Monte Roraima – parte II: De Santa Elena de Uairén ao Rio Tek, 04/03/2014.

Finalmente chegou o dia de começar a caminhar em direção ao Monte Roraima, 04/03/2014. Muitas perguntas se acumularam durante a preparação e voltavam à mente naquele momento. Estaríamos levando peso demais? Estaríamos esquecendo alguma coisa?  Teríamos roupas de frio e chuva suficientes? Nossos calçados dariam conta? Por fim a pergunta principal: nossas pernas e mentes dariam conta? Embora tenhamos ensaiado alguns preparativos físicos durante o mês de janeiro, nos últimos 40 dias o meu preparo consistiu em umas voltas de skate e o da Lena em fotografar receitas de doces para um livro em que ela está trabalhando. All right!

Rumo a Paratepui.

Por volta das 9:30 estávamos na agência entre uma dezena de turistas e funcionários que nunca tínhamos visto. Os grupos foram separados e ficou tudo mais claro: no grupo que faria a viagem em 6 dias estavam os gringos. No grupo que faria a viagem de 8 dias estavam os brasileiros e…um rapaz coreano, que só fomos descobrir que era do grupo quando já estávamos todos no carro e o Gabriel foi buscá-lo. O cara não parecia estar entendendo absolutamente nada.

No nosso carro estavam também um casal de São José dos Campos e 3 pessoas da equipe de Gabriel, o guia. O coreano foi no outro carro com outros dois brasileiros, filho e pai (de Curitiba), e mais um rapaz do Rio, além de Gabriel e outros dois membros de sua equipe.  Os carros partiram, fizemos uma rápida parada numa loja para comprar os últimos biscoitos e porcarias que quiséssemos levar e seguimos por pouco mais de 1h por dentro da Gran Sabana, primeiro em asfalto e depois em estrada de terra, rumo à vila indígena de Paratepui – de onde começa pra valer a caminhada.*

Carregadores.

Desde o começo do planejamento da viagem já estávamos num forte dilema entre contratar ou não um carregador pessoal. Por um lado nós não sabíamos muito o que esperar da caminhada e não tínhamos muito preparo físico ou experiência para carregar mochilas pesadas o tempo todo. Havia potencial para melar a caminhada até mesmo com alguma lesão nas costas ou articulações. Por outro lado a perspectiva de  ter uma pessoa carregando as suas coisas para você nos pareceu desde o começo muito estranha.

À minha mente vieram todo o tempo as imagens do Marechal Rondon acessando o Monte Roraima carregando um pesado equipamento… nas costas de uma tribo inteira de indígenas Macuxis. O nome do filme não me recordo agora, mas talvez seja “Viagem ao Monte Roraima” (1927), do major Thomaz Reis. Rondon circulou pela região durante a demarcação da fronteira, em meados dos anos 1920. O famoso marechal foi responsável pela política indigenista que o Brasil conseguiu ter naquele período, mas hoje é impossível defendê-la sem muitas ressalvas. Para nós, meros viajantes, a sensação de ser o colonizador ou civilizador era amarga. As coisas começaram a ficar mais esquisitas quando percebemos que aquela menina, que achávamos ter entre 15 e 17 anos, seria a nossa carregadora pessoal.

A discussão sobre ser válido, necessário ou injusto o uso de carregadores pessoais circula pelos fóruns de viajantes sempre que é mencionado o Monte Roraima. Os mais diversos pontos de vista aparecem, mas predomina a idéia de que “eles estão acostumados e precisam daquela renda”. Ao longo da viagem nós ainda conversaríamos muito sobre aquela situação.

Paratepui.

Paratepui é uma aldeia indígena onde fica o ponto de controle do Parque Nacional Canaima e onde começa a caminhada de fato. Pessoas mais experientes nesse tipo de viagem podem contratar ali mesmo um guia (obrigatório) e  carregadores, mas é preciso ter em mente todo o planejamento de comida, barracas e todo o equipamento necessário. Nós, mirins, entramos em um pacote preparado pela agência e, além de nossas roupas e porcarias que quiséssemos comer, precisamos levar apenas o saco de dormir e o isolante térmico. Outra dificuldade seria chegar até ali, pois é bom ter um carro 4×4 e em alta temporada eles estão todos a serviço das agências em meio à Gran Sabana.

A aldeia não é tão conservada e arrumadinha quanto as que víamos à beira da rodovia. As construções são em sua maioria de pau a pique, com telhas de eternit. O campo de futebol inclinado (engenharia escheriana) não falta, e a pelada seguia animada enquanto a equipe descarregava os carros e Gabriel nos oferecia sanduíches que seriam o nosso almoço nesse primeiro dia de caminhada. Os meus vieram com queijo, embora eu tenha explicado sobre a minha alimentação algumas vezes na agência e eles tenham parecido entender. Tudo bem, uma horda de vira-latas famélicos deu conta dos queijos que eu, tentando ser discrito e falhando, lhes ofereci. Um deles inclusive estava todo arrebentado com espinhos de porco espinho por todo o focinho e sequer conseguiria comer caso tivesse alguma chance.

O incrível campo de futebol de Paratepui: o goleiro da esquerda está bem abaixo, o goleiro da direita está acima, mas os pontos mais altos mesmo são as marcas de escanteio.

O incrível campo de futebol de Paratepui: o goleiro da esquerda está bem abaixo, o goleiro da direita está acima, mas os pontos mais altos mesmo são as marcas
de escanteio. (Foto emprestada do Instagram da Lena).

