A Partida: de Santa Catarina ao Rio Grande do Sul

01/09/2015 a 05/09/2015 – De Piçarras (SC) a Osório (RS), cerca de 500km.

 

Odômetro zerado.

Quando chegou a noite da partida eu estava relativamente tranquilo. Embora soubesse que tudo possa sempre dar errado, nenhuma preocupação específica ocupava minha mente – com excessão do peso exagerado no bagageiro traseiro. Me despedi da Lena – não foi fácil mas ainda não era a despedida mais dificil, nos programamos para passar um tempo juntos em Buenos Aires dali a 20 dias. Arrastei os mais de 50kg de equipamento escada abaixo e comecei a esperada viagem.

Saí pedalando em direção à rodoviária acompanhado pelo meu camarada Afrojapa, um cara muito importante na idéia e planejamento dessa viagem, que foi me dar uma força pra por a bicicleta no ônibus rumo a Piçarras – SC. Meu bagageiro traseiro balançava com todo o peso que eu nunca tinha carregado até aquela tarde, quando fui com a Lena até uma farmácia pesar o equipamento. Foi bom ter optado por uma relação de marchas bastante leve, pois eu logo percebi que com aquele balanço ali atrás não teria condições de pedalar de pé, a bicicleta pendulava demais.

Enquanto pedalávamos pelas ciclovias, inclusive em um trecho mais novo próximo à rodoviária, eu me perguntava se quando voltasse encontraria essa cidade talvez um pouquinho melhor. Talvez a melhoria das ciclovias se espalhasse melhor pelas periferias, talvez o trânsito se acalmasse um pouco com as velocidades reduzidas. Mas a relevância disso dificilmente se sustenta num quadro geral em que o mesmo prefeito insiste no aumento da tarifa do transporte publico, não se liberta das máfias correlatas e sem qualquer pudor insiste em repetir o filme de 2013.

Chegamos à rodoviária e eu ainda tive a manha de por a bicicleta no bagageiro do ônibus errado. Por pouco a viagem ia começar de Blumenau! Tudo bem, não é tão longe. No ônibus certo, me despedi do meu amigo e embarquei. Durante a viagem tentei dormir o máximo possível, pois desembarcaria cedo em Piçarras e no mesmo instante começava o meu pedal. Me aprontei sob olhares curiosos das poucas criaturas que passavam pela pequena rodoviária às 8h da manhã. Dia ensolarado, parti para a praia e dali rumo ao sul (na mente tocava o tema dessa viagem), seguindo sempre o mais próximo da costa que pude. Eu estava ainda me acostumando e me atrapalhando com a bicicleta totalmente carregada, mas mesmo assim era muito bom saber que finalmente tinha começado a viagem. Parei numa padaria e tomei um café com uns biscoitos. Um pouco mais adiante entrei numa praia e levei a bicicleta até umas pedras que formavam uma espécie de píer natural, como se eu entrasse agora no Atlântico para iniciar minha navegação.

Piçarras – SC

Pedalei pelas ruas de Penha, Navegantes, pela balsa para Itajaí e na hora do almoço já estava na praia de Balneário Camboriú. Achei meio brega. Muitos prédios, muitos carros de luxo, mesmo fora de época. Conversei com a Lena um pouco e ela me convenceu a ir provar o restaurante Harmonia da Terra, um vegetariano da cidade. Cheguei relativamente cedo e entrei logo que abriu. De cara já ganhei um descontinho por estar viajando de bicicleta. O restaurante é gostoso, mas como a maioria dos vegetarianos do Brasil tem um longo caminho para se livrar da carne de soja (pts, ou pvt).

Saí da cidade entrando pela primeira vez na BR 101 – Sul e sendo logo recebido por um vento forte (para os padrões que eu conhecia) na subida da pequena serra que leva a Itapema. Eu estava fora de forma e apanhei um pouquinho. De Itapema saí da 101 rumo a Bombinhas.

