Monte Roraima – parte III: Do Rio Tek ao Campo Base, 05/03/2014.

Após uma noite de sono mal dormido, a única coisa que me fez querer sair da barraca na hora marcada foi a vontade de orinar. Santa urina, pois ao abrir a porta da barraca demos de cara com o amanhecer mais bonito que já vimos em nossas vidas. A barraca estava montada de frente para o Kukenam, que na tarde anterior estava parcialmente coberto pelas nuvens. Hoje, como em quase todas as manhãs subsequentes, estava completamente descoberto e exibia-se orgulhoso. O paredão, dourado pelos primeiros raios de sol do dia, era como uma fortaleza de uma antiguidade imaginária, em minha mente remetendo a um indefinido conto de Lovecraft.

Kukenam visto de dentro de nossa barraca. Foto da  Lena.

Kukenam visto de dentro de nossa barraca. O amanhecer mais bonito de nossas vidas. Foto da Lena.

Dois Rios.

O café da manhã foi pão frito (exatamente isso), com ovo para todos, com queijo para mim. Meio sem graça de explicar novamente bem como de jogar fora, deixei o queijo meio espalhado no meu prato e no da Lena. A caminhada começou por volta das 7:00h e de cara já atravessaríamos o Rio Tek. Aí a minha feia (porém muito útil) papete mostrou a que veio. Atravessei tranquilamente sem medo de molhar o pé ou a meia (sim, papete e meia…), rapidamente estariam secos novamente. A Lena levou uma meia só para atravessar o rio (sem tênis), tendo que tirar a meia para calçar o tênis em seguida. É nas beiras de rios que os Puri Puri fazem a festa, por isso essa operação teve que ser rápida, seguida de uma reforçada no repelente.

Logo após a travessia do rio subimos uma colina em cujo topo há uma igreja católica. A igreja está desativada (embora não pareça abandonada) pois, com exceção da família que vive no Acampamento Rio Tek, já não existe população por ali. Uns 40 minutos após a partida, descendo a colina da igreja para o outro lado, cruzamos o Rio Kukenam. Ali, após a travessia, a primeira parada: banho para os que não tomaram no dia anterior e para os que, como eu, simplesmente gostam de água. Enchemos nossas garrafas e tocamos trilha acima. Dali pra frente o caminho continua bem demarcado, mas já destoa em relação ao dia anterior pela inclinação, que vai aumentando paulatinamente.

Subindo.

A caminhada é forte e o sol vem rachando a cabeça dos desprotegidos. Após cerca de 1h subindo já se podia olhar para trás e ter uma visão ampla da incrível paisagem da Gran Sabana, que cerca o lado venezuelano do Monte Roraima. Tanto o Kukenam quanto o Roraima já tinham seus topos encobertos pela forte neblina, e assim permanecem quase o tempo todo. No espaço entre os dois tepuis as nuvens tomam conta, criando a sensação de uma perene e macia cachoeira que não escorre para lugar algum.

Durante a subida existem 2 pontos para pegar água, que Gabriel nos indica, pois ficam afastados da trilha. A caminhada fica cada vez mais íngreme e a cada pequeno topo alcançado a vista fica mais ampla e espetacular. Paratepui, a vila em que começamos a caminhada na manhã anterior, se revela ao longe, sobre um dos baixos montes da região. Para encontrá-la basta seguir a direção apontada pela trilha percorrida, a única visível por ali.

Uma série de pequenos topos já fora vencida e achávamos que “o próximo” deveria ser o último antes do Campo Base. Uns 3 ou 4 “próximos” depois, a chegada ao destino do dia. O paredão do Roraima agora estava bem mais próximo, gigantesco, aparentemente intransponível. Sua real altura não podíamos estimar, pois o monte seguia encoberto.

Campo Base.

Tão logo chegamos ao Campo Base uma gelada chuva caiu. Mesmo assim seguimos até o riozinho, que vinha diretamente das encostas do Roraima. A piscina de banho cabia umas 3 pessoas no máximo, mas com o frio que fazia no máximo 2 se arriscavam por vez. Nos alternamos na água eu, a Lena e o outro casal do grupo. Para a surpresa geral, a segunda pessoa na água o tempo todo foi o nosso amigo coreano, que ignorou o frio e tomou um prolongado banho por ali, com direito a sabonete, shampoo e tudo mais. Esses produtos podem ser usados, mas é preciso que sejam biodegradáveis e de base vegetal, para evitar contaminação da água.

Banhos tomados e garrafas de água cheias, nos acomodamos todos sob os 3 barracões de teto de lona (e sem paredes) que os guias costumam erguer nos acampamentos a cada temporada. Os trabalhadores das equipes, indígenas, cozinham e dormem por ali, protegidos apenas da chuva que vier de cima, expostos ao vento e ao frio. Nós, turistas, aguardávamos apenas que a chuva passasse para nossas barracas serem montadas e para que pudéssemos nos abrigar. Essa dicotomia nos incomodaria por toda a viagem. Enquanto esperava, vesti minha capa de chuva/poncho e me troquei por baixo dela, não aguentava mais as roupas molhadas.

Campo Base. Ao fundo, o Monte Roraima.

Campo Base. Ao fundo, o Monte Roraima.

 

A vista do banheiro.

Passada a chuva, a luz do sol retornou. Almoçamos em um dos barracões, acho que salada e frutas, não havia muito tempo para preparar o almoço. As barracas foram montadas, nos acomodamos e as nuvens aos poucos começaram a subir e a expor o gigantesco paredão do Roraima. Entre uma conversa e outra as fotos foram sendo tiradas.

Quando o chamado da natureza bateu o céu já estava totalmente limpo, especialmente para o lado do Kukenam, para onde apontava o banheiro. Para muitos um jornal, para outros um livro, mas eu garanto que não tem coisa melhor para apreciar  do que a vista do banheiro do campo base. A cagada mais bonita da minha vida.

Por volta das 18:00 ou 19:00h fomos chamados para jantar, já sob a noite escura de lua nova. Em dois bancos de madeira, sem mesa no meio, com iluminação de nossas lanternas, traçamos o arroz com curry de legumes (com frango para os demais). Em seguida Gabriel veio conversar conosco, apresentando o roteiro do dia seguinte: o ataque final ao paredão do Monte Roraima, à gigante fortaleza.

curry-batatas

O jantar: curry com batatas e arroz.

Pança forrada, dentes escovados, todos bem cansados, fomos logo dormir. Talvez antes mesmo das 20:00h. A noite foi um pouco fria, mas o que pegou mesmo foram as fortes rajadas de vento que golpeavam as barracas sem piedade. Às vezes acordávamos com o barulho do vento, que em seguida virava calmaria… apenas para voltar cortando novamente com mais força. Lembrava que tinha checado e reforçado os espeques da lona externa antes de ir deitar, só assim para dormirmos tranquilos na ante-sala da montanha.

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3 pensamentos sobre “Monte Roraima – parte III: Do Rio Tek ao Campo Base, 05/03/2014.

  1. Que relato interessante, Felipe! Estou adorando ler tudo. Continue aproveitando bastante. Beijo, Lelé.

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