Monte Roraima – parte V: Do Hotel Balbina ao Hotel Quati 07/03/2014.

A noite foi gélida e ninguém dormiu muito bem. Na barraca tudo que estava próximo dos cantos e tocando o chão amanheceu úmido. Enquanto esperávamos o café organizamos nossas mochilas e nos trocamos. Café tomado, seguimos para fora do hotel, tentando aquecer um pouco no sol que batia. Por sorte, fazia mais uma manhã de céu aberto e lindo no Roraima.

Milhares de anos, milenar. Milhões de anos…

Começamos a caminhar por volta das 8:00h, no horário previsto pelo Gabriel. Do Hotel Balbina até o reencontro com a trilha principal que leva ao lado brasileiro o caminho não é fácil. Quando as trilhas se encontram fica um pouco melhor, mas só um pouco. As formações rochosas são inimagináveis, é muito difícil entender como a erosão de milhões de anos levou àquelas formas retorcidas, furadas e desequilibradas. Enormes rochas apoiadas por pequenas pilastras naturais, prestes a cair daqui a qualquer milhão de anos.

Caminhamos bastante até um ponto de água, onde fizemos um pequeno descanso e pudemos ver o Kukenam à distância. Foi aí que Gabriel me mostrou uma pequena planta insetívora, uma das 3 espécies existentes por ali. Nesse percurso passou um helicóptero: veio resgatar uma brasileira que quebrou a perna no dia anterior, pulando num poço que visitaríamos 2 dias depois. Segundo nosso amigo carregador, durante a alta temporada, quase todos os dias ocorre um acidente do tipo e o helicóptero precisa resgatar alguém. Não foi à toa que, ainda na agência, assinamos um termo de responsabilidade que nos força a pagar o helicóptero (alguns mil dólares) em caso de necessidade de resgate.

O “Rio Gabriel” e o Vale dos Cristais.

Ainda caminhamos bastante até ver uma série de cristais em um platô de pedra. Seria o vale dos cristais? Não sabíamos porque Gabriel parecia estar com pressa e já andava bem à frente. Cansados e já com algumas dores, além de interessados em bater fotos e observar com calma, alguns de nós ficávamos para trás.

Chegamos a um grande vale, cercado por enormes paredões e com um rio pantanoso ao fundo. Seguimos a trilha pela lateral do rio. Seria o Lago Gladys? Não fazíamos idéia. Mais à frente a Lena e a outra garota do grupo seguiam junto com Gabriel e já tinham feito essa pergunta, já que se dependesse dele ninguém saberia nunca. Aparentemente o rio não tem nome, embora seja uma paisagem impressionante e destacada. O senhor que fazia parte do nosso grupo batizou naquele momento: Rio Gabriel.

Nosso guia é um pouco genioso e não muito comunicativo, calado e de fala baixa, já trabalhou na construção civil, na mineração e na agricultura. Há 8 anos trabalhando como guia, Gabriel conhece bem a região. Não se trata de má vontade, mas de uma preocupação acentuada com a logística e os horários. Aparentemente a situação se agravava com os problemas de superlotação e da presença do pessoal ICMbio, com quem encontraríamos naquela tarde. As informações mais interessantes fomos conseguindo aos poucos. Reparamos que à medida que conversávamos em particular com ele, ficava mais fácil obter mais detalhes dos pontos por onde passávamos.

Ao fim do nosso “Rio Gabriel” subimos um pequeno trecho até o nível dos paredões, e nesse trecho havia ainda mais cristais, cortados por uma água corrente que alimenta o rio mais abaixo. Tiramos umas fotos despretensiosas, achando que era só o começo do Vale dos Cristais, que em nossa imaginação era muito maior. Não é que seja decepcionante, é muito bonito. O problema é que mais tarde é que fomos saber que aquilo era tudo – acabamos perdendo a chance de tirar fotos com mais cuidado.

O Hotel Quati e o ICMBio.

Logo avistamos, um pouco acima, o marco de fronteira do Ponto Tríplice, onde estavam sentados 2 dos carregadores que nos esperavam. Nosso guia tomou outro rumo e deixou a visita ao ponto para outro dia. Dali para frente há um trecho um pouco mais chato até a chegada ao Hotel Quati, já no território do Brasil: escala-se e despenca-se algumas vezes, pisa-se em um pouco de lama e caminha-se bastante até chegar ao “hotel”. A mudança de paisagem no lado brasileiro é sutil, porém perceptível: a vegetação é um pouco maior e mais colorida.

Ao chegarmos ao Hotel Quati nos encontramos com o único grupo que estava por ali naquele dia: 2 membros do ICMBio, seu guia e carregadores. Havia espaço para as barracas, que já estavam sendo montadas. Enquanto o almoço não saía todos pudemos pegar água, tomar banho e até lavar umas roupas para secar na pedra enquanto havia sol.

