Monte Roraima – parte I: De São Paulo a Santa Elena de Uairén, de 01 a 03/03/2014.

A partida

Em 01/03/2014, sábado de carnaval, partimos eu e a Lena de São Paulo, rumo ao aeroporto de Guarulhos, de metrô (R$3,00 por pessoa) e ônibus intermunicipal que sai do Tatuapé (R$ 4,45 por pessoa). Mantendo o espírito econômico da viagem evitamos o taxi e deixamos o Airport Bus Service para o fim da viagem, quando estaríamos mais cansados. Chegamos cedo ao aeroporto e fixamos as alças das mochilas e a capa com umas voltas de fita crepe: a idéia é evitar que as alças e capa se enganchem em algum lugar ou outra bagagem e arrebentem durante o transporte feito pela empresa aérea. No desembarque a fita é facilmente removível com as mãos. Deu tudo certo e economizamos os R$ 40,00 cobrados em Cumbica para embalar cada bagagem naquele plástico. Enquanto esperávamos, comemos um macarrão por ali, pois a espera no aeroporto de Boa Vista prometia ser longa.

Promessa cumprida: chegamos no horário em Boa Vista (por volta das 2 da manhã) e ficamos esperando até quase 5h já do dia 02/03/2014, quando pegamos um taxi (R$ 30,00) até o terminal de taxi-lotação que leva a Pacaraima (última cidade brasileira antes da Venezuela). O taxista era bem simpático, sem ser invasivo, bem oposto aos taxi-drivers paulistanos. A madrugada começava a aparecer quando chegamos ao terminal. Lá os taxistas têm suas Merivas adaptadas com um banco ocupando metade do porta malas, cabendo assim 1 passageiro na frente, 3 no meio e mais 1 atrás. A tarifa até Pacaraima é R$ 30,00 por pessoa. Eramos eu, a Lena e um outro casal de brasileiros que parecia estar fazendo uma viagem de um dia até Santa Elena de Uairén, cerca de 220 KM de Boa Vista. Esperamos um pouco e o taxista desistiu de aguardar por um 5º passageiro e partiu. Em poucos minutos estávamos na estrada, muito plana e com poucas curvas. O asfalto está sendo reformado, embora ainda não exista sinalização pintada e não seja uma pista duplicada. Ainda assim o motorista não conhecia limite de velocidade e enfiou 160 KM por hora savana a dentro.

Lotataxi na madrugada de Boa Vista.

Lotataxi na madrugada de Boa Vista.

A paisagem da Gran Sabana venezuelana já se manifesta em Roraima, e é deslumbrante. Vegetação rasteira e alguns alagados a perder de vista, o sol forte e as chuvas visíveis a grande distância se alternam, mesmo sendo estação de seca lá perto do equador. Rapidamente, com apenas uma parada para um café, nos aproximamos da divisa. Não sem antes o taxista fazer a parada obrigatória num ponto da estrada onde supostamente o carro está descendo e, deixado em ponto morto, começa a subir de ré. Para nós aquilo não fez sentido, já que a suposta descida é uma leve subida, clara ilusão de ótica.

A fronteira

Já na fronteira fizemos um câmbio inicial de R$ 300,00 e vivenciamos a estranha relação de desvalorização da moeda alheia: entrei no carro de um cambista de rua e saí com 8.400 Bolivares Fuertes. Cotação de R$ 1,00 para BS.f 28,00, e olha que já sabíamos que na divisa essa cotação é mais baixa que no centro de Santa Elena. Com um bolo de notas que não cabia nas mãos nem na doleira de turista (aquela de cintura, que vai por baixo da roupa), seguimos para carimbamos a saída do Brasil na Polícia Federal. Tudo tranquio e bem rápido.

Andamos cerca de 1 KM até o escritório venezuelano e passamos pela primeira das muitas filas de carros que se amontoam para ali abastecer com a gasolina ridiculamente barata daquele país. Há boatos de que vários carros têm tanques adulterados para caber mais gasolina e fazer valer a viagem de longe. Loucas velocidades e mutretas por gasolina, sinais de um futuro Mad Max.

Aguardamos um pouco e entramos no trailer-escritório e ganhamos sem muito esforço o carimbo de entrada na Venezuela. Ali ficamos um pouco confusos tentando identificar um taxi venezuelano ou um ponto onde eles passassem, até que uma mulher saiu de um carro que acabara de chegar e o motorista nos fez sinal. Ao nos aproximarmos combinamos a corrida com o carrancudo condutor daquela lata velha: “doscientos bolos” ou BS.f 200,00 (R$ 7,15) para os poucos mais de 10 KM até a cidade de Santa Elena de Uairén. A Lena registrou alguns segundos dos dois taxis que pegamos nessa ida.

Santa Elena de Uairén

Por confusão do taxista acabamos errando a entrada do Hotel Lucrecia, recomendado por amigos da Lena – mas logo depois achamos. Às 8 ou 9 da manhã estávamos cansados demais, mas não haviam quartos vagos, teríamos que esperar até 12 ou 13h por um checkout. Deixamos a mochila mais pesada e fomos dar uma volta pela cidade, procurando algo para comer. Era domingo de carnaval, quase nada aberto e os desayunos disponíveis consistiam em frituras e queijos gordurosos. Nada vegan e nada que a Lena estivesse a fim de encarar. Rodamos bastante e acabamos tomando um suco de laranja no carrinho de um brasileiro que trabalha por ali. Compramos umas besteiras num mercadinho e fizemos mais um câmbio de R$150,00, numa taxa já de R$ 1,00 para BS.f 29,00, para pagar a diária no hotel e ter mais algum no bolso. Mais uma bolada de notas fazendo a gente se sentir como gangsters e achar que estava fazendo algo de muito errado com todo aquele dinheiro.

