Parte 2: Rio Grande do Sul ao Chuí.

A partir de Osório eu tinha duas opções. Uma seria ir para Porto Alegre e passar por Santo Antônio da Patrulha, do meu amigo Daniel Villaverde, vocalista dos infames Os Ornitorrincos. Seria legal ver os amigos, comer um XIS e ter um lugar certo pra dormir, mas na verdade eu não queria passar numa cidade grande. Decidi seguir pela segunda opção: saí de Osório pela RS 030 e segui pela BR 101 (nesse trecho, RST 101), me mantendo entre o litoral e as enormes lagoas.

No trecho até Rio Grande eu dormi uma noite acampado na varanda de uma casa vazia, ao lado de um posto de gasolina, no pequeno povoado de Dr. Edgardo Pereira Velho e depois em Bojuru, numa pousada mais barata que camping. A noite no posto foi tranquila, interrompida apenas pelos garotos que se divertiam indo e voltando em motos completamente depenadas e cheias de barro. Na verdade o errado era eu, que às 6h estava dormindo e à 00:30 estava pronto para pedalar novamente. Me forcei a dormir mais. Na Pousada Lucas, o dono me joga a chave do andar de cima. Meu quarto é de porta pra rua “pra tu guardar tua moto”. Lavo toda a roupa suja na pia e faço um varal. O chuveiro é uma ratoeira,  o disjuntor fica no box e os fios cheios de emendas. Ventilador não funciona,  seria bom pra secar as roupas. A roupa de cama cheira a mofo. Cozinhei dentro do quarto mesmo, onde também dei uma geral na “moto”. É engraçado como algumas pessoas não entendem que aquela coisa cheia de equipamento é uma bicicleta. Mesmo me vendo pedalar, me mover lentamente e em silêncio.

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Parque eólico de Osório – RS.

Na saída de Osório passei por um enorme parque eólico, que é muito interessante de ver naquela enorme planície. Eu poderia passar horas vendo as hélices girar se não estivesse tão frio naquela manhã. Nesses dias eu usava a roupa de chuva (polaina, calça e jaqueta), que cortava o vento e não me deixava molhar… de chuva. Por baixo eu suava e quando parava para descansar um pouco o corpo esfriava rapidamente, uma lição que levei para o resto da viagem: se a chuva não está realmente forte a ponto de esfriar o corpo em movimento, o melhor é só vestir o abrigo de chuva na hora de parar.

A estrada nessa estreita faixa de terra corta muitas plantações enormes e alguns pequenos sítios. O terreno é sempre plano. As chuvas já estavam fora do comum para a época há algum tempo e tudo no entorno estava meio alagado, exceto a estrada que foi construída um pouco acima do nível geral. O problema é que muitas das entradas dos sítios estavam alagadas e ouvi alguns locais reclamando que pediram melhorias e elevação em seus acessos durante a reforma da estrada, mas não foram ouvidos.

Vi muitos animais atropelados: passarinhos, cobras, gambás, furões e cachorros do mato (ou raposa?). Cheguei a tirar uma tartaruga (jabuti, cágado?) do meio da pista, o bicho estava encolhido no casco. Depois ainda tentou voltar pra estrada e eu o mudei de direção outra vez, espero que ele tenha seguido em outro e que eu não tenha atrapalhado um pobre suicida. As aves são as que menos morrem. Enxames de passarinhos pretos e bem pequenos atravessam a estrada com destreza de um arrozal a outro. Garças e outras grandes aves se mantêm a uma distância segura. Um gavião levanta vôo à minha frente e sobrevoa os dois lados da estrada,  é atacado por um Quero Quero e muda de direção. Pequeno e corajoso. As vítimas mais comuns são pequenos roedores que eu via na estrada e que fugiam para o mato conforme eu me aproximava, acho que eram Tuco-tucos. Aparentemente sobem ao asfalto por ser o lugar mais seco e quente da região. Pela manhã foi que eu vi mais carcaças recém atropeladas. O sol começa a aparecer e o asfalto seca primeiro e a carnificina acontece. A verdade é que todo carro corre demais nessas retas longas e planas. Felizmente eu estava bem visível e não me lembro de ter tomado nenhuma fina ou passado por situação de risco nesse trecho.

