Monte Roraima – Viagem ao submundo da fronteira, 11/03/2014.

De volta a Santa Elena de Uairén, desembarcamos todos na frente da agência Backpackers, de  onde tínhamos partido 8 dias antes. Tiramos algumas fotos, nos despedimos de todos e refletíamos ainda surpreso com toda aquela experiência. Nós andamos muito, acho que foi a trilha de maior extensão que todos já tínhamos feito. A Lena ainda aproveitou para tomar um banho num dos quartos do Hostel Backpackers, onde os colegas de viagem ficariam naquela noite. A julgar pelos comentários do pessoal, venderam banho quente mas não entregaram, das dezenas de tomadas poucas funcionavam, as camas são desconfortáveis e os quartos quentes. O preço era 1/3 do que pagamos em nosso hotel dias antes (com wifi, piscina que nem usamos, banho quente e ar condicionado nos quartos), mas a economia era de menos de 20 reais para quartos de 2 pessoas, só vale a pena para quem está na pindaíba total.

Já se aproximava o fim da tarde quando nos demos conta que, além do fato de que a Polícia Federal da fronteira fechar à 18:00h do Brasil, existia a diferença de 30 minutos do fuso horário da Venezuela, ou seja 17:30 era o nosso limite para cruzar a fronteira carimbando os passaportes naquele dia. Saímos em busca de um táxi compartilhado direto para Boa Vista, igual àquele que nos trouxe de Boa Vista até a fronteira. Sabíamos que alguns deles entram na Venezuela até Santa Elena para trazer e buscar passageiros. Tínhamos uma vaga referência de que os táxis saíam de um Hotel Gregório, mais ou menos numa certa direção, e saímos à procura. No caminho, preocupados com o atraso, já  pensávamos em pegar um táxi venezuelano direto até a fronteira, para atravessar a pé mesmo. Acabamos encontrando o lugar, na Av. Mariscal Sucre, uma das maiores da cidade.

O preço da corrida foi o esperado, R$35,00 por pessoa. O taxista ainda me esperou trocar a última bolada de bolivares fuertes por R$50,00 na casa de câmbio vizinha: uma sala escura e sem janela, onde 2 brasileiros discutiam de forma meio tensa. Perguntei a taxa e era maior do que tínhamos pago, ou seja, a inflação venezuelana nos trouxe um certo lucro. Troquei o dinheiro e me mandei o mais rápido possível, o clima do lugar não era muito animador. De volta ao táxi, ainda esperávamos os demais passageiros que o motorista conseguiu se agruparem por ali.

O bagageiro já estava cheio com malas e algumas compras que o pessoal parecia ter feito na cidade. Pareciam ser utilidades domésticas e presentes para a família. Além do motorista, no banco da frente da Meriva sentou-se um homem com a mão enfaixada, no do meio sentamos eu, a Lena e uma mulher, no de trás o marido dessa senhora junto com toda a bagagem.

Do passageiro à frente não me lembro o nome, os demais eram marido e mulher, chamam-se Zé e Maria. Não me importo em citar seus nomes pois são bem comuns e ninguém se sentiria ofendido ou exposto. Maria levava em seu colo um filhote de cachorro da raça Collie (ou similar), um presente para suas filhas. Os três pareciam estar há um bom tempo em território venezuelano, e um tanto apreensivos quanto à passagem pela fronteira. Ela em especial estava “-Com medo que eles tire ela de mim, os soldado“.

Não pareciam turistas comuns, mas ainda não tínhamos entendido muito bem qual era a situação do trio. Pela conversa – e eles eram bem falantes e simpáticos – entendemos que não tinham entrado carimbando o passaporte como nós, mas com o “permisso” do Mercosul: uma autorização do governo venezuelano, válida por um tempo determinado adquirida apenas com o R.G. brasileiro. Aqueles cujo permisso estivesse vencido deveriam deixá-lo com os guardas, os demais poderiam ir e vir. Foi o que entendemos. Sabíamos também que, embora a família estivesse em Boa Vista, eles não moravam lá mas num lugar “-lá no meio do mato, bem mais tranquilo que aquela loucura que é São Paulo, que eu sei que vejo no programa daquele homi que fala engraçado, que só dá puliça e bandido lá”, segundo Maria.

