Parte 3: A costa do Uruguai

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Primeiro dia pedalando fora do Brasil.

Foi minha primeira noite fora do país, ainda na fronteira, mas já no lado uruguaio. Tomei café no hotel, fui ao lado brasileiro sacar reais para fazer o câmbio no lado uruguaio e comprar umas provisões. Voltei à placa da divisa pra fazer uma foto e na saída da cidade fiz a burocracia de imigração,  foi rápido. O dia estava bonito, com céu azul e um frio agradável, mas dali em diante veio um vento sudoeste muito forte, eu rodava a 13 km/h com bastante esforço. Após um pouco mais de 30km, já cansado e com fome, cheguei à Fortaleza de Santa Tereza.

A fortaleza é bonita, e data de 1762, mas nada nunca antes visto. Talvez fosse mais interessante ter dado uma volta pelo Parque Nacional que a abriga, mas acabei optando por seguir viagem. Uma chuva ameaçou cair e enquanto vestia minhas roupas de chuva fiz um breve lanche.

O soldado do forte disse que tanto vento é atípico nessa época, mas isso não impediu que ficasse mais forte ao longo da tarde. O pedal fica duro, baixa muito a moral, principalmente porque fui pego de surpresa: não esperava isso antes de sair de Buenos Aires. Lutei para não rodar a menos de 10km/h, quando baixou pra 8, quase chorei. Pedalava em descidas, frustrante demais.

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Na Fortaleza de Santa Tereza

Quando amenizou um pouco,  me aproximei já cansado de Castillos. Devia ter tentado acampar em uma fazenda antes, mas já escurecia e eu não consegui chegar ao Parque Nacional Cabo Polônio, que era o objetivo do dia. Foi a única vez em que isso aconteceu em toda a viagem. Já escurecia e acabei na espelunca mais barata da cidade. Feio. O dono, mal humorado, me atendeu por uma janelinha, pegou a grana e indicou um quarto no sobrado de madeira caindo aos pedaços, sem chave. Tranquei a bicicleta numa grade e subi com todo o equipamento. Cozinhei ali mesmo, tomando cuidado para não incendiar tudo, e dormi no saco de dormir sobre a cama, o mofo era generalizado.

A noite foi muito fria, o vento entrava por tudo que é fresta na precária construção, acho que na barraca eu estaria mais quente. Esperei o sol e saí cedo da espelunca,  sem falar com ninguém. O vento continuava,  mas a estrada tem outra direção e a distância era curta até Cabo Polonio. A saudade de casa já batia.

Dentro do Parque Nacional de Cabo Polônio, fica o povoado com o mesmo nome. Mas a partir da portaria não passam veículos, é necessário pegar um caminhão que te leva por um caminho de pura areia fofa. Deixei a bicicleta na entrada do parque, dentro do escritório, e subi no caminhão com os demais turistas e locais, meio atrapalhado com os alforges – carregar tudo fora da bicicleta não é das tarefas mais fáceis. Na área da reserva é proibido acampar, então fui para o hostel El Viejo Lobo. Banho, cozinha,  cama, wifi e lareira por 350 pesos a noite. Fiquei 2 noites. O primeiro dia inteiro de descanso após 12 dias e 1304 km rodados.

Na mesma tarde andei pela vila, vi o farol e os lobos marinhos. Minha lente não alcança a distância para uma foto detalhada do bicho, mas me emocionei assim mesmo. Ficam ali tomando sol, de vez em quando se refrescam na água gelada. E eu congelando. À noite li um pouco e o wifi caiu enquanto eu falava com a Lena, tentando amenizar nossa saudade. Faltava ela ali.  Fiquei bastante chateado por ter esquecido na pensão horrível o diário de viagem que estava escrevendo pra ela. Apesar da moral um pouco baixa, o farol aceso e o céu completamente estrelado formavam um cenário ímpar.