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Achei que o Afrojapa tava pedalando na minha frente.

Não tenho certeza de como era o bioma original dessa região, mas hoje para além das plantações e pastos só vi eucaliptos e pinus, plantados de forma cartesiana para futura extração de madeira ou simplesmente para proteger as casas e animais do vento. Sim, nessa região eu já encarava um pouco mais de vento. Conforme me aproximava de São José do Norte o vento me segurava e me cansava mais. Estava incomodado de não conseguir passar dos 20km/h no plano… não sabia o que me esperava.

Cruzei a balsa para Rio Grande atacado pelo mesmo vento frio e sem o sol pra amenizar. Na cidade, enquanto me comunicava com o Mateus (o único contato do Warmshowers que deu certo na viagem – valeu Mateus!), almocei num restaurante vegetariano e vegano que também serve frango e peixe. Confuso. Parei numa bicicletaria e comprei mais uma corrente. Eu agora estava com 3 correntes para revezar. A da Shimano que eu tinha usado na bicicleta por uns 900km antes da viagem já dava sinais de desgaste precoce.

Quando eu já seguia pra casa do Mateus, a uns 20km da cidade, na Praia do Cassino, parei para conferir o mapa. Nesse momento fui emparelhado por um maluco numa mobilete vendendo salada de fruta. Ele perguntou da viagem e já foi me passando dois copos enormes da mercadoria, me ocupando as duas mãos. Fez questão que eu aceitasse pois ficou muito empolgado com a viagem e porque eu ia precisar das vitaminas! Não tinha como levar a salada de fruta nos alforges, tive que traçar tudo ali mesmo e fui arrotando até a praia, cada hora um sabor diferente.

Lá no Cassino fui até a praia pegar o por do sol e fazer umas fotos enquanto esperava o Mateus chegar do trabalho. A luz estava ótima, muito bonito. Batia um vento cada vez mais frio conforme o sol se escondia. Um cara com uma filhinha no carro parou pra conversar da viagem e pediu desculpas pela sujeira da praia. De fato, tinha muito detrito espalhado, pois é uma praia de céu aberto e o mar devolve muito do lixo ali. Suspeito que grande parte vem dos navios que entram e saem do porto de Rio Grande. A praia é enorme e se eu quisesse poderia ter pedalado direto por ela até a fronteira com o Uruguai. Mas isso envolveria outro planejamento, que eu não tinha feito, e me tiraria do caminho a Reserva do Taim. Deixei pra outra vez.

Chegando à Reserva Ecológica do Taim

Chegando à Reserva Ecológica do Taim

Fui muito bem recebido pelo Mateus que me deu umas dicas da estrada até o Chuí, além de me ceder o banheiro, a cozinha e uma cama. Valeu! Dormi como uma criança e no outro dia saí cedo com uma névoa forte, que baixava a visibilidade. Parei em Quinta para tomar um café e esperar o tempo melhorar. Um pouco adiante entrei na BR 471 e comecei a encarar longas retas cortando infinitas plantações, provavelmente de soja. Comboios de enormes máquinas agrícolas, mais largas que a faixa, cruzavam a rodovia. Um avião vermelho sobrevoava as plantações, despejando um não sei o que, que em algum momento vai parar na mesa de quem for comer aquele grão ou de quem for comer o animal que for alimentado com aquele grão. Considerando a proximidade com a Estação Ecológica do Taim e de enormes alagados da região que são fundamentais para o ecossistema, só me restou torcer para não ser nada tóxico para a fauna silvestre.