Entregamos a Gabriel os BS.f 30,00 (por pessoa) referentes à entrada no parque e assinamos nossos nomes no livro de registros. Nossos nomes deveriam estar naqueles registros antes, por providência da agência, mas não estavam. Gabriel tinha um documento com o nome de todos e tudo se resolveu. Esperamos um pouco e começamos a caminhar, já sob um tempo bem fechado.

O clima na região é bem instável e imprevisível e o que era um dia de sol forte logo se transformou em chuva. Vestimos nossos ponchos e as capas nas mochilas. Sob chuva dávamos os primeiros passos, subíamos e descíamos as primeiras ladeiras com cuidado para não escorregar na lama. As solas dos calçados rapidamente ficaram cheias de placas de barro que pesavam e dificultavam cada passo.

Após cerca de 1h a chuva aliviou e, ainda sem sol, a caminhada rendeu mais. Passávamos por alguns viajantes que retornavam e víamos sua expressão de cansaço. O terreno também ficou mais plano,  a caminhada desse primeiro dia é tranquila e segue uma trilha bem demarcada. À medida que avançávamos, os contornos do Kukenam Tepui e do Roraima Tepui se fortaleciam entre pesadas nuvens. Esses são apenas 2 dos vários tepuis – essa formação peculiar de montanha em forma de mesa, com paredes verticais e topo relativamente plano, bem característica daquela região da América do Sul.

Acampamento Rio Tek.

Após cerca de 4h de caminhada chegamos ao acampamento Rio Tek. Por ali, à beira de um rio gelado e translúcido, sob a sombra dos enormes tepuis e ainda bem longe deles, aguardávamos enquanto a equipe preparava o jantar e montava as barracas. Conversamos com os demais viajantes que desciam do monte naquele dia e durante o jantar com os membros do nosso grupo, aos poucos íamos nos conhecendo. Um de nossos carregadores, com cabelo comprido, calça camuflada e coturno veio conversar. Ligado nas minhas tatuagens logo começou a perguntar se eu curtia um som. Metaleiro tem no mundo inteiro, até carregando bagagem no Monte Roraima. Nosso camarada, além de tudo, é fã do Violator – banda de alguns amigos de Brasília. United for thrash!

Quem não aguardou a hora do jantar foram os Puri Puri, que ali nas beiras dos rios fazem a festa com o sangue alheio. O bichinho faz estragos. Eu, felizmente, não costumo ter muito problema com mosquitos para além de uma ou outra picada. A Lena sim, e por isso estava bem preparada com calças e roupas de manga longa, além do repelente Exposis Extreme. O negócio funciona, mas é um químico forte, tem que tomar cuidado pra não inalar demais.

Depois  do jantar o Gabriel, como faria todas as noites, comentou um pouco do que seria a caminhada do dia seguinte, nos passou o horário em que o café estaria pronto e o horário em que deveríamos começar a caminhada. Além disso, fomos levados a conhecer o banheiro que nos acompanharia durante toda a viagem. No Monte Roraima, tudo o que você leva lá pra cima você tem que trazer de volta, inclusive os excrementos. Por isso, o banheiro funciona assim: um banquinho em forma de privada onde se encaixa uma sacola preta e fecha-se a tampa do assento. Você se acomoda por ali e, nas palavras de Gabriel… “POF!”. Você se limpa, joga o papel na sacola e depois dá um nó e deixa o presente ali do lado. A equipe se encarrega de levar aquilo embora. Apesar disso, muito lixo se acumula pelo caminho, particularmente nas áreas de acampamento, inclusive papel higiênico e saco de fezes. Por essa razão o Parque Nacional Canaima fecha-se à entrada de turistas para limpeza, e nesse contexto o Monte Roraima seria fechado dali a alguns dias.

A noite não foi muito bem dormida, especialmente porque um grupo de brasileiros e venezuelanos que haviam descido do Monte Roraima naquela tarde passou a madrugada bebendo, jogando, gritando e incomodando todo mundo. Mesmo assim tentamos descansar, em preparação para a caminhada forte que Gabriel nos prometera para o dia seguinte: a subida até o Campo Base.

* Deixo de citar os nomes de todos por não saber se querem ser mencionados, para evitar expor demais as pessoas.

 

 

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7 pensamentos sobre “Monte Roraima – parte II: De Santa Elena de Uairén ao Rio Tek, 04/03/2014.

  1. Fala Felipe! Cara, lendo seu relato me veio a mente toda a trip, perfeito, nos mínimos detalhes. Parabéns. Faltou vocês nos dias seguintes pela gran sabana. Foi muito legal conhecer vocês e passar esses 8 dias no trail. Pode citar meu nome se você quiser, sem problemas. Grande Abraço.

  2. Parabéns Felipe, tem que possuir um espírito aventureiro muito aguçado e muita garra para poder se emprenhar nesse projeto. Mas a nossa mãe Terra pode nos presentear com essas maravilhas pouco exploradas pelo homo (sapiens??, mas quem sabe é até melhor assim…). Obrigada por nos proporcionar essas imagens e esse relato fantástico. Bjs.

    • Eu sou muito mais leniente, procrastinador e preguiçoso do que esse intrépido aventureiro que você descreveu hehehe. Sério, é mais fácil do que a maioria das pessoas imagina. Obrigado pela visita, beijos!

  3. Pingback: Monte Roraima – partes VIII e IX: De volta ao Rio Tek e a Santa Elena, 10 e 11/03/2014. | Going Southbound

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