Parte 5: Entrando na Patagônia e Península Valdés.

Tough of the track
With the wind
And the rain that’s beating down on your back
Your heart’s beating loud
And goes on getting louder
And goes on even more till the sound
Is ringing in your head
With every step you tread
And every breath you take
Determination makes
You run
Never stop

 

Depois de alguns dias de descanso e comilança no quartinho da hospedaria em Rio Colorado, o corpo já pedia pra voltar pra estrada. Acordei umas 5:30h do dia 06 de outubro de 2015 pra arrumar as coisas e dar uma limpeza no quarto. Às 7:00h entreguei as chaves e toquei pra estrada, tentando ainda no lusco-fusco entender o que é essa Patagônia afinal.

Foram uns 30 ou 40km tranquilos pela Ruta Nacional 22, até entrar na RN 251 rumo a General Conesa, às margens do Rio Negro. Não um ser humano que não estivesse em um carro ou caminhão, na estrada extremamente reta e plana, com um acostamento mínimo.  As estâncias eu via muito ao longe e as identificava apenas pelas moitas de árvores que protegem as casas e animais do vento, e por um ou outro catavento à distância. Todos indicando vento sudoeste,  que eu já começava a sentir.

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Perto da estrada só vi uma casa, com máquinas ao fundo e um muro de enormes chapas de ferro cortando o vendo que a bandeira argentina anunciava. Um cão me olhava desconfiado, não vi mais ninguém. Também havia uma torre de celular,  que não gerava sinal. Almocei sentado e encostado na bagagem da bike deitada, de costas pra estrada e de frente para a única árvore com folhagem verdejante e aveludada. Parecia de mentira naquele oceano de arbustos, marrom, duro e ressecado

Nesse dia postei no Instagram: “De longe pensei que era um rio e até acelerei pra mergulhar, já que hoje fez um solzinho. Mas é um pequeno salar. Sem problemas, estou no camping municipal de General Conesa e já dei um mergulho no gelado Rio Negro. Após 150km sem ver ninguém a não ser os carros e caminhões da rodovia, sinto que estou entrando na Patagônia.”

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Do Rio Colorado ao Rio Negro, 150km sem um fio de água (corrente ou acumulada) em todo o dia. Batismo patagônico. Foi o dia em que eu não ouvi música, mas não parei de cantar mentalmente “The Loneliness of The Long Distance Runner” (tomei bronca do Poney porque antes de Buenos Aires eu não tinha essa música pra ouvir). Cansei, mas cheguei a tempo de cruzar a ponte logo achar o camping municipal. Não perdi tempo e me instalei. Não havia ninguém,  nem água quente. Algumas pessoas passavam caminhando pelo parque/camping, mas não sabiam quem era o responsável por ali. A solução pro banho foi nadar no rio gelado e tomar um banho de chuveiro apenas frio, já no por do sol. Cozinhei e logo dormi.

Acordei umas 6h e tomei um café tranquilo, arrumei tudo sem pressa. Achei que o dia seria fácil perto do anterior, pois a distância seria menor. Apareceu um jardineiro do camping, conversamos da viagem e da bicicleta, mas não cobrou nada e eu também não toquei no assunto. Peguei a estrada, começando como uma subidinha fácil. Uma reta, uma subidinha. Outra reta meio inclinada, outra subidinha. Nada demais. Quando cheguei ao alto do platô, vendo uma vegetação já bem mais seca e retorcida, o vento pegou mais forte e de frente.

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Meu consolo era que o destino era ao nível do mar, fatalmente teria uma descida no final. Acontece que eu estava entrando na Patagônia. O vento era tão forte que tive que pedalar para conseguir descer a ridículos 13 ou 15km/h. Cansativo demais. Num posto, mesmo tendo consumido uma bebida, me disseram que não tinha wifi. Procurei e achei um com o nome da bodega: Atlantic. Tentei a senha “atlantic” e entrou. Vermes!

Eu ia procurar os bombeiros em Sto Antônio del Oeste, mas não achei nada na internet. Resolvi não sair da rota e toquei pra Las Grutas, cidade vizinha com vários campings. Cansado ainda peguei um desvio de obras na estrada, muito buraco e vento contra. Acabei parando no primeiro camping, meio fora da cidade e talvez não fosse o mais barato.

No dia seguinte eu acabei não indo ver a praia de perto, nem pisei na areia. Estava num momento da viagem muito focado na estrada e no pedal, o que é bom demais também. Não me arrependo, mesmo porque o dia foi duro e se eu tivesse tirado a manhã pra isso teria pedalado à noite.