Almocei num posto de gasolina antes do Taim e conversei um pouco com uns caminhoneiros que estavam descansando por ali. Segui adiante e quando entrei na reserva fiquei espantado com a quantidade de aves diversas espalhadas por longas planícies alagadas. Muitas, de vários tamanhos e cores. Sei que por ali também tem muitos jacarés, tartarugas, cachorros-do-mato e inúmeras outras espécies que não vi. O que vi foram muitas capivaras, sendo que parei de contar depois da trigésima carcaça atropelada que encontrei. A rodovia passa alguns metros acima do nível do alagado, mas é uma enorme reta frequentada por muitos caminhões, que só respeitam o limite de velocidade em cima dos poucos radares que estão instalados ali. Reduzem, passam e aceleram novamente, eventualmente atropelando um “pequeno” animal aqui e ali. Dentro de uma unidade de conservação ambiental. Certamente existe uma pressão grande para fazerem rápido o trabalho, as commodities não podem atrasar, o capital não para de se acumular, mas há um grau forte de descaso individual ali no caso também.

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Reserva Ecológica do Taim.

Já fora da reserva eu pedalava lentamente, o vento aumentava e a paisagem se tornou repetitiva. Se não era plantação de arroz ou soja, eram as casas dos funcionários dessas enormes empresas agrícolas. Sem nenhuma personalidade, as casas são todas iguais, construídas em série, pintadas com a mesma tinta, simetricamente organizadas em vilas sem graça. Eu seguia cansado, em êxtase pela beleza do Taim, triste pelos animais atropelados, entediado pelo agronegócio, e nessa confusão de emoções cheguei ao único posto em muitos km. Parei na lanchonete, tomei um café e consegui autorização para acampar sob uma marquise por ali, “onde o pessoal fica”. É um ponto onde muitos viajantes pernoitam. Rolou até um banho quente no banheiro dos funcionários do posto. Enquanto eu cozinhava parou um carro e o motorista desceu para conversar. Ele gosta de bicicleta, ficou empolgado com a história da viagem e me deu um boné, que usei por um bom tempo até perder pro vento da Patagônia. Valeu Brizola!

Pela manhã, chovia. Sob a marquise, guardei a barraca quase seca e saí na chuva mesmo, não dava pinta que ia parar tão cedo. Não bastasse toda a água que vinha de cima, também tinha que aguentar os sprays de água suja que vinha das rodas dos caminhões. Totalmente coberto pela roupa impermeável, eu só tinha que manter a boca fechada. O cenário continuava o mesmo, até onde era visível, e pra terminar de estragar o dia o vento foi aumentando e o acostamento ficando cada vez pior. A chuva parou, mas o céu seguia muito carregado e o resto continuou igual. Era possível ver ao longe uma divisão brusca no céu, o céu azul bem longe, imagino que já no Uruguai. Quando pedalava os últimos km no Brasil, me deparei com a placa do KM 666 e o tempo estava aberto sobre mim. Na minha mente soaram as guitarras dobradas do Iron Maiden!

Dali pro Chuí foi um pulo. Cheguei já no anoitecer e ainda tive as manhas de entrar na polícia federal com a carteira de trabalho na mão, eu esqueci o passaporte! Ainda bem que estava no Mercosul e tinha levado o RG hahaha. Na cidade-fronteira entrei num hotelzinho fuleiro no lado uruguaio, precisava de um bom descanso depois de um dia muito duro, o último em solo brasileiro.

 

 

Clique na imagem abaixo para ver a galeria completa de fotos desse trecho:

 

06/09 – Osório – Dr. Edgardo Pereira Velho: 117 km
07/09 – Dr. Edgardo Pereira Velho – Bojuru: 145 km
08/09 – Bojuru – Rio Grande – Praia do Cassino: 109 km
09/09 – Praia do Cassino – Posto depois do Taim: 136 km
10/09 – Posto – Chuy: 127 km
Total até esse ponto: +/- 1134 km

Custos totais no Rio Grande do Sul: +/- R$ 350,00

Clique aqui para ver o mapa até este ponto (aproximado, puxado da memória 6 meses depois).

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