Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 7 – 27/12/2013

O sétimo dia de viagem começou bem cedo para mim, e marcou nosso retorno ao asfalto e ao mundo dos carros. A etapa se revelou um mais longa e cansativa do que esperávamos, terminando com um forte “areião” e um atraso fatal de poucos porém fatais minutos – que acabou nos forçando a um camping improvisado.

Deixando para trás a Ilha do Mel.

Eu acordei bastante cedo, por volta das 5:00h, e fui à Praia do Istmo para ver o sol nascer à beira do mar. Desde que chegamos à Ilha do Cardoso eu já estava ensaiando essa idéia, mas estava difícil executar. Como já iríamos voltar para uma região mais urbanizada, não podia passar de hoje. Não que o sol não nasça em outras áreas, mas é que em praias desertas (ou quase) fica muito mais interessante. Quando pisei na praia ainda havia lua alta no céu, mas as cores quentes do sol já refletiam nas nuvens por trás do Farol das Conchas e indicavam o calor do dia que mal começava. A brisa marinha era bem fraca e os mosquitos precisaram de menos de 30 segundos para identificar o único ser de sangue quente circulando por ali, e vieram com tudo. Normalmente eu não sou comida de insetos se eles tiverem algo melhor por perto, mas naquele momento eu era o único alimento disponível para o desjejum e nem eu nem eles tivemos muita escolha. Aguentei o quanto pude, tirei algumas fotos e logo voltei para o acampamento.

Barco de saída da Ilha do Mel.

Barco de saída da Ilha do Mel.

O pessoal já estava começando a se levantar e voltamos ao ritual matinal do desmonta-barraca-toma-café-guarda-bagagem. A idéia era chegar ao pier da Praia de Brasília/Vila do Farol e pegar o primeiro Ferry Boat pra sair da Ilha rumo a Pontal do Sul, às 8:00h. Falhamos, mas saímos no das 8:30h. Já começa a me faltar a memória (também por isso escrevo isso aqui), mas acho que pagamos R$ 12,00 por pessoa e mais R$ 10,00 por bicicleta. Só lembro que dessa vez era tabelado e não tinha conversa. As bicicletas foram embarcadas com a carga amarrada mesmo, no teto do barco, que era bem mais alto e mais estável que todos os outros até agora – para a alegria do estômagos mais sensíveis. Uns 30 minutos depois estávamos em Pontal do Sul. Tomamos algumas águas geladas, pedimos umas informações de como sair dali para a BR e tocamos rumo a Guaratuba, onde pretendíamos almoçar e encontrar nossa amiga Julia, cuja família tem casa por ali.

Rumo a Guaratuba

Toda a estrada rumo a Guaratuba é bastante urbanizada. Tem alguns trechos com acostamento/ciclovia, mas sempre cheios de areia. Ainda assim o pedal rendeu bastante, apenas com algumas paradas em duas bicicletarias, sendo que em uma delas achei a câmara reserva no tamanho 700×23, ainda bem abaixo mas já suficiente para servir no meu pneu. Seguimos num ritmo bom pela PR-412, embora a região já estivesse bem cheia de gente e carros, que não paravam de chegar para passar a virada de ano. O movimento aliás não nos animava a parar para conhecer as praias que víamos entre uma esquina e outra, logo ali à esquerda. Estava provado que a incipiente idéia original, de chegar a Florianópolis, não seria muito divertida nesses últimos dias do ano – fica pra outra vez.

Balsa de Matinhos para Guaratuba.

Balsa de Matinhos para Guaratuba.

A balsa de Matinhos para Guaratuba parecia estar sempre na próxima esquina, pois há placas indicativas muitos KM antes. Ainda assim, chegamos relativamente cedo. Ultrapassamos com facilidade a longa fila de carros que aguardavam para a travessia e paramos para comer uma cocada (que resultou numa sede danada, mas deu um pouco de energia pra seguir em frente). Fizemos a travessia para Guaratuba e resolvemos comer alguma coisa. Achamos um lugar relativamente barato (algo em torno de R$ 15,00 para comer livremente) e foi ali mesmo, no Restaurante Free Willy (lindo nome…), que paramos para descansar. Reparamos aqui mais uma gradativa mudança no sotaque, ainda estávamos no Paraná, mas a melodia era muito mais catarinense. Um garoto que parou a bicicleta ao lado da nossa, chocado com a distância que havíamos pedalado, falou uma frase com uma sequencia de gírias  e entonações que eu sou incapaz de repetir. O Paraná do qual em breve sairíamos,  já não era o mesmo por onde entramos.

De Guaratuba a Itapoá: em busca da estrada perdida.

Saimos de Guaratuba por volta das 14:00h, pela rodovia, até pegar a Av. Saí Mirim (ou Av. 370), onde já paramos para um côco e caldo de cana. Nessa estrada o vento contra era forte, parecido com o da SP-222 rumo à Ilha Comprida. Em Itapoá o calor era intenso e uma ducha gelada no posto salva vidas foi providencial.

