Monte Roraima – parte IV: Do Campo Base ao Hotel Balbina, 06/03/2014.

Supernaut

I want to reach out and touch the sky
I want to touch the sun
But I don’t need to fly
I’m gonna climb up every mountain of the moon
Find the dish that ran away with the spoon

I’ve crossed the ocean, turned every bend
I found the crossing near a golden rainbow’s end
I’ve been through magic and through life’s reality
I’ve lived a thousand years and it never bothered me

Got no religion, don’t need no friends
Got all I want and I don’t need to pretend
Don’t try to reach me, ‘cause I’d tear up your mind
I’ve seen the future and I’ve left it behind

Arepas.

Quando acordamos e saímos da barraca, o visual estava ainda mais incrível. O Roraima nos olhava e desafiava, e eu estava pilhado para começar a subir. Não se tratava de pressa, não queria chegar rápido lá em cima, mas queria começar logo aquele dia, queria tocar aquela parede maluca.

O café da manhã foi, para mim e para a Lena, pão integral com geléia e café puro. Para os demais, arepas com queijo. As arepas são pães feitos de farinha de milho, bem típicos da culinária ameríndia da Colômbia e da Venezuela. Eu gostaria de ter provado, mas não sobrou nenhuma sem o recheio de queijo.

Escalaminhada.

Após a já rotineira arrumação da barraca e das mochilas, entregamos a 3ª mochila para a carregadora e o grupo começou a subida. Após cruzarmos o riacho em que tomamos banho na tarde anterior a subida já fica muito íngreme. É o primeiro passo de um dia inteiro de escalaminhada: a cada passo um movimento de apoio com as mãos no degrau à frente. De terra para pedra, de vegetação de savana para árvores mais altas da encosta. Não sei precisar o tempo agora, mas acredito que após 1:30h de muito suor alcançamos um outro riacho, onde se pode pegar água para beber. Esse vinha direto do paredão, com o qual nos encontraríamos mais à frente. Nesse ponto encontramos alguns grupos de turistas e trabalhadores descendo. Disseram ter pegado muitos dias de sol lá em cima, o que nos animou um pouco.

Mais uma caminhada, mais uma ofegada e, de repente estávamos colados à parede. Um corrimão de madeira fora precariamente instalado ali para ajudar na passagem entre as pedras que se amontoavam no chão. Em épocas de mais chuva forma-se ali uma cachoeira, que naquele momento estava seca.

ICMBio.

Chegamos em um ponto que parecia ser um topo, ainda que bem longe do topo real. Era um ponto alto, a partir de onde o caminho começava a descer um pouco. Algumas pessoas do nosso grupo descansavam por ali, havia uma preocupação estampada no rosto de todos. Aparentemente tinha um pessoal do ICMBio lá em cima, no lado brasileiro, e estavam aplicando multas às pessoas e agências que lá entravam sem autorização. O ICMBio é a autarquia federal que administra, entre muitas outras Unidades de Conservação, o Parque Nacional do Monte Roraima.

Supostamente nós estávamos autorizados, a agência já sabia de tudo com antecedência e providenciou a documentação. O problema é que somente uma via do ofício foi entregue ao guia e essa via teve que ficar na pilha da burocracia venezuelana, na entrada do Parque Canaima, em Paratepui. Gabriel não sabia muito bem o que fazer, mas estava tentando se comunicar por rádio com alguém que subisse para trazer esse documento, já que só chegaríamos ao lado Brasileiro no dia seguinte à tarde.

Paso de Las Lagrimas.

O almoço do dia nos foi entregue no Campo Base, para comermos durante a trilha, e consistia em 2 sanduíches (com salada para mim, com ovos para os demais), uma maçã e 3 ou 4 biscoitos recheados. Parte disso foi traçada ali no meio da trilha mesmo, durante um breve descanso. Novamente em movimento, começamos a descer um pouco, o que parecia estranho se pensarmos que nosso objetivo era chegar ao topo.

Cabe aqui uma conclusão que tiramos observando o paredão desde o campo base e conversando com o pessoal local: o caminho da subida segue o da vegetação. No primeiro estágio o caminho é bastante reto, pois há vegetação por todos os lados. A partir de certo ponto o paredão aparece e a vegetação mingua, crescendo apenas através de uma fenda que corta o monte na diagonal, subindo da direita para a esquerda.

No ponto em que mesmo essa segunda etapa de vegetação acaba, chegamos ao Paso de Las Lagrimas: o caminho passa por baixo de uma cachoeira que respinga e molha tudo, deixando a rocha bastante lisa e escorregadia. Passar por ali não é nada impossível, gente de todas as idades já conseguiu, mas não é fácil e a atenção deve ser redobrada. A vista do horizonte através da água, não preciso dizer, era sensacional. Lamentavelmente não consegui fotos muito boas desse local – era água demais, fiquei com medo de molhar a câmera.

