Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 8 – 28/12/2013

O último dia de viagem seria longo e sabíamos disso, queríamos dar uma esticada de 30KM ida e volta entre a BR e a praia de Ubatuba, fora do centro histórico de São Francisco do Sul. A visita à praia foi importante para começar bem, porque dali pra frente encararíamos muito sol, carros e caminhões por toda a BR-280 e BR-101, até Piçarras, nosso destino final.

Madrugada ardente, manhã lenta e o Careca dissimulado

Acordamos bem cedo novamente, para pegar o primeiro barco do dia, que parte por volta das 7:00h. O Brian demorou um pouco pra sair da barraca e quando saiu… a cara do nosso boneco de presépio não era animadora. Eu, que dormi sem saco de dormir e sem camisa por conta do calor, já tinha suado a noite inteira. Ele, atingido por algo que não sabemos e nunca saberemos, teve febre, suou, vomitou e sabe-se lá o que mais. Insolação? Água duvidosa? Fadiga? Falha geral no sistema? Não sabemos. E o Juninho que dividia a barraca com ele, dormiu com o Reek of Putrefaction. Ninguém teve a melhor das noites, e nem estou levando em conta o louco pancadão dos carros tunados que fizeram tremer a Vila da Glória noite adentro.

Desmonta-barraca-monta-bicicleta-dessa-vez-sem-café. Tiramos umas fotos e partimos para comprar a passagem e embarcar rumo ao centro histórico de São Francisco do Sul, que estava visível desde o dia anterior, logo ali do lado. Tão perto e tão longe. A surpresa foi que o próprio dono do restaurante, aquele que nos ofereceu o camping improvisado, estava na bilheteria pela manhã. Valeu Sr. Geraldo (Djalma? Diógenes? Não lembro!) Mais uma vez a bicicleta pagava a passagem, acho que custou R$12,00 por pessoa e mais uns R$4,00 ou R$6,00 por veículo, não me recordo bem. Éramos nós e mais uns 4 ou 5 cidadãos, o barco seguia vazio. Talvez por ser um sábado e por estar tão cedo.

A travessia durou cerca de 30 minutos e nossas caras pálidas da noite mal dormida e do jejum matinal só se animaram um pouco com a aproximação do trapiche do centro histórico. São Francisco do Sul é mesmo uma cidadezinha arrumada. Estava tudo bem vazio por ali, com quase todo o comércio ainda por abrir. Saímos do barco, nos despedimos da tripulação com aquela conversa/surpresa normal do de-onde-vem-pra-onde-vai e demos de cara com um tipo esquisito. Ali mesmo sobre o trapiche, às 7:00h da manhã, olhando sem acreditar, vimos um típico Careca (do Brasil, do subúrbio, nazi, sei lá). Tatuagens já bem identificadas pelo ganguismo das ruas de São Paulo (do qual só queríamos distância), modelo da bermuda e do tênis, tudo indicava. A camiseta era de uma certa banda brasileira assumidamente Careca. Um de nós perguntou, meio rindo… “E essa camisa aí, pesada hein?”. A garota que estava com ele não parecia ter ideia do que era tudo aquilo e não entendeu nada. Ele, por medo ou por vergonha, desconversou. “Não sei o que é, meu primo me deu.”

Seguimos para o mercado municipal em busca da tapioca que já tinham mencionado lá na Vila  da Glória. Fechado, mas parecia que ia abrir… esperamos um tanto e nada. Aos poucos cada um de nós se cansou e foi na padaria da esquina comer o que foi possível para vegans famintos. Eu fui de biscoito recheado e café mesmo, que era logo um copaço, pra acordar de uma vez.

Ubatuba

Demos uma voltinha ali pelo centro histórico e puxamos o pedal rumo à praia de Ubatuba, que prometia ser bem melhor para nadar do que as águas da Bahia da Babitonga. No caminho até a estrada que leva para a praia ainda pegamos um trecho de ciclovia pela cidade. Uma cidade tão pequena e pacata, que talvez nem precise de fato da ciclovia. E São Paulo? Ah é, deixa pra lá. Chegamos à rodovia e, pelo sujo e esburacado acostamento, atingimos Ubatuba. A praia é bem bonita, mesmo com o dia nublado. Paramos num posto salva vidas e nos revezamos ao mar. Um deles veio logo conversar – deondevempraondevão – e nos ofereceu dois garrafões de água congelada, que bastaria completarmos com a água potável da torneira e beber, ou encher as garrafinhas. Gente boa.

