Monte Roraima – partes VIII e IX: De volta ao Rio Tek e a Santa Elena, 10 e 11/03/2014.

Parte VIII: De volta ao Rio Tek, 10/03/2014.

Acordamos cedo e já avisados por Gabriel desde a noite passada, estávamos preparados para um rápido café da manhã seguido de uma forte caminhada. Nesse sétimo dia de caminhada desceríamos tudo aquilo que demoramos dois dias para subir. Ao fim da tarde estaríamos de volta ao Rio Tek.

Primeira etapa: Acampamento base.

Aquecemos durante a caminhada pelo topo, aproveitando os últimos passos sobre o Monte Roraima. Não demorou até que começasse a descida de fato. Conhecíamos o caminho, mas se engana quem pensa que é fácil descer. É preciso muita atenção e firmeza nos passos. Logo no começo da descida já passamos pelo Paso de Las Lágrimas, muito mais tranquilo e seco do que quando subimos por aqui dias antes. Vencido esse obstáculo sem grandes traumas, a mente ficou muito mais leve para aproveitar o resto do caminho.

Passo a passo, pulo a pulo, poco a poco, víamos a aproximação do Acampamento Base. Era o primeiro objetivo do dia, onde almoçaríamos. Chegamos cansados mas bem, ainda era cedo e pudemos mais uma vez observar o impressionante paredão. A parada durou não mais que 1h e o almoço foi rápido e leve, apenas uma salada com pão e frutas. Não havia tempo para cozinhar, tínhamos que continuar a descer – todos sonhando com uma coca-cola.

Segunda etapa: Rumo ao Rio Tek.

Do Acampamento Base para frente a trilha é de caminhada, com algumas pedras soltas, mas nada comparado à íngreme descida do paredão. Voltávamos paulatinamente à Gran Sabana, agora acompanhados de alguns helicópteros que iam e vinham com mais frequência que o normal: era a ação de limpeza pela qual fecharam a montanha por alguns dias. Quando, cada um a seu ritmo, chegamos ao Rio Kukenam, já encontramos as primeiras pessoas que participavam da operação.

Nossa vontade era de chegar ao Rio Kukenam e já tomar um banho, pois o tempo estava fechando e corríamos o risco de tomar uma chuva no caminho antes de chegar ao Rio Tek. Não deu, Gabriel nos apressava silenciosamente. Dessa vez não foi preciso molhar os pés na travessia, os dois rios estavam bem baixos.

Chegamos ao Rio Tek e o acampamento estava movimentado, cheio de gente que participaria da limpeza. Muitos deles voluntários, que aproveitam para limpar e conhecer a região. Junto conosco chegou a chuva que, sob os toldos de palha, esperávamos passar para poder montar as barracas. Sem paciência para ficar ali no aperto, e já que estava mesmo molhado, fui direto para o rio tomar banho e lavar umas roupas. Quando voltei as barracas já estavam sendo montadas e o pessoal ainda se preparava para tomar banho.

A chuva foi intensa também para o alto dos tepuis, que agora ostentavam diversas cachoeiras que antes não estavam lá. No Kukenam, a torrente era enorme, a maior cachoeira que já vi em minha vida. Minutos antes ela não estava lá, era como se tivesse sido desenhada no cenário. Extremo, agressivo, surreal. Queria muito poder ter visto e ouvido aquilo mais de perto, ainda assim foi uma ótima despedida.

Picante de Termitas.

Ao cair da noite jantamos um farto macarrão, que era tudo o que havia sobrado.

Aqui,  faço um flashback direto ao primeiro dia de caminhada: após chegarmos ao Rio Tek naquele dia, já no cair da noite fui com o nosso amigo fã de Violator buscar água em um ponto mais alto do Rio. Na trilha encontramos um buraco com alguns cupins alaranjados entrando e saindo. Empolgado, nosso amigo pegou alguns e não pensou muito, devorou-os vivos. Os cupins são uma iguaria na culinária indígena da região, assim como as tanajuras – o mesmo aliás, se dá em outras regiões do Brasil. Ele me explicou que esses cupins são muito apreciados em um molho de pimentas que é feito em uma base de mandioca: o último caldo que sai na prensa da raiz, cozido por muitas horas.

Pois bem, voltando ao macarrão, estávamos lá apreciando aquela delícia da culinária de acampamento, relembrando momentos da caminhada, trocando contatos e, todos menos eu, tomando uma cerveja horrorosa e quente. Lembrei então que no dia em que estávamos no Acampamento Base, ainda na subida, vi um pote daquela pimenta na mão de um dos carregadores. Levantei a bola e logo apareceu a pimenta. Peguei um pedaço de pimenta e misturei no macarrão para sentir o calor: era forte, mas saborosa. O pote passava de mão em mão, todos um pouco desconfiados/chocados/enojados dos vários cupins que compunham a iguaria.