Os dois caras do ICMBio foram simpáticos e contaram um pouco sobre o que estavam fazendo ali e muito mais. Eu só ouvi de lado, não participei muito da conversa na hora. Como não há controle do número de turistas que entra no Parque Canaima e sobe o Monte Roraima, acaba faltando espaço – nós sentimos na pele no dia anterior. Assim, alguns guias acabam buscando e criando novos hotéis, sem autorização do Inparques (Venezuela) e nem do ICMBio (Brasil). Isso contribui para a deterioração do parque, já que nos hotéis fica sempre algum impacto humano destrutivo: o piso é muitas vezes nivelado para montar barracas, sempre sobra algum lixo para trás (não é à toa que iam fechar para limpar), etc.

Por causa da denúncia de um desses “hotéis clandestinos” no lado brasileiro é que o ICMBio subiu dessa vez. Já haviam encontrado o hotel e aplicado algumas multas em gente que estava ali (no lado brasileiro) sem autorização, principalmente nos que fingiram não saber que precisavam dela. Nós sabíamos e tínhamos, mas por barberagem da agência a cópia do órgão brasileiro não foi levada. Por sorte nosso guia conversou abertamente com eles e nós não fomos multados. A agência é que receberia multa e notificação caso os fiscais não encontrassem nossas autorizações ao passarem pela entrada do Parque Canaima em Paratepui.

Os espíritos dos antigos indígenas.

Após o almoço Gabriel nos deu 30 minutos e partiríamos novamente para explorar o Brasil. Eu fui um dos primeiros a sair do “hotel” e me encontrar com ele do lado de fora. Nesse momento passou um helicóptero de turistas dando algumas voltas e com algumas pessoas acenando lá de cima. Com a partida do helicóptero o nosso guia me disse que esses turistas pagam entre 2 e 3 mil dólares por esse passeio, e que são em sua maioria japoneses. Disse ainda que o tempo iria fechar. Eu olhei para o céu e havia de fato algumas nuvens, mas também muito sol. Não entendia como ele poderia prever alguma coisa ali em cima, num ambiente tão instável. Em seguida emendou: “Os antigos indígenas vinham a esse local (o hotel) em busca de silêncio e tranquilidade para pensar. É um local sagrado. Hoje, quando há barulho, de helicópteros ou gritaria de turistas, os espíritos desses antigos fazem o tempo fechar”.

Eu não tenho nenhuma crença em religiões ou espíritos, pra mim é: morreu, apodreceu e acabou. Ainda assim gosto de ouvir essas histórias da tradição oral e de tentar entender as explicações que essas pessoas dão em sua relação com o ambiente em que vivem. Uma coisa que suponho ter entendido com essa história é que os indígenas que acreditam nessa tradição devem passar por algum dilema  ao levar turistas (muitas vezes bagunceiros, folgados e falastrões) aos seus lugares sagrados. Acho que, em parte, isso explica a dificuldade inicial de comunicação com Gabriel, bem como o fato de que ele parecer não gostar muito do seu trabalho.

O Abismo.

Grupo reunido, partimos para o passeio da tarde. Andando leves, já que nossas mochilas ficaram no acampamento, seguimos por cerca de 30 minutos até a beira do precipício. Nosso amigo carregador e fã de Violator veio conosco e ficou surpreso e empolgado quando viu, à nossa frente (graças aos antigos espíritos?) que o tempo estava aberto. Esse sim demonstra gostar muito de subir ao Roraima e de se comunicar com turistas, sempre sorridente e disposto a contar histórias e tirar dúvidas – mesmo não sendo o seu trabalho. Espero que se torne guia no futuro, será excelente.

Diante de nós, o lado brasileiro: um pequeno tepui chamado “Roraiminha” e uma enorme floresta. Fui saber depois, informado por um dos fiscais do ICMBio, que o lado brasileiro do Monte Roraima bem como tudo o que víamos ali no abismo, faz parte da recente reserva indígena Raposa Serra do Sol. A vista é impressionante. O paredão é impressionante. A vastidão da floresta abaixo é impressionante e não ficou bem registrada nas fotos. É muito difícil descrever o que vimos. Ficamos por ali fotografando ou apenas observando. Víamos todo o tempo o movimento das nuvens que tocavam o paredão em alguns pontos e já criavam a precipitação da chuva ao longe. Víamos aquela nuvem distante se aproximar lentamente, a chuva perfeitamente marcada no ar, aos poucos ganhando espaço. Quando ficou claro que ela viria para o nosso lado, começamos a andar de volta ao Hotel Quati.

A chuva nos alcançou nos últimos metros antes do “hotel”, mas não fez grande estrago. Dali em diante foi o ritual de comer, conversar um pouco, descansar e nos prepararmos para o dia seguinte. Ainda antes de dormir fui buscar água e me surpreendi com um céu limpo e já absurdamente estrelado, com pouquíssimas nuvens. Fiquei animado, pois a nossa amiga de São José dos Campos tinha conseguido convencer Gabriel a nos levar na madrugada seguinte novamente à beira do paredão, dessa vez para ver o sol nascer.

 

 

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