Montando a bicicleta.

Algum tempo se passou desde a última publicação nesse blog. Pode parecer que está meio abandonada, mas a idéia continua viva em minha mente. Em nenhum momento desisti, venho pesquisando bastante sobre a bicicleta que em que quero viajar, com os limites do que eu po$$o pagar. Após muita pesquisa pela rede mundial, conversas com amigos, publicações no fórum do Pedal.com.br e na lista de discussão do Clube de Cicloturismo, comprei boa parte das peças que pretendo usar e decidi que é hora de começar a montar a bicicleta.

Não fiz um curso de mecânica e – embora a bicicleta seja um sistema mecânico muito simples para o resultado que proporciona – tem uma série de detalhes que eu não conheço bem. Para uma viagem nas proporções que pretendo fazer, o ideal é conhecer ao máximo o meu Iron Horse. Se não para me virar totalmente sozinho, pelo menos para saber lidar com lojas e oficinas pelo caminho. Meu objetivo é conhecer cada peça da bicicleta e por isso quero tentar montá-la eu mesmo.

Como eu imagino essa bicicleta?

Eu estou acostumado a pedalar com guidão drop, aquele das bicicletas de estrada ou “de corrida”. Basta dar uma olhada nas fotos da viagem do ano passado, procurar pela minha bicicleta, e estará entendido. Porque eu não vou com aquela bicicleta mesmo? Porque ela é uma bicicleta excelente, mas não para uma viagem tão longa. Resumindo, ela tem uma mecânica complexa e de difícil manutenção em beira de estrada, sem uma oficina com ferramentas e mão de obra mais especializada. Muito provavelmente eu também não encontraria peças de reposição: roda 700cc (pneus, câmaras, raios), garfo de carbono (muito difícil reparar em caso de quebra) e câmbio STI (mecânica complicada para mim).

Por outro lado, mesmo mantendo o guidão drop para ter uma variedade de pegadas, inclusive as mais agressivas, acho que poderia levantar um pouco mais a postura. A idéia é chegar a algo nos moldes das bicicletas feitas especificamente para longas distâncias com carga pesada, que estão começando a aparecer no Brasil nos últimos anos, mas já ha muito tempo são conhecidas lá fora como Touring. O grande exemplo é a Surly Long Haul Trucker. A minha Tricross não tem espaço para essa elevação da postura, porque não cabem mais espaçadores no garfo e a mesa já está positiva. Também não dá pra trocar só o garfo para subir a postura, precisaria de um garfo muito específico para ter compatibilidade com o quadro.

Embora a Surly LHT seja uma excelente opção, ela não está disponível no Brasil. Importar uma sairia muito caro e eu não aprenderia muito sobre mecânica. Então, com esse conceito, passei a comprar peças e idealizar a minha bicicleta. Comentarei abaixo a lista do que comprei até agora, que já é quase tudo. Boa parte veio num kit de um vendedor daquele famoso site brasileiro de leilões/pequenos vendedores varejistas. Por conta do pacote, nem tudo era exatamente o que eu queria, mas o preço compensou e algumas peças que sobraram eu guardei para outros projetos ou posso até revender pra pagar mais um dia na estrada.

Tenho algumas ferramentas e vou comprar outras conforme a necessidade. Tenho também um suporte de manutenção de fabricação nacional, que não é excelente mas funciona muito bem para o meu uso doméstico. Pretendo montar a bicicleta eu mesmo, pelo menos a maior parte. Talvez eu precise levar depois para algum mecânico profissional revisar, mas espero aprender um pouco nesse processo e registrar tudo por aqui, veremos.


1) Quadro Specialized Hardrock e garfo Surly LHT em CroMoly.

O quadro e o garfo, em conjunto, são a alma da bicicleta. O material de que são feitos, bem como sua geometria, são determinantes na relação desempenho x conforto que a bicicleta proporcionará.  Embora o alumínio e o carbono dominem o mercado de bicicletas de melhor qualidade nas últimas décadas, em minhas pesquisas percebi que muitas das pessoas que viajam de bicicleta  usam quadros de aço, mais especificamente a liga de cromo-molibidênio (ou CroMoly). Isso porque é um aço mais leve que o aço carbono em geral, e que ganha em relação ao alumínio e o carbono pelo fato de, em caso de quebra, poder ser soldado em qualquer lugar do mundo para seguir viagem. Ao contrário do alumínio, que exige uma tecnologia de solda um pouco mais avançada. O carbono eu nem vou comentar. Existem outros parâmetros na comparação entre os materiais, como discussões sobre o peso, a absorção de choque e amortecimento de impactos menores sem uma suspensão de fato. Para quem tiver mais interesse nisso, há muita informação e discussão disponível na internet.

O quadro eu achei naquele mesmo site de leilões, com outro vendedor. Um Specialized Hardrock em CroMoly, com o tubo da caixa de direção na medida over (1 1/8″), comprado junto com a mesa e um outro garfo de cromoly, mas com rosca. Esse quadro, como muitos dos quadros de mountain bike dos anos 80 e 90, além de ser do material escolhido tem furação para bagageiros, furos para suportes de garrafas em 2 posições e suportes para freios v-break. Esteticamente é uma cor que me agrada, com um grafismo e nome com os quais me identifico e, apesar do ótimo estado de conservação, está com uma cara de usado que é perfeita para não chamar muito a atenção.

