Parte 4: Província de Buenos Aires – rumo à Patagônia.

Fast and furious
We ride the universe
To carve a road for us
That slices every curve in sight

 

 

Depois de alguns dias em Buenos Aires com a Lena, chegou a hora de voltar para a estrada. Me despedi do meu amor, arrumei últimos detalhes e saí. Foi uma despedida meio atrapalhada e a saudade já começou a bater no minuto em que ela partiu para o aeroporto. Era um domingo tranquilo, fui pedalando pelas principais av. De Buenos Aires até a estação Constituición. Peguei o trem até Ezeiza e de lá para Cañuelas, evitando pedalar pela região metropolitana. Na baldeação e no destino fui ajudado para subir as escadas e entrar no vagão do trem com a pesada bicicleta, os degraus eram bem altos. Seria tenso fazer sozinho. Os argentinos já ali se mostravam não só solidários, mas interessados no que eu estava fazendo ali, daquela forma.

Da estação Cañuelas, uma cidade bem pequena do interior, pedalei por planícies semelhantes ao RS, já na gigantesca Ruta 3 – estrada que eu seguiria quase completa até o último km pedalável, no Parque Nacional da Terra do Fogo dois meses depois. Além dos cães, animais silvestres e de uma linda raposa, vi um quero-quero atropelado – a ave que habita todo e qualquer gramado de beira de estrada e que pensei ser invencível. Entendi como um aviso da estrada e redobrei a atenção no retrovisor e na linha branca adiante, o acostamento ali não existe.

20150927_goingsouthbound_0599Pedi para acampar num sítio, só consegui um pouco de água. O tempo já fechava e 3km a frente achei um posto com área de picnic (de carne, que é o que se come por ali) e me deixaram ficar. Havia um eclipse naquela noite, só vi chuva. Pelo menos a barraca aguentou.

Saí cedo. Água que peguei no posto era salobra, evitei. Em Las Flores fiz compras num mercadinho e um brasileiro com vários garotos argentinos, não sei se todos filhos, veio tirar fotos e saber da viagem. O plano do dia era esticar até Azul, mas não rolou. O vento frontal me segurava mais uma vez.

20150927_goingsouthbound_0604Encontrei em Cacharí o camping municipal, logo na entrada da cidade e anunciado pela imagem do Gauchito Gil. Fui bem recebido e me ofereceram a cozinha para dormir, mas preferi abrir a barraca pra secar da noite de chuva anterior. Dei uma volta na cidade, fiz algumas fotos na velha estação de trem e comprei frutas pra dar uma equilibrada na alimentação. Esse foi um dos hábitos que criei: comprar frutas todo dia para consumir bastante no acampamento. Tentei não carrega-las para a estrada, acabam pesando e ocupando muito espaço.

Em 29 de setembro acordei umas 5h, ainda com a lua alta no céu, pensando em sair cedo pra fugir do vento (via de regra, piora ao longo do dia e para à noite). Os primeiros 20km foram tranquilos, o acostamento pavimentado até existia, mas era cheio de lombadinhas que resultaram na quebra de um parafuso no bagageiro traseiro. Tirei a sobra com o alicate e substituí o bicho.

Me vendo naquela situação de desvantagem, o vento sudoeste resolveu aparecer, e forte. Pior que no Uruguai, 40km/h segundo a previsão. Em seguida, a temível placa: “fin de la banquina”, e começa o rípio misturado com grama (Estradas e acostamentos de rípio, ou cascalho, são muito comuns na Argentina e no Chile. Rípio pode significar desde um cascalho fininho e arenoso, até uma massa disforme de pedras grandes e soltas. Eventualmente vai aparecer um caminho compacto e lisinho, que geralmente não se sustenta por muitos km). Seria ruim se o vento não tornasse tudo irrelevante. Pedalei a sofridos 9km/h, no asfalto. Com o movimento da estrada e eu naquela velocidade, ficou mais seguro seguir sobre o “acostamento”. Arrastei por horas a bicicicleta até Azul e me encostei no camping.

Azul é grandinha, tem bastante comércio, um parque bonito e camping com um riozinho – em que mais uma vez eu estava sozinho. Não nadei, mas deveria ter encarado o frio. Sempre revigora. Tomei banho, dei uma volta na cidade, respondi umas perguntas de praxe (de onde, pra onde, quantos km, sério mesmo?).