Do nível do mar peguei uma leve subida até a ruta 3 e mais uns 30 ou 40km de subidas leves e retas até o último posto antes de Sierra Grande. Precisei comprar água, pois faltavam 90km e eu já tinha bebido bastante. A água das pias do posto era totalmente salgada, inviável a purificação.

Do alto do platô – uma planície elevada e exposta, sem barreiras naturais –  o vento começou a pegar firme, me contorcendo. Músculos que eu não imaginava que forçaria ardiam em chamas. Precisava me esforçar para manter uma postura razoável. Aos poucos as nuvens se acumularam no céu e se transformaram em diversas chuvas que eu observava à distância. Uma delas respingou em mim, mas não molhou.  Desci do platô em leves ondulações que aos poucos me deixaram mais perto da sierra que crescia no horizonte (mas não era tão Grande assim). Passei por um desvio em terra e ripio, de uma obra na pista, comendo muita poeira dos caminhões e carros. Completei os 124km que meu mapa indicava e nada de cidade ou qualquer outra coisa que não fosse areia, pedregulhos e vegetação retorcida.  Subi ainda mais uns 15km suavemente,  porém muito cansado, até chegar.

Acampei na área de lazer do posto do Automóvel Clube,  como em Las Flores.  Tomei um café; usei o wifi e pedi água para cozinhar. Fui fazer compras e esqueci minha bolsa com as câmeras no café do posto. Na volta estava guardada pra mim. Sinais do cansaço.

O ritmo da viagem era forte, dormindo cedo e acordando cedo, só pensava na estrada. Naquela manhã em Sierra Grande me forcei a dormir mais, mas não consegui passar das 7h. Eu poderia tocar direto para Puerto Madryn, mas achei que seria puxado demais. Resolvi que só iria ao povoado Arroyo Verde, cerca de 45km apenas.

Depois da cidade a subida continua por uns 30km,  naquela sequência de planos inclinados e algumas subidas um pouco mais íngremes. Eu subia forte e me sentia muito bem. Como estava dentro do relevo da serra, estava protegido do vento e subi em velocidade relativamente alta, uma alívio perto do dia anterior!

No topo do platô, mais uma visita do vento com uma das muitas chuvas que borrifavam água de forma errática sobre a planície. Não deu pra molhar muito e logo parou. Em um antigo parador/borracharia, hoje sem teto e cheio de lixo deixado pelos caminhoneiros, imaginei um possível abrigo do vento para passar a noite em caso de emergência. Não dessa vez.

20151009_goingsouthbound_0803Segui até começar uma leve descida para descobrir que o pueblo não existe,  é só uma base policial e militar da divisa com a Província de Chubut. Conversei com um militar e depois um policial e os convenci de que não seria seguro ir a Puerto Madryn com risco de ter que pedalar à noite. Eu até conseguiria chegar de dia, mas não estava a fim. Queria revezar uma corrente e trocar uma câmara de ar que estava esvaziando lentamente. Não sabia se era furo ou defeito na válvula, mas aconteceu de tanto subir e descer entre acostamento de ripio e asfalto, quando vem trânsito dos dois lados. Foi no já cansado e inapropriado pneu dianteiro.

Ventava muito onde me deixaram acampar. Tentei me proteger um pouco entre as carcaças de carros batidos e enferrujados. Pensava muito em casa e em como amo demais estar com a Lena e o Médio, em São Paulo ou qualquer lugar. Cozinhei e comi cedo e já estava entocado na barraca antes do sol se por. Duro é sair da barraca no frio pra mijar, mas fazia isso quase toda madrugada, uma ou duas vezes.

No dia seguinte era hora de cehgar a Puerto Madryn, eu estava animado! Me arrumei com calma enquanto a neblina se dissipava e fui ao banheiro dos militares. Entupiu, não sei quem fui. Respondi as perguntas sobre a viagem, fiz a foto da placa de entrada da província de Chubut e me mandei. Comecei o dia em mais uma subida suave, o fim da sierra. No platô vi um parador/restaurante bem simples, em que eu também poderia ter acampado. Depois, um posto de controle de peso dos caminhões, também poderia ter tentado algo ali. Em seguida algumas retas tranquilas e uma descida, longa e suave, em que finalmente vi de um ponto mais alto a imensidão da estepe argentina.

Desci tranquilo, vento na cara e sorriso no rosto, e não quis parar para fotos. Era um desses momentos de experiência tátil, sonora e visual que guardei só pra mim. No fim da ladeira uma reta com leves ondulações e um vento que evoluía aos poucos e só incomodou depois do almoço,  que fiz sentado perto da cerca do pasto (como tantos outros). Também tirei um cochilo ali mesmo, com uma blusa na cara e aproveitando o sol.