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Lobos Marinhos em Cabo Polônio

Acordei cedo porque já era minha rotina. Li tomando café, o proprietário limpava o hostel e cuidava da plantação de cannabis nos fundos. Os demais hóspedes dormiam enquanto eu terminava de ler Lady Florence Dixie, no livro Accross Patagonia, o relato insólito relato de viagem de uma mulher britânica do século XIX no sul da Patagônia. Em seguida comecei o excelente Burning Daylight, do Jack London, livro que me acompanharia por mais uns 1000km.

Vencida a inércia da manhã, fui à loberia observar. Passei horas, sentado numa pedra, vendo os diversos lobos marinhos daquela colônia. Filhotes, adultos, alguns muito maiores que os outros. Eles berram e se estranham enquanto se movimentam desleixadamente sobre a pedra – alguns passam por cima de outros como se nada fossem. Num susto, todos fugiram para a água,  alarme falso.

Depois de me abastecer no mercado fui conhecer a outra praia. No caminho até as dunas vi alguns lobos filhotes mortos – um outro ainda vivo e meio perdido.  Consegui me aproximar um pouco mais para uma foto, mas sem importunar a criatura. Subi às dunas e brinquei um pouco mais com a câmera, que eu ainda não dominava muito bem nesse ponto da viagem (não que domine hoje, mas melhorei um pouco).

Saí no caminhão das 6h de volta à portaria do parque. No meio do caminho a portinhola de bagagem abre e cai um alforge meu. Todos gritam para o motorista parar, mas mesmo com alguns me ajudando não achamos nada ali perto. Fomos à portaria deixar quem tinha ônibus para pegar e voltei com o motorista numa caminhonete menor até encontrar. De volta, monto tudo na bicicleta e parto às 7:15 pela Ruta 10.

A manhã estava linda e sem vento. Pedalei bem, na média de 20km/h os 50km até La Paloma. Vi várias aves no caminho:  patos idênticos aos de desenho animado, um tipo de arara ou papagaio grande, uma galinha selvagem de bico vermelho. Não sei seus nomes, mas entre eles me sinto bem. Desliguei a filmadora para poupar bateria. Imediatamente uma lebre pula na minha frente e corre uns 300m pela estrada, perdi a filmagem, mas ela fica bem só na minha memória.

Há pouco trânsito e todos me respeitam, o Uruguai é muito tranquilo. Em la Paloma compro pães e tomo um segundo café nos pés farol, que só abre às 15h, então não subi. Penso em tentar avançar pela praia através da Laguna Rocha, mas pergunto a um ciclista gordinho de pneus 700×20 e malha da Saxobank (Aliexpress…) e ele diz que não dá, impossível. Se eu tivesse tempo sobrando tentaria, ele não me convenceu. Tudo bem, também não sabia se seria possível depois passar na Laguna Garzon, onde havia uma balsa mas soube que havia uma ponte em construção.

Subi 30 km até Rocha. Leves e longas inclinações. Almoçei à sombra de um ponto de ônibus, a marmita fria preparada com o jantar de ontem, como fiz durante toda a viagem. Tomei um café péssimo numa parada chique, só pra usar o wifi. Mais uns 30 km com um chato vento lateral sudeste e cheguei ao pedagio da Ruta 9. Segundo os funcionários, não posso acampar ali, mas posso num pequeno bosque 300m à frente. Bem melhor. Pedi água, usei o banheiro e me instalei. Abri a barraca ainda molhada desde o último acampamento, ainda no Brasil. Fora um furo no piso que remendei com silvertape, nenhum outro problema me preocupava. Do meio das árvores, acompanhava o movimento dos carros e caminhões que não me viam da rodovia. O cansaço, como em todos os dias, me garantia ótimas noites de sono – não sem alguns minutos de uma tentativa de leitura pouco frutífera.

