Violência no trânsito: O que a Tarifa Zero tem a ver com isso?

Na segunda-feira dia 27 de outubro, um ciclista foi atropelado, em São Paulo na esquina da Av. Paulista com a Av. Brigadeiro Luís Antônio. Ele foi socorrido mas morreu na mesma tarde. Não é a primeira vez que vejo uma notícia dessa em algum dos grandes portais de notícias e, como geralmente gasta-se mais linhas escrevendo sobre o impacto do atropelamento no trânsito da cidade do que sobre os envolvidos – ou o absurdo de isso acontecer com tanta frequência na cidade – eu sempre fico apreensivo. Sou amigo de alguns e conheço outros tantos ciclistas que trabalham ou circulam por essa região no dia a dia. Um dos meus grandes amigos e companheiro de viagens de bicicleta é bike courrier na região, assim como Marlon, o rapaz que faleceu dessa vez. Felizmente em pouco tempo eu consegui confirmar que não foi meu amigo. Infelizmente o amigo de muitas outras pessoas morreu.

Nos comentários dos portais de notícias, esse lugar de liberdade de expressão para idiotas, bem como em alguns comentários das redes sociais e até de alguns fóruns voltados para a bicicleta, imperou a falta de sensibilidade. Montados da probabilidade de Marlon ter infringido uma lei do trânsito se colocando em situação fatal, muitas pessoas emitiram opiniões cruéis e levianas. É como se, veladamente, o ciclista que erra merecesse a morte. Como se nenhum motorizado furasse faróis ou fizesse curvas bruscas sem dar seta, ultrapassagens arriscadas, etc. E olha que o ciclista na esmagadora maioria das vezes não coloca em risco a vida de ninguém além de si mesmo, ao contrário das caixas metálicas que se engavetam pela cidade.

O motorista do ônibus por sua vez, ao que indicam alguns relatos, não errou. Ainda que seja inocente, vai passar o resto da vida com essa lembrança pesando em sua mente: “eu matei alguém”. Muitos dos motoristas de ônibus, e de carros também, têm evoluído na atitude em relação ao ciclista. As ações educativas têm nos dado algum resultado e visibilidade. Infelizmente muitos outros ainda dirigem de forma agressiva e sem a mínima disposição de compartilhar as ruas.

As raízes da agressividade do motorista de carro particular eu não vou discutir nesse texto. Mas é preciso reconhecer que o motorista de ônibus, no atual sistema de organização do transporte coletivo na maioria das cidades do Brasil, vive sob intensa pressão de horários e metas a serem cumpridas – como se já não bastasse o trânsito tenso, o barulho e a fumaça dos motores, e a superlotação de passageiros que já entram irritados nos coletivos. Cito apenas com alguns exemplos que consigo imaginar, na prática a coisa deve ser ainda pior. É mais um trabalhador explorado, trabalhando sob condições insalubres para o lucro dos cartéis controlados por reduzidos grupos de empresários.

Não quero com isso relativizar a culpa dos motoristas que colocam em risco a vida de ciclistas, pedestres, motoqueiros e outros motoristas no trânsito. Mas se queremos buscar soluções para um problema, é preciso compreendê-lo. Exigir fiscalização e punição apenas, não basta. Mesmo porque, sabemos que no Brasil a mão da lei só alcança os mais pobres.

Considerando que todos estamos sujeitos a erros, à falta de atenção ou mesmo à tentação de cometer imprudências – embora algumas pessoas mais que outras – precisamos passar a pensar que medidas podem ser tomadas para, de forma eficiente, reduzir a pressão, a tensão, o estresse e as vítimas, letais ou não, da nossa circulação pela cidade.  Essas medidas devem influenciar a todos, não importa o modal escolhido. É preciso entender que, ao contrário do que o individualismo da sociedade do automóvel (e do capitalismo em si) nos faz crer, o trânsito não são os outros, não sem mim. Também não é uma somatória de indivíduos em bolhas herméticas de metal, por mais que pareça. O trânsito é um fluxo de pessoas que se influenciam, que se irritam umas às outras o tempo todo – com alguns lapsos de gentileza.

A meu ver, existem saídas para esse nó em que nos deixamos amarrar pela indústria automobilística. Existe a real possibilidade de se evitar que os erros sejam fatais, pra quem quer que seja.  A possibilidade de aqueles que compartilham o trânsito possam evitar que o erro de outra pessoa coloque em risco a vida de qualquer transeunte, em qualquer modal. De que o motorista consiga frear a tempo de não atropelar o ciclista, mesmo que o erro seja de quem mais sofreu com o choque. De que o motorista consiga evitar a colisão com um pedestre que atravessa a rua desatento, ou que o ciclista consiga sair pedalando quando abre o sinal sem que os motorizados de rápida aceleração o engulam de forma agressiva. É preciso reduzir a velocidade máxima em toda a cidade.

Se é para falar em números concretos eu diria que a velocidade máxima nas avenidas, deveria ser de 40km/h. Nas ruas de bairros, 25km/h, ou menos. Nas rodovias eu nem imagino. A redução da velocidade em toda a cidade é urgente para que o trânsito pare de matar mais que uma guerra. Nem sequer estou levando em conta as mortes e doenças da poluição gerada pelos motores.

Para muitos essa redução de velocidade vai soar ridícula, impraticável. Alegarão que vai piorar ainda mais os congestionamentos urbanos. Mas se a média já é tão ridiculamente baixa em horários de pico, em que isso muda? Ora, muitos motoristas, entre um sinal vermelho e o próximo aceleram seus carros ao extremo, mesmo sabendo que vão parar novamente ali na frente. Muitos outros saem das avenidas para as ruas menores sem a preocupação de reduzir a velocidade ou sem dar seta. Da forma que as coisas funcionam atualmente, todos estão em risco, mas ninguém chega mais rápido a lugar algum.