Nos últimos días tenho visto galinhas selvagens que saem correndo para o pasto quando me aproximo, parecem pequenas Galinhas D’Angola. Também vi uma lebre, um gato (selvagem? ) e um zorro atropelados. Durante todo dia um outro animal passou por mim diversas vezes em alta velocidade, emitindo ruídos estranhos gritando, às vezes em bando, pilotando carros antigos. Em Puerto Madryn entendi o que eram: humanos em feriado prolongado. Além do movimento normal de um polo turístico, havia um encontro de carros antigos (maior que o do Uruguai). Quase não consegui hostel,  peguei a última vaga no 3° que visitei.

No meu primeiro dia em Puerto Madryn precisei tomar uma decisão. O plano era usar Puerto Mardyn como base para explorar no pedal a Península Valdés e, inspirado pelo relato do Thiago Fantinatti no seu livro Trilhando Sonhos, rumar para áreas pouco turísticas da enorme península. Mas tinha um agravante: eu queria fazer sozinho – teria que levar equipamento demais (com mais pessoas o peso de barraca e cozinha seria dividido, por exemplo). Desisti da idéia porque conversei com muita gente que voltou de lá naquele dia, todos me disseram que a estrada estava horrorosa e que o movimento de carros e vans estava muito grande. Pra piorar, havia previsão de forte vento contra no dia que eu teria que fazer o pedal de 100km até Puerto Pirámides, já na península. Foi bastante frustrante, mas desisti da idéia. Tenho certeza que seria uma experiência excelente, mas não naquele feriado. Entrei num passeio turístico de 1 dia, no dia seguinte.

Fiquei com um dia de descanso, era domingo e o comércio estava fechado. Fui ao pier e vi baleias bem ao longe. Bonito, mas não sai na foto. Depois das 15h as ruas se agitavam. No museu Hombre y el Mar  tem algumas coisas dos Mapuche e Tehuelches, os originais daqui. Uma palestra e um video sobre a luta atual para resgatar sua cultura, demarcar terras e retirar corpos de antepassados identificados dos museus onde são guardados. Chama a atenção que as ativistas são todas mulheres. O acervo do museu tem um esqueleto de baleia e uma carcaça de lula gigante, além de exemplares de caranguejos e conchas diversas.

De volta ao hostel fiz um remendo na câmara que furou no dia anterior. Furou porque o pneu já não aguentava tanto impacto de subir e descer do rípio pro asfalto com a bike pesada. Pressionava demais a câmara. Era hora de aposentar o velho kendinha urbano e instalar o segundo Schwalbe para seguir viagem. Um alívio no peso e no volume da bagagem.

No dia seguinte, depois de tanto tempo de autonomia  extrema, fui buscado pelos guias turísticos em uma van. Vimos baleias bem de perto, impressionante! Era uma mãe ensinando o bebê baleia a nadar em uma praia tranquila, muito perto da costa, em uma praia a caminho de Puerto Pirâmides.

20151014_goingsouthbound_0984.jpgO povoado turístico está instalado num cenário lindo, água cristalina de um azul indescritível, cheio de falésias incríveis. Me arrependo um pouco de não ter vindo acampar aqui ao invés de ficar no hostel em Madryn. Sairia mais barato e aproveitaria mais. Talvez pudesse ter deixado as coisas guardadas no povoado e partido com a bicicleta bem leve para uma volta na península, dormindo uma ou duas noites sem barraca. É o que eu gostaria de fazer se não fosse o maldito feriado.

A volta turística não é ruim. Do alto das falésias vi Elefantes Marinhos em sua colônia e Pinguins de Magalhães bem de perto, se preparando para a temporada de acasalamento, fora os diversos animais terrestres como a Mara e o Ñhandu, ou “avestruz”… e ovelha pra cacete, porque é isso que as fazendas por ali produzem. Por fim, não fosse pelo guia, eu não descobriria que as “galinhas” que eu comecei a ver pelas estradas se chamam Martinetas.

Clique na imagem abaixo para ver a galeria completa de fotos desse trecho:

06/10 – Rio Colorado até Camping Municipal de General Conesa – 158 km
07/10 – Camping Municipal de General Conesa  até Las Grutas (Camping El Oasis) – 105km
08/10 – Las Grutas até Automóvel Clube Sierra Grande – 139km
09/10 – Sierra Grande até Arroyo Verde  (Base militar e policial da fronteira Rio Negro – Chubut). – 49km
10/10 – Arroyo Verde até Puerto Madryn – 104km
11/11 – Puerto Madryn – descanso
12/11 – Península Valdes – excursão

Total até essa data: +/- 3252 KM.

Custos totais no trecho: +/- 2315 Pesos Argentinos.

Clique aqui para ver o mapa até este ponto (aproximado, puxado da memória quase um ano depois).

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