Depois do banho de mar, tomamos ali mesmo na ducha de saída de praia do posto o nosso primeiro banho decente de água doce nas últimas 48h… ou mais. A essa altura ainda discutíamos se seria bom o Brian seguir viagem ou tentar pegar um ônibus de volta para São Paulo. Pra isso ele teria que pedalar de volta até São Francisco do Sul e pegar um ônibus para Joinville e outro para São Paulo. O cara parecia a estátua do nazareno na cruz: pele, osso e aquele olhar vazio. Felizmente o banho deu uma leve revigorada e ele continuou a viagem.

As BRs e os caminhoneiros do inferno

Voltamos de Ubatuba até a BR-280, pela qual seguimos em direção à BR-101. O fluxo de caminhões já era forte e a pista não tinha acostamento. Seguimos o mais rápido que pudemos, sempre sinalizando para sermos vistos, mas alguns caminhoneiros não querem saber e passam tirando fina mesmo. Uns 15 minutos na BR-280 e já tínhamos tomados alguns sustos. Em determinado momento eu passei à frente do grupo e segui adiante. Ouvi uma buzina ao longe e em seguida mais perto. Quando olho para trás vejo um caminhão enorme acelerando em minha direção. Esse não ia parar e eu joguei a bicicleta na mistura de terra fofa e mato seco da lateral da pista, onde deveria existir um acostamento. Depois soube que os que ficaram para trás passaram pelo mesmo aperto. O caminhoneiro do inferno queria mesmo esmagar o nazareno e seus apóstolos. Decidimos atravessar a pista e seguir por um acostamento esburacado, que agora se esboçava na contramão. Tudo isso em perímetro urbano. Felizmente foi por um trecho curto e logo o estado da rodovia melhorou e um largo acostamento se abriu diante de nós, nos dois sentidos.

Sonho recorrente e os estreiéde

Nesse ponto da viagem eu sabia que teríamos 2 opções. A primeira era seguir até Barra do Sul pela SC-415, para depois acessar Barra Velha, tomando apenas um pequeno trecho da BR-101. A segunda seria seguir direto pela BR-280 até a BR-101 e pegar um trecho maior nessa rodovia. A primeira opção parecia mais interessante por seguir mais próxima ao litoral, provavelmente com menor movimento de caminhões. O problema é que eu já tinha ouvido falar que naquele trecho existia uma estrada de cascalho (ou areia?), cuja extensão nós não conhecíamos. Na saída da BR-280 para Barra do Sul eu perguntei para alguns dos locais que vendiam caranguejos na beira da estrada e eles confirmaram que realmente não era asfalto direto. Traumatizados pelo areião da estrada para Vila da Glória, decidimos então seguir sentido BR-101 mesmo.

Ainda não passava das 11h, mas o sol já atacava sem piedade. Jab, direto, esquiva, esquiva… em vão o Afrojapa tentava aplicar suas técnicas de boxe para se defender. Camiseta molhada enrolada na cabeça, muito protetor solar e mangas compridas eram a melhor solução. Eu já estava sentindo bastante o calor, pedalando em último da fila, quando passei por  um caminhão vendendo de côco e não acreditei que ninguém  tinha tido a idéia de parar para se hidratar. Poucos minutos depois… um caminhão de melancias… e nenhum f@#$** parou! Eram lindas, todas verdinhas e recém colhidas. Entre elas estava uma cortada pela metade, toda se exibindo… e nenhum dos 4 parou. Xinguei alto e até hoje sonho com essa melancia. Nós 5 destruiríamos uma com facilidade.

Alguns KM à frente, um pouco antes de Araquari, a fome já apertava quando decidimos que era hora de parar e almoçar. Ainda tínhamos comida para cozinhar, mas também tínhamos muitos KM pela frente e encontramos um restaurante barato, ali na beira da rodovia mesmo. Era uma churrascaria com buffet, bem grande e barata. Entramos, olhamos a comida, dava pra encarar se o feijão não tivesse carne/bacon/etc. O Juninho foi perguntar e confirmou que estava limpo. O dono do restaurante nos ofereceu a garagem fechada para guardar as bicicletas, o que aceitamos de pronto. O buffet era grande e comemos à vontade, inclusive com suco extra-doce e uma salada de frutas de sobremesa.

