos totais no trecho: +/- 2.133 Pesos Argentinos.

Clique aqui para ver o mapa até este ponto (aproximado, puxado da memória quase um ano depois).
Por algum motivo o bikemap.net não deixou eu prosseguir com o mapa que marca desde o Brasil. Iniciei um novo em Puerto Madryn. Talvez porque esse trecho da Ruta 3 esteja interditado para obras, não deixou marcar ali e inventou um caminho via Rawson que eu NÃO fiz. Fui pela 3 mesmo entre Puerto Madryn e Trelew. Também não consegui marcar com uma linha diferente os trechos da carona, então ficou tudo uma coisa só.

O mapa do trecho anterior está  aqui.

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