Do pedágio parti cedo pelas suaves ondulações das estradas uruguaias. O esforço para subir por 500m é recompensado por mais 500m de descida, entre bosques esparsos e gado nos pastos. Saí da Ruta 9 pela estrada vicinal para pegar a Ruta 10 em José Inácio. Menos caminhões e uma variação dos pampas para o mar. Sigo até Punta del Este, mas lá o vento vira contra mim. No Monumento ao Ahogado encontro um casal que roda a América do Sul de bicicleta, ônibus e trem. Segui adiante porque o excesso de turistas já estava me irritando. Ao virar a punta, me volto para oeste e o vento piora, me atacando lateralmente vindo do sul. A cidade é a mais chata do Uruguai: balneário de ricos, grifes e ostentação.

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“Camping” El Toro, em Piriápolis.

O pneu traseiro se abriu com uma bolha, mas não furou, me dando a impressão de estar montado em uma “roda quadrada” . Segui assim mesmo para Piriápolis, mas o vento me cansou muito. A cidade é muito mais agradável que sua prima rica. Com ares agradáveis de mar e montanha (para padrões uruguaios), Piriápolis guarda um ar decadente do primeiro grande balneário uruguaio. Devia ter ido direto pra lá aproveitar o dia ao invés de perder tempo na famosa punta.

Logo que cheguei à cidade busquei o camping municipal, mas o único camping que achei estava desativado, eu estava fora da temporada (condição que fez parte de mais da metade da viagem). O cara que me deu a informação me sugeriu ficar ali mesmo na Fonte Neptunia, uma praça próxima que tem um banheiro até 21h. Enquanto eu pensava o que fazer ele mudou de idéia e me convidou a ficar no gramado de sua academia de boxe, que é também um kiosco no verão. Grama, banheiro e uma bancada com pia para eu cozinhar. Isso é que é camping grátis! Peguei o fim do por do sol na praia. O dia estava quase quente, agradável. Andei aleatoriamente pela cidade e subi até o Almacén El Toro (homônimo de uma das montanhas da cidade, tocado por Washington e sua esposa) para agradecer mais uma vez. Comprei umas bananas e biscoitos pra comer na estrada no dia seguinte. Dormi mais uma noite tranquila, embalada pela simpatia e gentileza do Uruguai.

O dia amanheceu frio e carregado de nuvens, com medo da chuva não esperei o Washington para me despedir. Segui pela ruta 10 e me dei conta que o mesmo vento sudeste que me segurava lateralmente, agora me empurrava. Segui com facilidade apesar do frio, Montevideo me puxava de oeste. Da 10 segui pela Interbalneárea até Neptunia e depois entrei por uma avenida que me levou por subúrbios da grande Montevideo até o começo da rambla costanera, por onde entrei na capital. Segui pelo enorme calçadão, sem pressa, tirei fotos e apreciei um pouco do sol que apareceu para aquecer levemente a pele. No bairro Pocitos busquei um hostel. Fiquei no primeiro que achei, Destino 26. Não é barato mas as instalações são ótimas, tem café da manhã, banheiros limpos,  wifi, cozinha e espaço pra deixar a bicicleta. Vi outro mais barato depois, no centro, mas tinha que subir uma escada horrível e estreita, que dificultaria minha vida com alforges e bicicleta. Andei um pouco pelo bairro, fiz uma necessária salada e dormi.

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Chegando a Montevideo.

No meu dia de descanso em Montevidéo, fui andar logo cedo. Sem um destino especifico, andei em direção ao centro, passei no agradável Parque Rodó e fui até o mercado do porto, que só vai servir pra quem quer muita carne – eu passo. A cidade me pareceu uma capital muito agradável e tranquila pra viver. Pouco trânsito, arquitetura bonita, arborizada e com o enorme calçadão da praia. As pessoas andam bastante de bicicleta. Praticam esportes no calçadão e os que querem fumam seu baseado sem que isso pareça algo diferente a ser escondido – e sem enfiar o pé na jaca. Para os moralistas: a experiência na cidade não vai ajudar no seu argumento. Eu, que não fumo e nem bebo, posso afirmar isso com isenção total.