Parados em frente a uma grande loja de materiais de construção, parecíamos um bando de náufragos ou fugitivos. Pedimos informação sobre a distância dali até a Vila da Glória para 4 pessoas diferentes. As respostas foram respectivamente: 10 KM, 20 KM, 30 KM e 40 KM.  Por via das dúvidas, tocamos em frente o mais rápido possível, pois existia a informação de que a balsa da Vila da Glória para São Francisco do Sul parava de funcionar às 17 ou 18:ooh, segundo o salva vidas.

Seguimos pela Av. Principal, paralela à praia, até um corpo de bombeiros, onde nos indicaram a saída pela Estrada Geral Saí Mirim, que passaria por um porto seco (depósito de containers) e finalmente chegaria ao começo da Estrada Para a Vila da Glória.

Últimos 10 KM: Road to Ruin

A essa altura já eram umas 16:00h mais ou menos. Entramos na Estrada e logo encontramos um cascalho solto que em poucas centenas de metros virou um areião pesado. Entrei com tudo por aquela estrada, onde a bicicleta derrapava loucamente. O jeito era circular com marcha leve, para não atolar. Quando encontrávamos um trecho mais duro e onde não dava para atolar, eram as famigeradas “costelas de vaca” que fazem chacoalhar todos os ossos do corpo e parafusos da bicicleta.

Após algumas paradas para descanso, vi que a hora passava e já estávamos perto das 17:00h. Não nos livrávamos do areião, reclamávamos de raiva e ríamos da situação ao mesmo tempo. Havia um certo fluxo de carros no sentido contrário, que nós supúnhamos estarem saindo da balsa e nos animávamos a continuar, já que pelo visto a tal balsa ainda estava operando. Depois fomos descobrir que na verdade era um barco de passageiros, que não servia para atravessar carro algum.

areiao

10 KM de um areião que chamam de estrada.

Não sem certa dificuldade, eu consegui impor uma pedalada mais forte ali e avancei na frente, na paradoxal esperança desesperada de segurar uma possível última balsa do dia até que os outros chegassem. Nesse esforço, descobri mais uma vez o poder e versatilidade da minha Specialized Tricross, que rendeu bem em todos os terrenos por que passamos (asfalto, terra batida, areia dura, paralelepípedo, cascalho e agora um areião solto. O Juninho e o Afrojapa, que me acompanharam no começo, passaram a esperar mais a Marcela, que já se cansava. Cheguei finalmente ao trapiche da Vila da Glória nada menos que 2 minutos depois do horário marcado e a balsa (barco) já não estava mais lá. Em seguida veio o Brian.

A solidariedade e o banquete dos mendigos.

Enquanto os outros não chegavam, se aproximou um Sr. de cabelos brancos, dono do restaurante em frente, que logo percebeu a nossa roubada. Ele ainda tentou entrar em contato com alguém que pudesse nos atravessar, mas não teve jeito. Foi então que ele nos ofereceu a alternativa de acamparmos no gramado entre o campo de futebol da comunidade e o mar. O banheiro do restaurante estava disponível, só não tinha chuveiro.

Agradecemos a solidariedade do dono do restaurante e, após um rápido mergulho no mar, fomos montar acampamento. Que o mar fosse raso e barrento por vários metros, de manguezal, em que só eu e um monte de crianças entramos, a essa altura pouco importava.

Nossos arroz, brócolis, lentilha e quinua foram complementados por umas batatas fritas e coca cola do restaurante amigo, um verdadeiro banquete dos mendigos. As técnicas de banho sem chuveiro variaram: o Brian comprou 1L de álcool no supermercado e esfregou pelo corpo. Eu entrei no mar para tirar o suor, a areia e a sujeira em geral que estava impregnada, depois usei uma camisa molhada para tirar o sal do corpo e até que deu pro gasto. Mais tarde improvisamos um chuveiro furando a base de uma garrafa PET, o que também funcionou.

Tomando por base os olhares de reprovação e surpresa dos outros moradores e turistas que tomavam seus bons drinks nas mesas dos restaurantes naquele fim de tarde, ficamos com medo de aquele senhor estar fazendo caridade com o gramado alheio, mas ninguém além de crianças e adolescentes curiosos veio importunar. Embora 5 ciclistas vagabundos e tatuados possam parecer uma ameaça à pacata Vila da Glória, nós só queríamos mesmo era dormir e pular fora dali no primeiro barco do dia seguinte. Por outro lado, a disputa de volume no pancadão, em carros recheados de auto-falantes distorcidos, fez o trapiche tremer a noite inteira.

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4 pensamentos sobre “Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 7 – 27/12/2013

  1. Felipe, tudo está muito interessante! Que aventura! Foi uma boa ideia escrever para não esquecer. Belíssima fotos! beijo, Lelé

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