Na minha mente esse primeiro dia de viagem terminaria numa tarde ensolarada á beira do mar paradisíaco. Na prática, depois de subir uma ladeira inclinada, apertada, quase sem acostamento e com muito trânsito, cheguei a uma cidade virada de cabeça pra baixo, totalmente em reforma, empoeirada e com um vento constante anunciando a chuva forte que estava pra cair. Fui ao primeiro camping da minha lista. Embora estivesse vazio, fui recusado porque não fiz reserva. Rodei um pouco sem rumo, achei que não daria tempo de chegar ao camping na outra praia antes da tempestade cair. Fui ao corpo de bombeiros mas ainda não tinha a menor cara de pau de pedir abrigo e só pedi informação. Desconcertado pelo choque de uma realidade que não tinha nada a ver com os meus sonhos de viagem, já incomodado com a chuva que começava a molhar, entrei num hotel e negociei um preço mais baixo, afinal estava fora de época e a cidade em obras espantava os poucos turistas. E assim acabou aquela terça feira, dia 1 de setembro de 2015: longe dos planos, dos sonhos e do orçamento.

O dia seguinte foi de chuva fina, mas não atrapalhou. Na verdade refrescou e eu seguia forte e sem me cansar muito. A chuva tinha também ajudado a limpar o acostamento dos restos de pneus, que com suas estruturas de arame expostas são os maiores inimigos dos pneus de bicicleta.

No trecho mais bonito do dia, quando a BR 101 reencontra o mar, ouvi um ruído que não conseguia identificar. A bicicleta descia suavemente, eu testava os freios, os câmbios e tudo parecia normal. Desviei de um “olho de gato” da estrada e senti toda a bagagem traseira (2 alforges, barraca e mochila com equipamento de camping) pendulando muito à minha direita. O bagageiro traseiro quebrou próximo ao parafuso que o junta ao quadro, bem no segundo dia de viagem. Ficar nervoso ou irritado não resolveria. Antes que qualquer frustração pudesse entrar na minha cabeça, tirei o kit gambiarra dos alforges e prendi o lado direito do bagageiro ao quadro com abraçadeiras hellerman, vulgo “enforca gato”. Embora pareça frágil, essa abraçadeira aguenta o tranco.

Eu estava nas proximidades de Biguaçu e o contato que conhece bicicleta mais próximo que eu tinha era o Fabio Almeida, de Florianópolis. Enquanto esperava ele responder minha mensagem dei uma rodada pela cidade procurando uma bicicletaria ou um soldador. Achei a bicicletaria, mas não tinham máquina de solda e nem um bagageiro melhor. Nesse meio tempo o Fabio me botou em contato com o Tuquinha, de Biguaçu, que veio ao meu encontro e me levou até a oficina Rudiger. O tempo que ali passei conversando com o pessoal da oficina sobre viagens, de bicicleta e de moto, foi tranquilo e divertido. O João Luiz fez a solda e um reforço e não quis cobrar nada: “-Tá na garantia.”

A verdade é que esse bagageiro foi feito por um soldador sob minha encomenda, mas com um erro de projeto: alto demais, ele pendula e força as extremidades. Por outro lado, acertei em usar aço. Com o peso que eu levei qualquer bagageiro de alumínio acabaria quebrando uma hora ou outra e seria muito complicado soldar. Apesar do contratempo saí dali fortalecido por ter conseguido resolver o primeiro desafio da viagem e feliz por ter sido tão prontamente ajudado.

Às 16h já estava na estrada e em pouco tempo entrei na Grande Florianópolis. O trânsito aumentou demais, o acostamento da BR 101 acabou e a luz do dia já anunciava o fim. Eu não chegaria ao Morro dos Cavalos com luz suficiente pra dividir uma subida sem acostamento com os caminhões da BR. Eu já estava longe da entrada de Florianópolis para aceitar a oferta de abrigo na casa do Fabio. Entrei em Palhoça e procurei um camping, perguntei, mas ninguém conhecia. Parei numa pracinha pra comer e um cara que tem um grupo de mountain bike, veio conversar. Como não rolou nenhuma abertura pra pedir um abrigo, acabei ficando num hotelzinho por ali mesmo, estourando mais uma vez meu orçamento diário.

Às 5:30h da manhã eu já estava na estrada, uma das poucas vezes que usei meu farol durante a viagem, pedalando no escuro para chegar no Morro dos Cavalos à primeira luz e com o mínimo de trânsito. A subida não é longa mas era a mais forte daquele momento da viagem. Acostamento não existe ali e eu tinha que ficar bem visível pros caminhões. Eu estava sentindo o peso da bicicleta e a minha falta de preparo físico. Estava tão lento que, assim que acabou o muro de concreto que segura o barranco ao lado, resolvi empurrar a bicicleta pelo mato da beira da estrada e evitar conflitos com os motoristas. A descida foi intensa e lá em baixo, sobre uma ponte, parei para comer alguma coisa, observar e fazer umas fotos das aves costeiras que se agitavam no amanhecer.