Aos poucos, em meio à acelerada fala de todos, compreendemos que estavam ali para trabalhar – ao contrário de nós, os turistas. Quando a conversa rumou nessa direção, perguntaram a nossa profissão. A Lena é fotógrafa e eu sou escrevente no Tribunal de Justiça de São Paulo. Em primeiro lugar Zé me perguntou se eu era puliça. Não, não sou e passo longe disso. Expliquei um pouco melhor e ele se conformou. Como eu carregava uma câmera e a Lena é fotógrafa, ele logo entregou o ouro, quase literalmente.“-Se um fotógrafo com umas câmera boa igual essa sua assim for lá no matão que nóis mora lá e fizer umas foto do garimpo, sai exposição premiada em qualquer galeria lá das capital”.

Logo chegou a fronteira, o taxista parou e os guardas venezuelanos abordaram a todos. Não se preocuparam com o cachorro, mas foram bem incisivos quanto à documentação dos 3, fizeram muitas perguntas e revistaram o carro detalhadamente. Com relação a mim, perguntaram muito sobre as tatuagens e se eu e a Lena estávamos voltando do Monte Roraima, num tom muito mais amigável. Subimos ao escritório da fronteira e carimbamos nossa saída da Venezuela. Voltamos para o carro e todos estavam liberados sem maiores percalços, dessa vez.

Segundo Zé, “-Todo mundo sabe que tem o garimpo lá dentro da Venezuela. O governo sabe, nóis sabe, os soldado sabe e o governo do Brasil sabe que nóis trabalha lá também. Na época do Simão Bolívar (ele quis dizer Hugo Chávez) era mais fácil, mas ainda dá pra nóis entrar pra dentro do mato com nosso carrinho véio e nossa bomba e achar uns veio antigo lá que ainda tem muito ouro.” Durante a travessia das poucas centenas de metros até a Polícia Federal do Brasil, onde nós carimbamos nossa volta, soubemos que esses soldados da Venezuela (não vimos nenhum do Brasil) pegam pesado com eles e sempre querem uma desculpa para arrancar um trocado.

Já no lado brasileiro o táxi parou na rodoviária de Pacaraima, apenas para que o colega da frente fosse ao banheiro e pudesse comer um salgado antes de seguir viagem. Nesse meio tempo um homem muito bêbado fingia lutar contra outro um pouco menos bêbado – ambos em uma situação bem degradante – enquanto outras tantas pessoas empunhavam seus celulares para filmá-los. Na espera, dentro do carro, Maria e Zé nos contavam sobre sua família. Se minha memória não me trai, eram duas meninas e um rapaz. As duas garotas os esperavam em Boa Vista. O rapaz, há cerca de 1 ano atrás, foi com eles para o garimpo na Venezuela e passou cerca de 60 dias por lá. De volta a Boa Vista, com o primeiro dinheiro que ganhou comprou uma moto. Em poucos dias se envolveu num acidente e morreu. Emocionada, Maria contava a história e se lamentava, arrependida do dia em que levou o filho mais velho ao garimpo. Nós, emocionados e constrangidos, não sabíamos o que dizer além dos pêsames de praxe.

O marido de uma filha do casal também foi levado ao garimpo clandestino, durou 15 dias e nunca mais voltou. Não aguentou de saudade nem a pressão do trabalho duríssimo. Com um carro velho puxando uma bomba hidráulica por trilhas pouco batidas em meio à mata, sob sol e sob chuva, distante das cidades mais próximas, os garimpeiros ficam isolados. O som da mata quando a bomba é desligada é o único companheiro: O barulho da água, o silêncio letal das cobras que aparecem, em seus barracos e até dentro das máquinas, ou mesmo o rugir do “tigre” (Maria queria dizer onça) que comeu sua cadela – a mãe do filhote que vinha no carro. Ainda assim, preferem viver entre cobras e tigres do que na metrópole. “-Vocês são doido de voltar lá pra São Paulo. Aquela multidão, alagamento, engarrafamento, violência… eu prefiro ficar quieto enfiado lá no mato”.

Zé, quando bateu a saudade não agiu como o cunhado, mas aproveitou do outro tipo de companhia que orbita os garimpos, clandestinos ou não: os bordéis e suas trabalhadoras. Quem nos contou foi Maria, a quem Zé chama de Rainha, que afirma que vai até hoje para o garimpo mais para vigiar o marido do que para ganhar dinheiro.

Eles mesmos declaram: garimpeiro ganha muito dinheiro e logo torra tudo. Por isso volta para o mato, sempre mal acostumado a ter muito dinheiro vivo, ouro ou diamantes, não guarda-se nada. Maria ainda se lembra de quando começou a trabalhar no garimpo: Zé lhe dava pequenas pedrinhas bonitas para guardar, afirmava que valiam muito dinheiro, mas Maria não dava bola e perdia ou jogava fora mesmo todos os diamantes que ganhou. Apesar disso, mesmo estando há cerca de 30 anos no garimpo, Zé e Maria nunca compraram casa própria.

