Monte Roraima – parte VII: O último dia no topo, 09/03/2014.

Partimos cedo do Hotel Quati, com a sensação de que o lado brasileiro do Monte Roraima é o mais bonito até o momento. Sem ufanismos, já que não são Estado, língua ou bandeira que vão influenciar na geografia, fauna e flora nesse lugar. Pode também ser influência do nosso humor no dia, já que quando chegamos ao topo estávamos todos preocupados com a superlotação e a burocracia, ao contrário de quando chegamos ao já vazio Hotel Quati 2 dias antes.

Zona en Reclamación e El Foso.

Partimos cedo e rapidamente deixamos o território brasileiro e chegando ao primeiro ponto de interesse do dia: O Ponto Tríplice. Ali fica o marco de fronteira Brasil-Venezuela-Guiana. Dois passos para um lado ou para outro e você cruza a fronteira, podendo estar clandestinamente em território estrangeiro, já que não há aduanas ou polícia federal para carimbar seu passaporte por lá. Em cada lado uma placa do respectivo país, no da Guiana muitas pichações e uma placa derrubada ao chão: a Venezuela não reconhece aquela região como território da Guiana. Trata-se de Zona en Reclamación.

Seguimos adiante por mais uma hora mais ou menos até encontrarmos, dentro de uma enorme cratera, outra enorme cratera. Tão grande que parecia ter sido criada pela queda de um meteorito, ou algo similar. Ouvíamos o som ao longe e ao nos aproximarmos da beira do buracão pudemos ver a água escorrendo e acumulando-se no fundo. É uma piscina, mais uma vez de água transparente – apesar da lama sedimentada. A primeira coisa que vem à mente é: eu quero pular daqui de cima. A queda tem uns bons 8 ou 10 metros. Logo descobrimos que foi aqui que a brasileira resgatada de helicóptero 2 dias antes quebrou a perna. Em épocas de mais chuvas seria um salto simples, mas agora a profundidade estava duvidosa e difícil de calcular.

Alguns de nós ficaram descansando ali na beirada, outros seguimos por uma trilha que envolvia uma mini escalada para cima e depois bem para baixo, até acessar o nível da água e poder entrar na piscina que os primeiros observavam lá de cima. A água era deliciosamente gelada e a beleza da tênue luz do sol, que apenas começava a tocar a caverna naquela manhã, fez desse um dos pontos altos da caminhada.

Cabrititos.

Dali pra frente o ritmo foi bem puxado. Conforme Gabriel já havia avisado, precisávamos apertar o passo para cobrir uma longa distância antes do almoço e ainda ter tempo de visitar outros lugares ainda naquela tarde – a última sobre o Monte. Caminhamos bem apesar das dores em todos os músculos e articulações. Subimos e descemos diversos pequenos conjuntos de rochas, cortados por vales de pequenos riachos. Em fila, poco a poco, escalávamos e caminhávamos “como cabrititos”, dizia Gabriel.

O trajeto foi pesado e chegamos cansados ao Hotel Principal, já no lado da Venezuela. As barracas foram montadas num terreno meio irregular, mas era o que tinha pra hoje. Acabamos dormindo em outra barraca, que era do mesmo modelo mas estava toda furada por dentro. Peguei meu rolo de silvertape e remendei a barraca toda para não entrar umidade à noite (ou ao menos minimizar a situação), a agência que se vire depois.

Jacuzzis e Maverick

A cozinha e o bivaque da turma do guia estavam mais acima, uns 5m de uma leve escalada para chegar até eles. Almoçamos e descansamos um pouco. Logo saímos para explorar a região. O tempo estava nublado mas havia visibilidade… até o momento em que chegamos às Jacuzzis. Ali, naquelas maravilhosas piscinas translúcidas o sol se escondera completamente na névoa que ocupara todo o espaço. Nada se via para fora de um raio de 10 ou 20 metros. Ficamos mais de meia hora contemplando, conversando e tentando algumas fotos. Ninguém se arriscou na água.

Voltávamos meio insatisfeitos para o Hotel Principal, já que com aquele tempo fechado Gabriel insistia que não tínhamos mais o que fazer. Em todos os pontos de interesse veríamos apenas as nuvens: Maverick, La Ventana e um outro mirante virado para o Kukenam. Ainda assim o pessoal insistiu com o guia em subir o Maverick, que era próximo ao Hotel e marcaríamos pelo menos a presença no ponto mais alto do Monte Roraima, ainda que não pudéssemos ver nada. Foi o que fizemos, com a exceção da Lena, que era quem dessa vez estava gripada e febril. Ela voltou para a barraca e nós subimos em busca do ponto mais alto, que fica bem de frente para o Hotel.

A escalaminhada é íngreme e passa por uns trechos cheios de uma lama negra – onde o coreano acabou enfiando seu mocassim branco – mas é bem rápida. Em menos de 20 minutos estávamos todos no topo. Víamos nossas barracas ao longe, podíamos ouvir ruídos e vozes incompreensíveis vindos do acampamento. Lá de baixo a Lena também nos ouvia. As nuvens dominaram a paisagem por muito tempo e, quando já pensávamos em descer, lentamente começaram a se dissipar em alguns pontos. Dali conseguimos visualizar o Kukenam, boa parte do topo do Monte Roraima por onde caminhamos nos últimos dias, a Gran Sabana de onde viemos dias antes e uns pontinhos que correspondiam ao acampamento base. Descemos satisfeitos e com uma lição aprendida: no Monte Roraima, não acredite na previsão do tempo, insista e vá até os mirantes, nunca se sabe o quanto a visibilidade pode aumentar (ou diminuir).

Infelizmente era tarde demais para visitar os outros mirantes, não chegaríamos antes do anoitecer. Voltamos ao acampamento, onde jantamos sentados sobre a pedra no nível acima das barracas. Comemos observando o formato do Maverick recortado pelos últimos suspiros do sol, que já havia se escondido quase totalmente. Minutos antes de entrar na barraca ainda vi uma estrela cadente cortando os céus do equador. Não dá pra ficar muito melhor que isso.

we keep on climbing but we never find the top
it all downhill from here“.

 

 

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Um pensamento sobre “Monte Roraima – parte VII: O último dia no topo, 09/03/2014.

  1. Que incrível e que bom que insistiram no Maverick! Mocassim branco num lugar desses! Lembrei das coreanas passando maquiagem antes de encararem as trilhas no Seoraksan. hehehe

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