Mão Na Roda

Para montar a caixa de direção no quadro da Hardrock seria necessária uma ferramenta bem específica que, além de cara, é grande e raramente utilizada. A solução convencional seria levar em uma oficina especializada, pagar pelo serviço e não aprender como se faz. A outra possibilidade seria improvisar com uns pedaços de madeira e um martelo, porque os copos do rolamento da caixa de direção entram no quado sob pressão – o risco é de a peça entrar meio torta ou mesmo ser danificada. Sou inexperiente nisso e não quis arriscar, resolvi passar no Mão Na Roda.

Mão Na Roda é um projeto da Ciclocidade Trata-se de uma oficina colaborativa, onde você encontra uma série de ferramentas e suportes para manutenção, além de voluntários que ajudam, tiram dúvidas e te ensinam a resolver problemas em sua bicicleta. Mas não se trata de um serviço comercial, você não paga nada e ninguém vai fazer tudo pra você. Para aprender e consertar seus problemas mecânicos, cada um vai ter que sujar a mão e apanhar um pouco das ferramentas.

Eu já conheço o projeto  que ocorre às quintas na Vila Madalena, há um bom tempo. Existe ainda uma segunda oficina do projeto, no Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha. Por sorte, recentemente fui beneficiado pela abertura, às terças e domingos, de uma terceira oficina – no CCSP da Rua Vergueiro. Exatamente no meu caminho de traslado diário para casa – agora contemplado por uma ciclofaixa. Tenho passado quase toda terça por lá, onde ajusto uma ou outra peça da minha bicicleta de uso diário – uma Peugeot Mixte antiga, que montei com peças novas faz um tempo. Na época, aliás, montei em uma oficina convencional e perdi a chance de aprender muita coisa. Fosse hoje, a montaria eu mesmo ali no Mão Na Roda. Na primeira vez que fui à oficina da Vergueiro aprendi a trocar alguns raios e a alinhar a minha roda. É uma técnica difícil de dominar, mas pelo menos já sei me virar em caso de emergência. O alinhador dessa oficina não é o mais preciso do mundo, mas dá um bom resultado.

Passei por lá mais uma vez na última terça, pra saber sobre como instalar a caixa de direção. Descobri que para isso precisaria da única ferramenta que falta na oficina da Vergueiro. Precisei então me organizar para ir à oficina da Vila Madalena para resolver essa questão. Precisaria levar quadro, garfo, mesa e caixa de direção. Não queria levar isso de metrô, porque é um saco levar objetos grandes no metrô cheio e ainda teria que andar um tanto carregando a tralha da estação até lá. Resolvi que iria de bicicleta, levando tudo num dos alforges que comprei para viajar – gentilmente contrabandeados para o Brasil pelos amigos do Conquest For Death, quando vieram tocar aqui no primeiro semestre desse ano.

Na noite anterior, enquanto pensava em como carregar tudo na bicicleta, vi que mais dois raios estavam quebrados na roda traseira da Peugeot. Na intenção de saber me virar em emergências, com um pouco da técnica que aprendi no Mão na Roda, resolvi trocar outros 2 raios quebrados na quarta à noite, lá em casa mesmo, com a roda instalada na bike e usando a pastilha de freio como referência para o alinhamento. Virei a bicicleta de cabeça pra baixo, soltei a corrente para dar espaço e ângulo para os raios passarem, afrouxei outros raios que estavam no caminho para poder posicionar todos os novos no padrão de entrelaçamento em que a roda está montada e, finalmente, consegui fazer a troca. O alinhamento é um trabalho de muita precisão mas não foi muito difícil (por pura sorte). Não está perfeito, mas tive um resultado bem próximo ao que teria no alinhador da oficina da Vergueiro.

Trocados os raios, usei uns panos para proteger o fundo do alforge contra as pontas do quadro da Hardrock, adicionei o garfo e as demais peças, bem como outras tralhas que eu precisaria usar durante o dia. Amarrei tudo e parti na quinta de manhã, pela ciclofaixa da Vergueiro até a Praça João Mendes, onde tranquei minha bicicleta e o quadro juntos, no meu poste/paraciclo favorito. Horas depois saí do trabalho, refiz todo o pacote e parti rumo à Vila Madalena, bem lentamente. No caminho, próximo à Prefeitura, passei por um protesto dos moradores da Favela do Moinho. Movimentos pela moradia, política de mobilidade urbana, ciclofaixas e outros tópicos em evidência na louca São Paulo eu talvez aborde em outro texto. Talvez.

Na Vila Madalena fui bem recebido por voluntários que já conhecia da oficina da Vergueiro e também por novas faces. Fiz uns ajustes na Peugeot, observei outras regulagens e manutenções em processo, e também instalei a caixa de direção e o garfo com sucesso. Agora faltam alguns espaçadores para a espiga do garfo e uma mesa que caiba no guidão que comprei.

Na saída mais uma vez posicionei o quadro no alforge, agora com o garfo e a caixa de direção instalados e dificultando o equilíbrio. Amarrei umas sacolas plasticas nas extremidades pra dar um pouco mais de visibilidade, acendi a luz traseira e prometi pro pessoal que não correria muito. Não tinha como mesmo. Lentamente pedalei de volta para casa e cheguei são e salvo. Talvez pela atenção que a cena estranha chamava para mim, os motoristas foram mais respeitosos do que de costume, provavelmente por medo de ter a pintura arranhada ou o espelho quebrado caso esbarrassem naquela armação metálica que eu carregava.

Seguem abaixo algumas fotos que tirei desse processo. O celular, o flash e a preguiça de editar não ajudaram, mas fica o registro.

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2 pensamentos sobre “Mão Na Roda

  1. Pingback: Mão Na Roda ensinando novamente. | Going Southbound

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