Saí cedo de Azul. Manhã fria, céu limpo e vento a favor. A estrada é razoavelmente segura, geralmente os caminhões vão até a outra pista antes de iniciar as ultrapassagens. As retas são longas e se vê tudo muito longe, é tranquilo quando não se tem muito vento lateral. O problema é que ninguém por ali conhece freio ou limite de velocidade. Se os veículos vêm dos dois lados, eu que saia da frente. Aos poucos aprendi a rodar bem na pista e usar melhor o retrovisor, desviando para o acostamento (grama) quando precisasse. As inclinações aqui são raras e ainda mais suaves que no Uruguai. O vento me empurrou e aproveitei o embalo pedalando ainda mais forte, atingindo velocidades impensáveis para uma bicicleta pesada e cheia de carga. Passei o objetivo do dia, que era Benito Juarez. Pedalei forte, embalado ao som do Judas Priest, por mais de 200km até Tres Arroyos. Me adiantei em um dia inteiro no meu cronograma aproximado, nada mal.

Numa mercearia me informaram que não tem camping na cidade, tentaram me ajudar e indicaram uma pensão barata. Eu preferi tentar os bombeiros e fui bem recebido. Me pediram um atestado de antecedentes na polícia, o que foi rápido e sem papel, a polícia ligou pro quartel e falou que a capivara tá limpa. É um saco ter que lidar com esses tipos, mas a perspectiva de banho quente, cozinha e calefação depois de 200km de pedal… Melhor que hostel. Os bombeiros se lembraram das brasileiras Carol Emboava e de Ada Cordeiro. Fora outros de vários países que passaram ali nos últimos anos. Gostam de conversar sobre a viagem. O mascote do quartel era um cão muito esperto que sabe circular por todas as salas, abrindo e fechando todas as portas.

No dia seguinte os bombeiros me ofereceram para ficar mais uma noite, mas preferi seguir e guardar o dia que ganhei para um cidade mais legal ou uma emergência. Além disso, para o dia seguinte estava previsto vento sul-sudeste para Bahia Blanca, bem no trecho em que a estrada vira para oeste, me adiantei para tentar navegar esse vento no dia seguinte.

Fazia frio e chovia. O vento não atrapalhou. Duro foi tomar umas águas de roda de caminhão, mesmo com a roupa adequada. Parar por mais de 10 minutos me congelava, mas não cansei muito. Errei no ajuste da calça impermeável com as polainas e preciso melhorar o paralama dianteiro. O tênis ficou encharcado.

Nos bombeiros de Coronel Dorrego me deixaram tomar banho e esquentar a comida no microondas, mas depois a quarteleira – de cabelo escovinha e fala dura – me negou o abrigo pois ocorreram problemas nas vezes que receberam estranhos. Eu não esperava essa, mas me troquei novamente pras roupas molhadas e fui para um hotel. Não havia condição de acampar, não existia um m² de terreno seco fora da cidade. Pelo menos com calefação forte e ventilador no quarto, fiz um varal e toda a roupa e tênis secaram durante a noite.

20150928_goingsouthbound_0622A caminho de Bahia Blanca, parei algumas vezes para comer ou descansar, mas por pouco tempo. Era mais um dia chuvoso e logo o corpo esfriava. No trevo de Monte Hermoso uma placa dizia: de sol a sol. Olhei 360 graus pela planície e não vi sol nem monte algum. Num posto de gasolina tomei três cafés pra me aquecer. Mas pra não esfriar o único jeito é ficar em movimento. Fugi de uma chuva que veio do sul, junto com o vento que me pegava pela esquerda, pois eu já ia para oeste. As vezes vinha sudeste e me ajudava, valeu a pena encarar a chuva do dia anterior.

Almocei em um ponto de ônibus na entrada de Bajo Hondo. Brincando, fiz sinal de beber pros caras de um caminhão de coca cola, pararam e me deram uma garrafa de 3l de refrigerante de Pomelo. Muito grande! Então me deram 3 pequenas garrafas de suco de laranja, tomei duas no ato. Gente fina.

Bahia Blanca é uma cidade grande e industrial, a entrada exigiu atenção. Desencanei do camping que eu tinha anotado. Esperei o chefe dos bombeiros por umas duas horas, mas me receberam bem. Cama, cozinha e banho quente. O único inconveniente é que os bombeiros ali eram militares e não voluntários, o papo de milico sobre criminalidade, violência, repressão ficava aparecendo toda hora e eu desviava como podia.

Engraçado foi que ficaram falando de “villas” (leia-se com sotaque argentino, “vijas” ou “vixas”) e perguntando das “villas” no Brasil. Mais tarde, perguntei se tinha algumas “villas” no caminho à frente e me disseram com satisfação que não tinha nada, nada, era muito seguro (hã?). Fiquei preocupado com meu estoque de água, e só várias semanas depois fui descobrir que “villas” para eles são favelas e o que eu queria saber é se haviam “pueblos” no caminho.

Aproveitei a facilidade da cidade grande e comprei uma ecohead vermelha (para proteger o pescoço) e uma blusa térmica de mulher, tamanho XL, que estavam em promoção. As vendedoras não gostaram, queriam que eu levasse a mais cara, de varón. Pensei em trocar a barraca, a minha era um trambolho para carregar, mas não tinha do tamanho nem resistência à água desejados. Nem vi o preço, mas a blusa em promoção já foi cara o suficiente.