Do outro lado do Morro dos Cavalos

Com a chuva fina que ia e vinha, abri mão das praias e apertei nos pedais até Imbituba, onde visitei o pequeno Museu da Baleia, que documenta um pouco da história de caça e preservação da Baleia Franca Austral, visitante anual da costa sul do Brasil. Estava na temporada, mas a praia certa pra ver os bichos já tinha ficado para trás. Fiquei um pouco frustrado, mas sabia que o mesmo tipo de baleia poderia ser visto em outros pontos da viagem, então não me preocupei tanto.

Toquei para Laguna, dei uma volta pelo centro histórico, que é bem bonito, e como ainda estava cedo resolvi continuar. Optei por não voltar para a BR-101, peguei a balsa da Barra e entrei na surpreendente SC-100, com sua enorme e perfeita ciclovia, rumo ao Farol de Santa Marta. Esse trecho é muito bonito, com dunas, sambaquis, praias desertas e muitas aves. O longo e irritante trecho de paralelepipedo até a vila do farol foi compensado pela boa vista do alto do camping, e pelo passeio em torno do farol, guiado pelos mesmos vira-latas que me deram o 5º corre do dia quando eu cheguei de bicicleta. Apesar do camping estar meio largado (era o começo de setembro, totalmente fora da temporada), dormi aliviado por ter conseguido me manter dentro do orçamento e por ter feito 150km no dia, minha maior distância diária até então.

Amigos feitos pelo caminho.

À noite choveu, a barraca aguentou bem. Fiquei um pouco mais aliviado quanto a isso, já que choveu nos últimos dias e parecia que ia continuar assim (ia mesmo). Estava com muita dor no corpo todo: músculos e tendões das pernas, costas, bunda, pescoço, etc. Ressaca da longa pedalada do dia anterior. Saí da vila, fui mais uma vez perseguido pelos cães e continuei pela ciclovia da SC-100. Tem alguns sinais que existem sambaquis por ali, que na verdade são alguns dos maiores sítios arqueológicos desse tipo no mundo. No entanto, muito pouca informação a respeito está disponível na para quem circula na estrada. Quem chega ali sem saber o que é um sambaqui, vai embora na mesma ignorância.

Quando voltei para a BR 101 passei por algumas enormes plantações, acho que eram de arroz ou soja (que aos poucos foram dominando a paisagem até que eu chegasse à fronteira com o Uruguai). A dor foi passando à medida que eu pedalava mais e cheguei forte até Ararangua. Por ali tentei a tática de pedir água e na sequência pedir pra acampar no terreno de algumas chácaras e casas com grandes quintais à beira da estrada. Sem muito sucesso, acabei acampado atrás de um posto de gasolina, num pequeno palco de madeira, que já viu dias melhores mas tinha uma cobertura que me pouparia de guardar a barraca molhada pelo 2º dia seguido.

Durante o dia vi vários cachorros atropelados, e algumas carniças que eu nem podia afirmar que foram de cães mesmo. Também vi muitos vivos, saindo de portões ou simplesmente perambulando pelas estradas à beira da morte. A verdade é que existem dois tipos de cachorro na beira da BR, os que já foram atropelados e os que ainda serão. Responsabilidade dos donos que deixam seus animais na rua, não os castram, não se importam. Mas acho que também, de forma menos direta, é uma responsabilidade coletiva da humanidade, que domesticou e reproduziu canídeos e os usou indiscriminadamente até o ponto em que chegamos, mas ainda reluta em dar um tratamento ético e responsável a esses animais.

Saí bem cedo do acampamento urbano em Sanga da Toca II (Ararangua) e já estava convicto que seria essa minha rotina na viagem. Nada melhor que conseguir começar a pedalar com a primeira luz da manhã, com a tranquilidade de ter tempo para tirar fotos e eventualmente resolver problemas. Cruzei a fronteira de SC com o RS, parei num posto de gasolina para tomar aquele refrigerante maldito e dei umas risadas sozinho quando vi, colado no espelho, o aviso para não descartar a erva do chimarrão na pia do banheiro. Entendi aquilo como um “Bem vindo ao RS!”. Mais adiante dei de cara com um enorme túnel que eu não sabia que existia. O céu estava ridiculamente escuro, ia cair uma tempestade. Conforme me aproximava do túnel, já depois do Bo Didley e do Bob Dylan, acabou o Bob Marley e entrou o Bolt Thrower no meu mp3 player. Apropriado. A equipe que trabalha no túnel me pediu para esperar pois iam me fazer uma escolta de carro por segurança. Cheguei a achar que iam me barrar, fiquei aliviado.