Enquanto almoçávamos, o chefe voltou à nossa mesa para dizer que, como não comeríamos as carnes, nos faria um desconto. Ao invés de R$13,90, ficaria tudo por R$10,00. Maravilha, gente boa!  Já estávamos desencanados da brincadeira de falar com o sotaque alheio, mas ele ainda perguntou: “Ninguém aqui come carne? Vocês são amigos dos estreiéde?”. Ficamos meio sem resposta. A maioria de nós é mesmo straight edge, mas não esperávamos que um cara numa churrascaria de beira de estrada, sem qualquer ligação com punk/hardcore fosse saber o que é isso. Pensamos que ele talvez fosse amigo do pessoal de Joinville ou Blumenau, que não estavam longe dali. Perguntamos, mas não conhecia ninguém, tinha ouvido falar pela TV.

Mais um furo

Seguimos viagem e quando chegamos à BR-101 o movimento era intenso. Muita gente indo em direção às praias para a virada do ano. O acostamento é largo e a pedalada rendeu, até que o Afrojapa e eu subimos em um viaduto desnecessário, já que ele apenas passava por cima do retorno e dava para seguir reto por baixo. O acostamento no viaduto estava bem sujo e cheio de restos de pneus, madeira, lixo jogado dos carros… em poucos segundos o pneu traseiro do Afrojapa já estava totalmente vazio. O grupo se reuniu e descemos o gramado da lateral da pista, em busca de uma sombra para trocar a câmara. O furo foi causado por… um clips! Um maldito clips, que alguém sem muita noção jogou pela janela do carro.  O Afrojapa, ao contrário de mim, tinha a câmara do tamanho certo e o processo não demorou muito. Ainda bem, porque o sol estava realmente forte e a sombra era mínima.

Após mais alguns KM encostamos mais uma vez em uma lanchonete para nos hidratar, tomar banho de pia, água, suco de melancia, etc. Eu não tomei o suco de melancia, já que na viagem maior que estou planejando, para uma região mais remota, eu não terei isso assim tão facilmente, e provavelmente nem terei dinheiro pra comer/beber em restaurantes todo dia. Queria ter uma idéia de como é passar um aperto sem esses pequenos luxos, e de fato faz uma diferença. A Magali… digo, Marcela, tomou uns 2 ou 3 sucos e dali pra frente pedalou em ritmo muito mais forte que o meu, junto com os outros 3. Eu fui ficando sempre meio pra trás deles. Finalmente nos reagrupamos perto de um shopping com uma réplica da estátua da liberdade, aquela de NY mesmo. E sim, ali na beira da rodovia, na estátua do shopping, estava cheio de gente sem noção fazendo selfies e posando para fotos. Tá serto.

Chegada à casa da família do Shu. Piçarras, 28/12/2013.

Chegada à casa da família do Shu. Piçarras, 28/12/2013.

Dali em diante já estávamos em Barra Velha e faltava muito pouco para Piçarras. Seguimos o mais perto da praia que podíamos. Em uma zona urbana com o tráfego de veículos já bem congestionado, não foi difícil ultrapassar a todos, mesmo com os alforges ocupando mais espaço lateral que o normal de uma bicicleta. De Barra Velha chegamos a Piçarras com facilidade e não demoramos a achar a casa da família do Shu, meu camarada de longa data. Não havia ninguém por lá, fora a Naya, uma cadela muito gente boa. Ligamos, mandamos mensagem e logo chegaram a Lena – de quem eu já tinha muita saudade – o Shu e o resto da turma. Felizes, cansados e com o André Luiz Brian Nazareno mais morto que vivo, comemos, conversamos, dormimos. Muito obrigado à família do Shu pela recepção!

O Brian, o Juninho e a Marcela voltaram para São Paulo no dia 29/12. Eu e o Afrojapa ficamos por ali aproveitando a hospitalidade, a praia e a companhia dos amigos durante os últimos suspiros do já moribundo 2013.

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3 pensamentos sobre “Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 8 – 28/12/2013

  1. Parabéns a todos! Muito show a cicloviagem. Pena que ao sair de São Chico não seguiram a 1a. opção. Pela terra/areia seria muito legal. Em setembro o Emerson e eu fizemos pela terra e foi show. Pousamos em Barra do Sul.
    Grande abraço do Antigão.

    • Obrigado Waldson! Farei esse caminho na próxima, junto com a estrada do Ariri. Ficamos meio traumatizados com o areião da Vila da Glória, e com o Brian debilitado ficou meio duvidosa a situação hehehe. Um abraço.

  2. Essa São Francisco do Sul é mesmo muito linda!

    Viagem maravilhosa, mas apenas um aperitivo pra outra planejada. Lá, pela informação que tenho, o buraco é MUUIIITTO mais embaixo. Literalmente.

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