Na lista do Clube de Cicloturismo aprendi que poderia ser arriscado montar uma mesa que não tem rosca em cima da rosca do garfo. Parti então em busca de um outro garfo em CroMoly, sem rosca, que acabei comprando do Artur Vieira, que também já viajou pela Patagônia. Para mim é o garfo perfeito, pois é exatamente de uma Surly Long Haul Trucker – essa foi sorte e camaradagem!

2) Caixa de direção: Cane Creek 1 1/8″ 40 series, 34mm, sem rosca.
Não tem muito o que comentar aqui. Uma marca boa, a peça na medida do garfo e do quadro, dificilmente dará problema.

3) Guidão Ritchey Classic drop
Esse eu comprei do mesmo camarada que vendeu o garfo. Em alumínio, perfeito estado. A postura eu já comentei acima e a medida, embora eu não me lembre qual é exatamente, me parece perfeita: ele se encaixa na parte externa de meus ombros. Não sei se é a melhor forma de definir isso, mas é uma forma popular e eu acho que vai funcionar. Depois de montar a bicicleta e pedalar alguns km eu já vou saber e (espero que não) eventualmente trocar.

4) Mesa Tioga aheadset
Não sei o modelo exato, nem a medida. Essa veio junto com o quadro, então vou montar com ela mesmo e ver no que dá. Se não der uma postura adequada, troco por uma mais curta ou mais longa, conforme o caso.

5) Freios: Shimano LX BR-7660 v-break
O v-break não é hoje o que há de mais avançado, a maioria das bicicletas novas e de melhor qualidade vêm de fábrica com um freio a disco mecânico ou hidráulico. Mas um bom v-break tem perfeita capacidade de frenagem, pode ser reparado e tem peças disponíveis no mundo inteiro, mesmo nas menores cidades e lojas. É um tipo de manutenção que eu me sinto seguro para fazer sozinho, ao contrário da sangria de um freio hidráulico, por exemplo.

6) Alavancas de freios: Tektro RL520
Como já comentei, quero usar o guidão drop, de forma que as manetes comuns de freio v-break não se encaixam bem no guidão. Por outro lado, a maioria das manetes de freio para guidão drop não acionam v-break com eficiência (funcionam bem com freios tipo ferradura ou cantilever). Com excessão de alguns modelos, como esse específico da Tektro que escolhi, a maioria não serve para o guidão drop e para freios v-break ao mesmo tempo. Essa e a próxima peça foram compradas no exterior e trazidas por um amigo, já que são raros no mercado nacional.

7) Passadores: Shimano Dura Ace SL BS77
Eu poderia tentar usar alavancas rapid fire para passar as marchas, mas acho a alavanca de marcha por fricção, como as das bicicletas de estrada mais antigas, mais simples e mais fáceis de cuidar para o meu uso. Por outro lado, inspirado na já comentada Surly e com uma boa pesquisa nos sites gringos, consegui um bom preço nessas alavancas de triathlon que vão na ponta do guidão, “bar end shifters”. Tive o cuidado de escolher um modelo que serve para cassete de 9v e pedivela triplo. Em outras palavras, “27 marchas”.

8) Câmbio dianteiro: Shimano Deore FD-M591-6 e Câmbio traseiro: Shimano Deore RD-M592 SGS
Os dois câmbios vieram com o grupo comprado, fazem parte de um conjunto confiável, robusto e eficiente. Nem topo de linha e fundo do poço, exatamente o que preciso para viajar.

9) Corrente: Shimano CN-HG53, Cassete Shimano Deore CS-HG61 11-34 e Pedivela Shimano FC M521 octalink/hollowtec 44x32x22
A relação de marchas está boa, considerando que em uma viagem com carga pesada é mais interessante ter uma relação leve para subir ou encarar um forte vento contra.

10) Movimento central: Shimano BB-ES25 – 68 x 126
Não é um movimento central integrado ao pedivela, como os top de linha hoje em dia, pois esses são mais eficientes para performance, mas se desgastam com mas facilidade e não tem como trocar só o movimento central se necessário. Por outro lado é selado, para minimizar entrada de água e sujeira que ocasionariam mau funcionamento.

11) Aros Alex Rims DM-18 36f (para roda 26)
A escolha da roda 26 foi pela facilidade de encontrar peças de reposição, pois é o padrão mais difundido no mundo todo. É praticamente um consenso entre os que viajam para lugares remotos. Aros de marca boa são caros e difíceis de importar. Eu ia pela marca nacional mais comum, mas recebi essa recomendação e achei por um bom preço numa loja de São Paulo. 36 furos para montar com 36 raios e ter rodas mais fortes para carregar peso. Ainda faltam os cubos, raios, pneus e câmaras para completar as rodas.

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4 pensamentos sobre “Montando a bicicleta.

  1. Pingback: Confie em seu mecânico. | Going Southbound

  2. Pingback: Mão Na Roda | Going Southbound

    • Pois é, não sei de quando é. Comprei apenas o quadro de um cara que já tinha comprado de outro cara e desistido de continuar a montar. Vou ter que medir e correr atrás, mas pelo achômetro é uma dessas medidas mesmo. Sabe de alguma loja, aqui em São Paulo, que possa ter essas medidas menos usuais atualmente?

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