Por indicação de um bombeiro passei a usar o aplicativo Windguru, que me ajudou muito no resto da viagem. Vi a previsão do vento e o melhor foi abandonar por uns dias a Ruta 3 e seguir por Rio Colorado ao invés de Viedma, pois o vento era sul-sudeste e Rio Colorado está a oeste. A maioria dos viajantes de bicicleta que encontrei na viagem usava o site http://www.windguru.cz/pt/  para ver a previsão dos ventos. A grande vantagem do aplicativo é que você pode salvar a previsão dos próximos 7 dias para pesquisa off-line, para até 10 lugares diferentes.

Saí bem cedo e tranquilo de Bahia Blanca pela Ruta 3 e depois pela 22. Perto de uma vila aconteceu o que eu temi durante toda a viagem, vi um bicho ser atropelado na hora. Dois patos domésticos estavam no meu lado da estrada, se assustaram comigo e atravessaram voando baixo, um deles foi pego por um caminhão, que não se preocupou em frear. Culpa de quem deixou os bichos na beira da estrada também, mas na hora segurei o choro e me senti um pouco culpado. Não foi o melhor dos meus dias.

Depois do povoado chamado Médanos a estrada virou uma reta infinita, com uma ou duas inclinações muito suaves. Passei à província de La Pampa e segui tranquilo, chegaria a Rio Colorado sem problemas, mas resolvi parar em uma fazenda/posto de gás combustível para aproveitar o dia de sol e acampar de graça. “-Si si hermanito! Pone la carpita!”

20151004_goingsouthbound_0703O lugar parece um antigo parador decadente. Não tem placas e não entendi muito bem se os caminhões se abastecem ou abastecem o posto. A parede de um galpão (com um letreiro apagado) e uma carcaça de caminhonete enferrujada fizeram meu abrigo do vento. Espremido ali, montei a barraca.

Pedi água para cozinhar e me indicaram um poço de água da chuva, não parece ter água corrente aqui e nas vilas por onde passei hoje parece ser a grande novidade. Nos próximos dias está prevista uma chuva, então resolvi tentar fazer desses os dias de descanso nos bombeiros de Rio Colorado.

A noite foi extremamente gelada. Sair da barraca pra mijar foi bem difícil. Só estava tranquilo porque ainda trazia duas calças e duas blusas quentes pra usar quando esfriasse mais. Esperei o sol subir um pouco para sair da barraca. Comi, usei uma camada a mais de roupas para pedalar e toquei para Rio Colorado. O dia estava muito nublado e não parei para nenhuma foto especial.

Depois de dois dias em La Pampa, já passei à província de Rio Negro. A placa, os hotéis e restaurantes já gritam “Patagônia!” pra todo lado. Acho exagero de marketing dizer que aqui já é Patagônia e do outro do lado não. Como me disse um argentino dias depois, é só cruzar o rio que até o vira-latas é o perro patagônico.

Vi o camping do alto da ponte, mas estava vazio, com aspecto de abandono. Fui aos bombeiros e tive o mesmo problema de Coronel Dorrego, outros viajantes abusaram e não posso ficar. Errando um caminho de volta aos hotéis da rodovia, acabei num a placa de Habitaciones Econômicas, metade do preço que o bombeiro tinha estimado. Com wifi, fogão de 1 boca para chás e calefação secando a roupa lavada no banho, descansei (comi) três noites ali e na terça faria meu primeiro “pedal patagônico” rumo a General Conesa.

Clique na imagem abaixo para ver a galeria completa de fotos desse trecho:

20150928_goingsouthbound_0629

27/09 – Buenos Aires até Posto Automóvel Clube (saída para Gorchs, 50km antes de Las Flores) – 94km
28/09 – Posto ACA até Camping Municipal Cacharí – 114km
29/09 – Camping Municipal Cacharí até Camping Municipal de Azul – 74km
30/09 – Camping Municipal de Azul até Bombeiros de Tres Arroyos – 215 km
01/10 – Bombeiros de Tres Arroyos até Hotel em Coronel Dorrego- 112 km
02/10 – Hotel em Coronel Dorrego até Bombeiros de Bahia Blanca – 102km
03/10 – Bombeiros de Bahia Blanca até Fazenda/Posto de gás combustível (perto de gaviotas) – 134km
04/10 – Fazenda/Posto de gás combustível (perto de gaviotas) até Rio Colorado – 54km
05/10 – Rio Colorado – descanso
06/10 – Rio Colorado – descanso

Total até essa data: +/- 2697 KM.

Custos totais no trecho: +/- 1936 Pesos Argentinos.

Clique aqui para ver o mapa até este ponto (aproximado, puxado da memória 6 meses depois).

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