Muita gente vai se lembrar das faixas exclusivas de ônibus que vêm sendo instaladas na cidade de São Paulo, fazendo com que as velocidades dos ônibus aumentem. Um avanço para o usuário do transporte coletivo, sem dúvida. Mas o risco para o ciclista e também para muitos pedestres continua, em grande parte pela pressão imposta através de tabelas de horários aos motoristas de ônibus.

Uma questão acredito que seja unânime: O usuário de transporte coletivo deve ser priorizado. Então como impor limites de velocidade aos ônibus? Ora, quem pega ônibus diariamente em São Paulo conhece a rotina. Os ônibus demoram, chegam aos pontos superlotados. Muitas vezes correm e dão freadas bruscas, como se carregassem sacos de batatas. É verdade que os ônibus chegam mais rápido do que quando dividiam as pistas com todos os carros, mas o custo do estresse e da superlotação permanece, assim como o alto risco de colisões e atropelamentos – independente de quem seja o culpado.

Os únicos interessados na manutenção das coisas como estão são aqueles que lucram com as empresas de ônibus urbanos. Disponibilizam o menor número de ônibus possível (que agora pode ser menor ainda já que circulam mais rápido em faixas exclusivas) ganhando o máximo, já que recebem por passageiro que amontoam no mesmo ônibus e não pela quantidade de ônibus circulando para servir a população com qualidade.

A proposta da Tarifa Zero, que inverte essa lógica do atual modelo de transporte público, é peça chave para a civilização do nosso trânsito caótico. Assim, o controle do sistema estará muito mais próximo dos usuários, que terão voz ativa no em seu gerenciamento. O controle público trará um sistema público de fato, onde mais ônibus atenderão as linhas, independente da lucratividade de determinada linha. Assim, os ônibus passarão com mais frequência, evitando a superlotação e agilizando o tempo de deslocamento das pessoas ao lazer, ao trabalho, ao uso dos demais serviços públicos, etc. – tudo isso sem que tenham que circular em alta velocidade.

Um serviço eficiente que reduzirá a tensão entre passageiros, que refletirá na melhora das condições de trabalho do motorista de ônibus, que por sua vez reduzirá sua agressividade no volante. Com um sistema de transporte público eficiente cada vez mais gente deixará o carro em casa, reduzindo a pressão nas artérias da cidade. Menos carros, menos tensão na locomoção diária. Por outro lado, num sistema voltado para a eficiência do serviço e não para a lucratividade da linha, ninguém passará muito tempo esperando no ponto e portanto não será necessário o motorista correr para chegar rápido ao ponto final. As linhas terão horários previsíveis.

Assim, em conjunto com a proposta da Tarifa Zero, a redução geral da velocidade nas ruas e avenidas das cidades não trará grande impacto na pontualidade das pessoas, embora faça toda a diferença em sua qualidade de locomoção – seja ela feita por ônibus, carro, moto, skate, bicicleta, etc. Talvez, em um trânsito mais humanizado, o motorista pudesse ter salvo a vida de Marlon, que certamente não merecia morrer por um erro.

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3 pensamentos sobre “Violência no trânsito: O que a Tarifa Zero tem a ver com isso?

  1. Ruivo, sua lucidez eu já conhecia (aliás, sempre) mas me surpreendeu a clareza dos seus pensamentos colocados na forma escrita. Modelos computacionais, já existentes, podem ser utilizados para quantificar esta relação ônibus/usuários/tempo de viagem/velocidade mínima e máxima necessária à fluidez do tráfego em geral. Independentemente de Tarifa Zero. Basta uma sociedade organizada de forma que políticos não dependam do dinheiro das empresas e empresários para se financiarem, a educação seja realmente uma prioridade e não apenas um discurso eleitoreiro, e a Ética, palavra esquecida desde os tempos que a ditadura substituiu-a e à sua irmã Filosofia pela “moral e cívica” -hoje nem isso existe mais- torne a ser uma prioridade necessária aos governantes brasileiros. Os fins não justificarão nunca os meios, coisa que temos visto muito nos últimos anos no Brasil. Não importa se fulano ou beltrano não enriqueceu com as maracutaias, todas em nome de um suposto bem estar geral a ser alcançado.

    Mas, saindo do desvio e retornando à avenida: não vejo empecilho para que o Tarifa Zero se torne mais um programa social, substituindo o vale transporte. Mas, de novo, serão necessários muitos modelos computacionais para quantificar o tamanho da conta, pois alguém tem que pagá-la. E nem pensar em estatizar o transporte público. Empresas estatais serão sempre ineficientes, suscetíveis à ingerência política e corrupção. Sempre foi assim. Mas mesmo sem TZ, apenas concessões públicas bem fiscalizadas, auditadas e contratos bem formalizados já melhorariam muito as coisas. Mas aqui retornamos ao primeiro parágrafo…

    Não sei como são os ônibus em São Paulo, mas ouso dizer que os futuros ônibus deveriam ser todos movidos, em um primeiro momento, a álcool (já que pensar em algo mais limpo, como eletricidade, nesse momento é impossível) e posteriormente evoluir até para energia solar e baterias pois já existe tecnologia para isso. Aí sim teríamos cidades menos barulhentas, fedorentas, estressantes etc… Só a mudança dos motores de diesel para álcool já faria uma enorme diferença.

    Obrigado por me permitir refletir nesta questão após ler seu texto tão lúcido e bem escrito.

    Abraços, Izo

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