Tomei café no hostel, o dono era motoqueiro e quis fazer uma foto comigo, mas nunca me mandou. Saí tranquilo, umas 9h – uma das raras vezes em que comecei a pedalar tão tarde. Depois que saí da metrópole e cheguei ao campo, comprei umas maçãs na beira da estrada que estavam muito doces, incríveis, as mais doces que já comi até hoje.
O plano era seguir por um pouco mais que 120km para encurtar o dia seguinte, e então buscaria onde acampar. Passei os 120 e não achava um posto na estrada, uma parada ou um riacho limpo. Já estava pronto para pedir água em uma casa e me enfiar em um bosque quando uma família que viajava em dois carros carrinhos – que havia me passado com festa uns quilômetros antes – estava parada no acostamento, um deles tirou uma foto da minha aproximação. Iam para um encontro de Citroën antigos e esperavam o resgate mecânico. O encontro seria em um camping na entrada de Colônia do Sacramento, a 30km dali. Eu estava bem e achava que ainda daria pra chegar na luz do dia. Os 30km viraram mais de 40 e anoiteceu. Liguei os faróis e já estava dentro de Colonia, pensando ter passado o lugar. Quando finalmente achei, fui bem recebido no camping que só depois de um tempo entendi que era do Peñarol, o clube de futebol.  O vento do dia ainda foi o mesmo sudeste, mas como Colônia fica a noroeste de Montevideo, finalmente abri as velas – foi o dia mais longo da viagem até então, com 198km rodados.
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Camping Peñarol, encontro de carros antigos, em Colônia do Sacramento.

Meu café da manhã foi com as maçãs compradas na estrada. Conversei um pouco com os caras dos Citroën antigos e me mandei pro Buquebus. Finalmente eu ia encontrar a Lena, que me esperava em Buenos Aires! Tomei um merecido café quente no posto Ancap (quase sempre garantia de wifi na estrada) e segui pro terminal. No guichê não havia mais passagens, só para La Boca em um barco que é bem mais lento e desembarcaria longe de onde eu tinha que chegar. Uma desistência e embarquei,  mas achei caro demais! Talvez compensasse por La Boca mesmo. A idéia era voltar um dia com a Lena durante a semana para passear em Colônia do Sacramento, mas o preço ficou muito fora do nosso orçamento, ficou pra próxima!

Havia muita fila na imigração, a partida teve um atraso de 40 minutos. A lancha lotada, parece um avião, apesar luxo desnecessário mas não consegui ver muito pelas janelas embaçadas e sujas. Na alfândega argentina, no Puerto Madero, queriam passar a bicicleta inteira no raio x. Depois de eu enrolar um pouco apareceu um cara sensato pra me perguntar se tinha algo proibido e me liberou satisfeito com o “não”. Dali em diante foi cerca de 1h de pedal pela ridiculamente plana Buenos Aires ao encontro dos amigos Natha E Joaquin, mas principalmente da Lena. Passamos cerca de 10 dias juntos na capital argentina. O clima chuvoso não nos ajudou, mas as pizzas… ah, as pizzas!

 

Clique na imagem abaixo para ver a galeria completa de fotos desse trecho:

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11/09 – chuy – castillos – 83 km
12/09 – castillos – cabo polônio – 25 km
13/09 – descanso em cabo polônio – 0 km
14/09 – cabo polonio – pedagio da ruta 9 – 114km
15/09 – pedagio da ruta 9 – Piriapolis – 122km
16/09 – Montevideo – 107 km 
17/09 – Montevideo (descanso)
18/09 – Camping Peñarol – 198km
19/09 – Buenos Aires – Menos de 15km total
Total até essa data: +/- 1798 KM. (editado, errei a soma na primeira postagem)

Custos totais no Uruguai: +/- 2717 Pesos Uruguaios.

Clique aqui para ver o mapa até este ponto (aproximado, puxado da memória 6 meses depois).

 

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Um pensamento sobre “Parte 3: A costa do Uruguai

  1. A Fortaleza decepciona um pouco, mesmo indo de carro. Comi bem em Colônia e me diverti com os carros/jardim. E com as antiguidades por todo Uruguai. O vento ainda estava por comecar, ne?! Abs

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