Bem vindo ao Rio Grande do Sul!

Do outro lado, toda aquela chuva já estava caindo e parei em mais um posto para tomar um café e tentar contato com um cara do Warmshowers.org de Osório. Fui interrogado (de onde, pra onde, quantos km por dia, onde dorme, não tem medo, etc.) por motoqueiros que viajavam em grupo nas suas enormes maquinas. Alguns com interesse genuíno, outros me pareceram meio incomodados, talvez porque achassem que eu estragava a aventura deles. Nunca comparei as coisas, sempre minimizei quando me parabenizavam com euforia, pois sei que não sou o primeiro, não serei o último a fazer essa viagem. Ao contrário do que deve pensar a maioria das pessoas que vai ler isso aqui ou que nunca tentou esse tipo de viagem, não sou atleta, não sou herói e não tenho nenhuma habilidade especial (a não ser talvez uma certa tolerância a alguns desconfortos). Embora alguns perrengues tenham feito parte da viagem, não foram nada que a maioria das pessoas não superaria. Estou me antecipando, mais sobre isso quando for a hora.

Fiz a última pernada até Osório sob um céu carregado e ainda com chuvas ocasionais. Na cidade tentei mais uma vez os contatos do Warmshowers, mas o único que respondeu, embora já tivesse concordado uma semana atrás com a minha estadia, estava fora da cidade na data marcada. Não dei sorte com o Warmshowers. Tentei usar nesse começo da viagem e só deu certo uma vez, além de outra ajuda que precisei já no último mês, mas ainda vou chegar lá. Nenhum contato uruguaio respondeu, os primeiros brasileiros sumiram na hora h, acabei esquecendo da idéia no resto da viagem. Mas ainda acho muito interessante e sei que é muito usado por outras bandas.

Por uns 5 minutos pensei que teria que seguir pedalando mais um pouco embaixo de chuva pra tentar acampar fora da cidade, quando me lembrei dos bombeiros. Durante as pesquisas para essa viagem eu descobri que muita gente que viaja de bicicleta (mas também a pé, de moto ou mesmo a cavalo) pede abrigo no corpo de bombeiros em diversas cidades da América Latina. Eu ainda não tinha tentado (em Bombinhas eu ainda não tinha a menor desenvoltura), chegou a hora. Fui bem recebido pelo pessoal do plantão, ganhei uma salinha de aula que não seria usada no fim de semana e por ali espalhei meu equipamento, roupas para secar, saco de dormir, etc. Também pude usar a cozinha, tomar um banho e ainda degustei um chimarrão assistindo um jogo do Internacional (enquanto a metade gremista tirava um sarro da derrota). Embora os bombeiros sejam uma corporação militar – ligada à lamentável policia militar – o ambiente era leve, não se entrava em delírios autoritários em relação a Direitos Humanos e ainda surgiu uma discussão sobre o absurdo que foi uma repressão da PM a uma manifestação dos professores e outros funcionários do governo estadual do RS que estavam sem receber salários há algum tempo.

Assim foram os meus primeiros 5 dias: saí de Piçarras e cruzei a fronteira de estados entre SC-RS. Das sonhadas praias de Santa Catarina eu vi muito pouco, a chuva não deu trégua e o pedal dominou os meus dias. O lado bom é que fui forçado a realizar o preparo físico que me faltava, de certa forma eu sabia que isso aconteceria durante a viagem e não antes dela. Na semana seguinte eu já estaria pedalando muito melhor. Mesmo sem aproveitar as praias, fico feliz de ter pedalado pelo litoral de Santa Catarina, a vista da estrada foi linda de qualquer maneira e eu me sentia apontado para o Sul, um objetivo ao mesmo tempo claro e muito distante.

Clique na imagem abaixo para ver a galeria completa de fotos desse trecho:

Clique na imagem para ver a galeria completa de fotos desse trecho.

 

Nesses primeiros 5 dias de viagem foram cerca de 500km rodados. No começo eu estava anotando tudo em um papel que acabei perdendo. Do Rio Grande do Sul em diante tenho anotações mais detalhadas.

Clique aqui para ver o mapa do trecho (aproximado, puxado da memória 6 meses depois).

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