Recado dado.

Recado dado.

A cidade em si é como muitas das cidades pobres do interior do Brasil, meio suja mas nem tanto, meio feia mas nem tanto. O que me chamou a atenção foi que, embora totalmente plana e pequena, a bicicleta quase não existe como meio de transporte por ali. A gasolina ridiculamente barata contribui pra que todos tenham carros, gerando um fluxo contínuo de motores, fumaça e buzinas por toda a cidade. Em geral os supermercados são dominados por chineses (a maioria na Calle Mariscal Sucre), que também têm pelo menos 2 restaurantes típicos por ali. A única padaria que vimos (Calle Bolívar) é o ponto obrigatório em que passam os brasileiros, sempre lotada. Bem próximo dali, pra quem quer provar a culinária local, existe ainda um lugar que é como uma praça de alimentação com vários quiosques, vários deles de culinária creole (típica do caribe, que envolve uma mistura de culinária indígena, africana e européia, principalmente francesa). Pros vegetarianos infelizmente, nada havia por perto, exceto uma loja na Calle Ikabaru que estava sempre fechada, mas anunciava desayunos vegetarianos.

De volta ao hotel bem cansados, ainda esperamos um tanto ali pelo saguão até poder entrar no quarto, tomar um banho e capotar de sono. O quarto para casal (com mais uma cama de solteiro) no Hotel Lucrécia saiu por BS.f 1200,00 (R$ 42,85). Com certeza poderíamos achar quartos mais baratos, mas esse tinha recomendação e estávamos com sono demais para procurar outro. Ainda saí para comprar comida, mas tudo que consegui foi uma salada fajuta com arroz. Eu comi só o arroz com frutas secas e castanhas que tínhamos levado, já que a salada veio com maionese, embora eu tenha pedido pra não colocarem. Em seguida o dia acabou em lençóis.

Preparando a saída

No nosso segundo dia na cidade, 03/03/2014, o plano era entrar logo em contato com o guia com quem tínhamos combinado a viagem de 8 dias ao Monte Roraima e partir para um passeio de um dia no vilarejo de El Pauji. O problema é que rolou uma falha de comunicação e acabamos não indo com o Marco William, o que foi uma pena, pois ele tem fama de ser o melhor guia do Roraima, além de buscar tratar os trabalhadores indígenas do turismo com melhores condições de trabalho. Para quem quiser o contato dele: o celular é 0426-1243623 e o email marco.mcalexis@gmail.com.

Nesse meio tempo recebemos a informação de que o Monte Roraima ia fechar para limpeza em alguns dias e que só quem já tinha a autorização é que poderia subi-lo naquele período. Acabamos encontrando uma única empresa com uma saída de 8 dias para o dia seguinte. Com medo de perder a viagem de tão longe, fechamos com a Backpackers mesmo. Nessa indefinição acabamos abortando a visita a El Pauji e ficamos finalizando nossos preparativos para a partida no dia seguinte. Acabamos permanecendo no mesmo hotel, porque a economia de R$ 10,00 por pessoa não justificava a troca para um hotel de banho e cama duvidosos e sem ar condicionado. Trocamos mais uma bolada para pagar à agência os BS.f 18.000,00 (R$ 642,80) por pessoa referente aos 8 dias de passeio, incluindo refeições e barracas. Pagamos ainda mais BS.f 1200,00 (R$ 42,85) por dia por um carregador para levar uma mochila nossa (máximo de 15 KG).

Cerca de R$ 1500,00.

Cerca de R$ 1500,00.

Ali na agência mesmo tivemos uma reunião com o nosso guia e 2 dos outros 4 participantes do grupo, os brasileiros Ilana e Anderson. Educado, de fala baixa e concisa, Gabriel é de origem indígena, assim como quase todos os outros guias e carregadores das equipes que levam turistas ao Roraima. Falou sobre o primeiro dia da viagem e deu dicas sobre os dias mais difíceis, mas só porque fomos perguntando. Nos forneceu um saco plástico grande para por dentro das mochilas e proteger nossa bagagem do clima volátil da região e marcou a saída para 9 ou 10 horas da manhã seguinte. Por sorte o restaurante árabe já estava aberto para salvar os vegetarianos e por BS.f 260,00 (R$ 9,30) levamos tabule, babaganoush, homus e 4 bolinhas de falafel para jantar no hotel, finalmente uma refeição decente. Reorganizamos as mochilas e fomos dormir com a mente fervendo em torno do que seriam os próximos 8 dias.

Nota: Até esse momento não tínhamos nem ligado as câmeras, foi tudo registro de celular e instagram mesmo.

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2 pensamentos sobre “Monte Roraima – parte I: De São Paulo a Santa Elena de Uairén, de 01 a 03/03/2014.

  1. Tenho uma foto dessa restritiva, em um pueblo boliviano lá no alto da rodovia da morte. Ao lado, uma placa com uma seta “MIJADOR” . 1974…

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