 

Vencido esse obstáculo ainda existe uma bela subida, sempre íngreme mas pelo menos seca, até finalmente atingirmos o topo, cantando músicas de vitória em nossas mentes. Cansados porém felizes, engolimos o que restou dos nossos lanches e descansamos mais um pouco, pois ainda havia muito o que caminhar.

Hotéis de pedra.

O topo não é exatamente o topo, pois ao contrário do que se possa imaginar pelo perfil geral dos tepuis, lá em cima não é tudo plano. Na realidade é raro você conseguir dar mais de 10 passos sem ter que pular de uma pedra, escalar outra ou saltar sobre uma poça d’água ou riacho qualquer. Ademais, existem diversas formações rochosas maiores e mais altas que a superfície geral por onde se caminha. Em algumas dessas formações existem lages  – que se assemelham a cavernas – nas quais, por fornecerem proteção natural contra as chuvas e um terreno um pouco mais plano, se montam as barracas. Essas formações são os chamados “hotéis”.

Logo no começo do lado venezuelano do Monte Roraima existem cerca de 5 hotéis, cada um com um nome próprio que não me lembro. O primeiro que avistamos parecia ser o mais interessante, pois as barracas estavam montadas num nível bem alto e provavelmente tinham uma vista privilegiada. Como estávamos no final do carnaval e na época de alta temporada, havia muita gente lá em cima. O controle do número de visitantes, se é que existe, é mal feito. Todos os “hotéis” estavam cheios e tivemos que andar um pouco mais que o programado. O tempo já fechava e a neblina tomava conta da paisagem, até que em um ponto Gabriel mandou que todos esperássemos e partiu na frente para investigar as condições de um local. Retornou, nos chamou e seguimos com o cansaço já estampado na face, até que chegamos ao local de pernoite.

O “Hotel Balbina”, que comparado aos demais parece ter mais que 2 estrelas, é um pouco afastado dos demais e também estava ocupado. Gabriel negociou com o guia do outro grupo e montou parte de nossas barracas no ponto onde eles iriam dormir e as demais no ponto em frente, divididas por uma água meio parada que se acumulava por ali. Na água aliás se movia um pequeno animal, uma espécie de inseto do tamanho do meu dedo indicador, que era um misto de lagosta e escorpião (embora inofensivo) – pesquisei mas não achei o nome do bicho. Enquanto isso, alguns dos carregadores do nosso grupo pegaram pás e se dirigiram ao outro lado do hotel, onde aplanaram um terreno para os desabrigados dormirem.

Nós já estávamos incomodados com as condições em que dormem os carregadores, mas ali foi o limite do constrangimento. A noite seria muito fria e úmida e nós tínhamos acabado de desalojar um grupo que já dormiria sem barracas para posicionar nossas barracas em seu lugar. Foi criada uma nova área para eles pernoitarem, mas ali ficou patente uma diferença de tratamento que em nossa opinião não deveria existir. Ficou nítida a preocupação na expressão de Gabriel. Por mais que todos eles digam que “– Estamos acostumbrados“, o fato é que o ser humano pode se acostumar com quase tudo quando confrontado com a necessidade. Que alguém esteja acostumado com determinada situação não faz dela uma situação justa ou correta.

A primeira noite no topo.

A escuridão chegou rápido dentro da semi-caverna e junto com ela o terrível frio, piorado pela umidade geral. Recebemos nossos pratos nas barracas, jantamos e resolvi sair para buscar água potável e ir ao banheiro. Guiado pelo membro da equipe de quem já me tornara amigo e seguido pelo nosso colega carioca, caminhei e saltei entre as pedras em busca do ponto de água. Mesmo com as lanternas a orientação é difícil. A noite era escura e a neblina tomou conta, sem um guia é muito fácil se perder ali em cima.

O lado em que ficou montada nossa barraca tinha a lage muito baixa, apenas suficiente para a altura da barraca. Ao sairmos pela porta, não podíamos ficar de pé, tínhamos que andar uns 3 metros abaixados até poder levantar a cabeça. Tanto eu quanto a Lena batemos a cabeça na pedra por esquecer desse detalhe. Com bastante frio,uns galos a mais e um pouco deprimidos pela situação, resolvemos ficar dentro da barraca. Eu até achei que passaria bem pela noite, mas lembro de acordar tremendo e não ter mais roupas para vestir. Como sabia que a temperatura mínima lá em cima é cerca de 5º e sabia que eu vestia roupas que deveriam ser suficientes para isso, além do saco de dormir, estranhei. A forte umidade derruba a sensação térmica sim, mas era mais que isso, eu estava com febre. Nós, como todos os outros, dormimos muito pouco naquela noite.

 

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7 pensamentos sobre “Monte Roraima – parte IV: Do Campo Base ao Hotel Balbina, 06/03/2014.

  1. Realmente, ficar doente corta demais! Espero que essa reação do organismo não tenha ido adiante e vocês tenham aproveitado bem o resto do percurso. Bjs.

  2. Neto querido, acompanhei passo a passo sua odisseia e dou lhe os parabens pela sua tenacidade . Beijos saudosos . Fico esperando novo
    relato ao vivo.

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