Ambos são de origem maranhense, como a imensa maioria dos garimpeiros do norte da amazônia, segundo o próprio Zé. Sem educação formal (nem o ensino fundamental completo), já trabalhou em garimpo legal e ilegal no estado do Amazonas, em Roraima e mesmo na Guiana. Ele afirma que onde tem ouro ou diamante ou qualquer mineral precioso, o garimpo devia ser legalizado e regulamentado, como é feito na Guiana. Acredita que o ouro está lá porque Deus o deixou para os homens, que esse negócio de reserva ambiental e indígena só atrasa o Brasil.

Zé afirma que na Guiana o governo regulamenta o garimpo, financia o maquinário e permite o desvio de trechos dos rios para os garimpeiros trabalharem, preservando o restante. Ele gostaria que assim fosse no Brasil. Não conheço nada sobre garimpo, não sei o quanto isso pode ser verdadeiro lá – mas duvido que seja uma solução aqui. Ao mesmo tempo Zé tem em na ponta da língua uma verdade clara: muito mais que esse garimpo clandestino, feito por pequenos grupos enfiados floresta adentro, a devastação começa com o madeireiro seguida de incêndios, pastos para o gado de algum figurão político e então alguma monocultura do agronegócio.

“-Vocês subiro lá no Roraima? Lá em cima? Vai muito turista lá né.” Falamos um pouco sobre nossa viagem, sobre como é a chegada ao Monte Roraima e lá em cima. Perguntaram se é bonito lá em cima, já meio que afirmando. Ficaram surpresos quando dissemos que é muito frio. Quando mencionamos o Vale dos Cristais, logo Maria perguntou se tinha mesmo cristal lá. Aparentemente cristal é indicador de diamante (não sei se é verdade). Zé afirmou que com certeza tem muito diamante no Monte Roraima, e pra ele tem que liberar o garimpo lá também. Embora o acesso seja difícil e haja fiscalização do ICMBio e da Inparques, Zé disse que tem gente que se aventura no garimpo por lá. Já tínhamos ouvido isso dos fiscais brasileiros e também do nosso guia, Gabriel. Nas baixas temporadas, com menos movimento, garimpeiros se aventuram por trilhas pouco exploradas em busca da rápida e fugaz riqueza.

Durante as cerca de 2h de viagem até Boa Vista, sempre que passava uma moto ou sempre que se falava em família, Maria se lamentava da morte recente de seu filho. Lembro-me de pelo menos 3 ou 4 vezes. Mas estavam animados para reencontrar as filhas, embora preocupados de deixá-las sozinhas por tanto tempo. Não me lembro qual dos dois contou, mas não tiveram nenhuma vergonha de dizer que quando descobriram que uma delas recebeu um namorado em casa enquanto eles estavam fora, perguntaram diretamente se teve relação sexual. A filha confirmou e no dia seguinte Zé recebeu o jovem em casa, informando que ele teria que cuidar da filha dali em diante, comunicando o mesmo à família do rapaz, que prontamente aceitou o encargo. “-Ela já foi furada, agora ele cuida. Eu não sou bobo de esperar pra criar filho de outro homem na minha casa, que vai sobrar pra mim cuidar.”

Dentro de Boa Vista o taxista foi nos mostrando a cidade no caminho até o aeroporto. Os garimpeiros, embora tenham sua base estabelecida ali há alguns anos, conhecem muito pouco da cidade. Analfabeto, Zé afirmou que para se orientar para em cada esquina e decora a aparência dos prédios, os estabelecimentos comerciais, etc. Mesmo assim, não reconheciam o parque principal da cidade ou as grandes avenidas – nem tampouco tinham visitado o aeroporto até então. Nos despedimos, pagamos o taxista e fomos nos sentar para esperar algumas horas até o nosso voo da madrugada de volta a São Paulo com conexão em Manaus.

Para nós, os incautos turistas, o tapa da realidade da fronteira foi intenso e só agora, algumas semanas após o fim dos relatos da trilha, fui capaz de processar e escrever isso aqui. Você pode ter assistido o Globo Reporter, alguns documentários e livros sobre o garimpo, a zona de fronteira, a amazônia ou qualquer tema relacionado a esse Brasil profundo, mas nada se compara à narrativa em primeira pessoa daqueles que são ao mesmo tempo vítimas e agentes de um processo (des)civilizatório cruel e autofágico.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s