Não lembro bem se foi a Lena ou se fui eu quem arriscou a primeira, mas nós dois comemos um ou dois cupins cada um. É crocante e tem o gosto da pimenta, não consegui diferenciar um gosto próprio do inseto. Sempre fui curioso com a experiência do que é comer esse tipo de bicho, exótico para os ocidentais: seja o cupim na América do Sul, seja o escorpião na China.  Essa foi uma pequena brecha na minha alimentação vegan de muitos anos. Na hora pensei um pouco, fiquei em dúvida, mas pensei também em quantos mosquitos e baratas mato em casa ao longo dos anos, resolvi provar. Não pensaria o mesmo se fosse um animal com um sistema nervoso mais complexo, como um cobra por exemplo. Sigo firme em minha convicção, não pretendo repetir a experiência, mas não me arrependo de ter passado por ela. Fotos, infelizmente, ficarei devendo.

Após a refeição Gabriel conversou um pouco conosco, pediu críticas ou elogios e teve ambos. Conversamos um pouco mais e fomos dormir: a última noite na Gran Sabana.

 

Parte IX: De volta a Santa Elena de Uairén, 11/03/2014.

Nesse dia não foi preciso acordar tão cedo. Preguiçosamente arrumamos nossas coisas e tomamos o último café da manhã com a vista dos tepuis. Havia sol e calor, com algumas poucas nuvens. Eu e a Lena partimos na frente, pois nosso passo é mais lento que os demais e tínhamos a preocupação de não atrasar a chegada a Paratepui e consequentemente a Santa Elena e, por fim, Boa Vista. Nosso voo só partiria na madrugada do dia 12, mas precisávamos passar a fronteira no dia 11/03 antes das 18:00h do Brasil, já que os escritórios da burocracia fecham nesse horário.

A caminhada não é particularmente difícil, embora o começo e o fim sejam compostos de uma série de subidas e descidas. De vez em quando parávamos e olhávamos para trás, ainda impressionado com os tepuis e com as experiências dos últimos dias. O sol castigava e foi preciso cuidado na proteção. Animado com o desempenho das meias de caminhada que eu havia comprado para a viagem (zero bolhas em toda a caminhada até aquele momento), relaxei e não puxei com firmeza as tiras da sandália, deixando meu pé meio solto. Não deu outra, ao fim da manhã, já próximos de Paratepui, sentia as bolhas pipocando e a pele esfolada. Nada grave para um último dia.

Em Paratepui nosso sonho de tomar uma coca-cola caiu por terra: absolutamente tudo estava fechado. Nem água conseguimos para beber. Um leniente guarda parques revistou algumas de nossas bolsas na rotina obrigatória de evitar que turistas saiam com cristais ou plantas dali, prática predatória e proibida. Enquanto esperávamos os carros da agência para nos levar de volta para Santa Elena, tentamos tomar um banho no chuveiro da estrutura do Parque Canaima, mas estava sem água também. Consegui tomar um banho muitos sofrido com um fio de água que ainda restava no cano.

Os carros chegaram, mas ainda esperamos um pouco até que resolvessem aquela história da autorização, multa, etc. Eu nem quis saber os detalhes, o problema foi da agência e para nós não sobrou nada. Os motoristas que vieram dessa vez eram uns caras bem babacas e grosseiros, mas tudo bem, era só a hora de ir embora. Finalmente saímos, com uma parada em San Francisco, uma vila indígena à beira do asfalto onde tem vários restaurantes turísticos e lojas de artesanato. Almoçamos todos juntos ali mesmo, regados a vários litros da sonhada coca. Nosso prato foi vegan, encomendado por Gabriel diretamente na cozinha – a essa altura ele já tinha compreendido a nossa alimentação. Demos uma olhada nos artesanatos e logo partimos para Santa Elena de Uairén. Na hora de entrar no carro o motorista idiota ainda fechou o banco de trás com tudo acertando o joelho machucado de nossa amiga de São José dos Campos, sem nem sequer um pedido de desculpas. Infelizmente não dá para recomendar essa agência Backpackers em nenhum sentido. Seguimos viagem e, enquanto ao longe mais uma chuva intensa se movia, desfrutávamos dos últimos flashes da paisagem da Gran Sabana.

 

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10 pensamentos sobre “Monte Roraima – partes VIII e IX: De volta ao Rio Tek e a Santa Elena, 10 e 11/03/2014.

  1. Grande Felipe, Não tinha lido seu blog ainda. Adorei, deu pra voltar no tempo e estar nesses lugares todos novamente. Parabéns pelas fotos e pelo texto. E quando aparecer no rio avise. Grande abraço. Leo

    • Fala Leo!

      Obrigado pela leitura e pelo comentário. Se perceber algo que minha memória tenha distorcido, dá um toque por favor. Tenho um monte de fotos das pessoas que ainda preciso separar e mandar para vocês. O Anderson ainda tem um track de GPS que eu vou postar em breve por aqui. Andamos pra cacete!
      Eu talvez fosse ao rio nesse feriado de 01 de maio, mas acho que não vai rolar. Fica pra próxima.
      Abraços.

      • Fique tranquilo porque para mim o texto está correto, sua mente funcionou bem. Você tomava nota ou foi tudo lembrança?

    • Lembrei de cabeça, a Lena anotou umas coisas de custos e o que comemos, o resto eu fui lembrando junto com ela. Mande as fotos quando puder, eu acho que consigo mandar agora no feriado.

  2. Felipe, não tenho seu email. Para não divulgar aqui, poderia me enviar um email que respondo com as fotos. Abs

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