Monte Roraima – parte VI: O lado brasileiro, 08/03/2014.

New Day Rising.

A noite foi bem fria no Hotel Quati, mas o efeito dos remédios e o menor grau de umidade permitiram uma noite de sono um pouco melhor para mim. Foi só assim que consegui acordar às 4:30h para seguir rumo a outro ponto à beira do precipício, cerca de 500m à direita do abismo que visitamos na tarde anterior. Ali, acima de um infinito e macio edredom de nuvens – perfurado por poucos picos – o frio da manhã ficou em segundo plano diante do impacto avermelhado do do novo dia que despertava.

Algumas fotos, algum tempo de contemplação silenciosa enquanto o sol não se mostrava por inteiro. Novas fotos a cada mudança sutil no horizonte. As nuvens se moviam rapidamente, embora parecessem nunca conseguir atingir determinados pontos tão próximos. Em um momento de silêncio a explosão: O rapaz coreano ligou Gangnam Style e começou a dançar sobre uma pedra à beira do abismo. Gabriel deve ter espumado nessa hora, mas o nosso amigo tem um carisma imbatível, fazendo com que ninguém consiga ficar bravo com ele por muito tempo. Talvez por tempo nenhum.

A vista da Proa.

De volta ao Hotel Quati, ainda bem cedo, tomamos café e partimos para explorar outras áreas do lado brasileiro e também da guiana. Descemos suavemente, seguindo pequenos cursos de água que aos poucos se juntavam, por pouco mais de uma hora, até atingir pequenas poças de água translúcida. Ainda era cedo e não paramos para banho. Mais adiante chegamos novamente a outro ponto à beira do abismo. Dessa vez, suspeito eu, já no lado da Guiana. Suspeito porque dali se podia avistar a Proa, o ponto mais ao norte do cume. Não chegamos à Proa em si porque, segundo nosso guia, é preciso ter cordas e outros equipamentos para poder acessá-la. Por ali também havia alguma água acumulada, e com a ajuda de Gabriel e de seu irmão, conseguimos ver o icônico sapinho negro que é endêmico do Monte Roraima.

A lenda do Lago Gladys.

Partimos dali e seguimos avançando em território guianense – ou, como aprenderíamos no dia seguinte, “zona en reclamación”. Depois de muito sobe, pula, desce e sobe novamente, atingimos um grande lago que fica no fundo em um buraco, uns 10 metros abaixo do ponto em que estávamos. O lago é muito bonito e sua água entra e sai por canais subterrâneos, desaguando em uma provável cachoeira em algum ponto do paredão, que não estava muito longe dali.

Embora pantanoso no fundo, o Lago Gladys tem águas translúcidas e, não sem certo risco, é acessível por uma rampa de pedras. Porque então ninguém nada ali? Foi o irmão mais velho de Gabriel e também membro da equipe quem contou a sua versão para alguém de nosso grupo. O lago abriga uma criatura monstruosa que se assemelha a um caranguejo gigante. Acontece que tal ser só sai das profundezas em dias de pesada neblina e baixa visibilidade, por isso raramente é avistado. Se é de fato uma lenda local ou se ele estava tirando um barato com a nossa cara eu não sei, mas não achei nada sobre a história no google.

Após o lago ainda avançamos mais um pouco até o ponto onde estão alguns poucos destroços de um helicóptero da Rede Globo que caiu por lá durante as gravações do Globo Ecologia, em 1998. Os destroços em si pouco lembram um helicóptero, já que boa parte das peças já foi retirada, restando apenas uma sucata pouco reconhecível.

Um simples mapa.

Na volta fizemos o mesmo caminho e revisitamos rapidamente os mesmo pontos, parando apenas nos pequenos poços de águas transparente para um demorado e delicioso banho, já que o sol permitia um pouco de conforto. Foi aí que todos erraram. Já de volta ao Hotel Quati, ninguém havia passado ileso das queimaduras solares. Eu fui um dos que menos sofreu, já que durante o banho me sequei e me vesti antes de todos.

Naquela noite, após o jantar, Gabriel nos contou uma lenda indígena sobre uma das cachoeiras da Gran Sabana, mas eu não lembro os detalhes para reproduzir aqui. Também nos disse que no dia seguinte andaríamos bastante até o lado Venezuelano e desenhou um mapa no chão de areia, indicando pontos de interesse por onde passamos e passaríamos. Compreendemos muito melhor nossa posição no Monte Roraima e o quanto caminharíamos no dia seguinte. Talvez esse mapa devesse ter sido desenhado alguns dias antes, mas antes tarde do que nunca.

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4 pensamentos sobre “Monte Roraima – parte VI: O lado brasileiro, 08/03/2014.

  1. Texto muito bom e belíssimas fotos (nenhuma sua)! Se um dia eu for acho que farei companhia aos japas no helicóptero. Aguardo a próxima temporada…

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