Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 5 – 25/12/2013

Após a (divertida) rotina de desmontar barraca, tomar café e arrumar as coisas do Zé Carlos que usamos, partimos para o encontro com o Vanderlei, o pescador que nos atravessaria sobre a fronteira para o estado do Paraná, para a Ilha do Superaguí. Duas da mais divertidas travessias (há controvérsias, como se verá adiante) e a última praia deserta da viagem nos esperavam à frente.

A primeira travessia e as “gaiada”

Encontramos o Vanderlei por volta das 10:00h, pagando R$ 10,00 por pessoa, conforme combinado. Não adiantava ir muito antes pois a maré estaria alta pela manhã, dificultando o desembarque das bicicletas lá do outro lado.  Embarcamos a tralha toda, subimos no barquinho com motor de popa e fizemos a rápida e muito bonita travessia do canal. O dia estava lindo e o sol agredia. Nos protegemos ao máximo e chegamos ao outro lado. O barco batia um pouco com a maré, dificultando um pouco o desembarque com a água pelos joelhos e o transporte de bicicletas e bagagens para a areia, mas no fim deu tudo certo. Faltou uma foto da cena, mas estávamos todos muito preocupados em não deixar nada cair.

Durante toda a viagem fomos percebendo, ao conversar com os moradores de cada localidade, a mudança no sotaque. Da capital para o interior, do interior para o litoral, do litoral urbanizado para as vilas de pescadores, a mudança é gradual e viajando lentamente de bicicleta se percebe isso de forma mais clara – o mesmo vale para as mudanças de vegetação, clima, relevo, etc. e é uma das vantagens de se viajar dessa forma. Na vila de Pontal do Leste, como já mencionei, presenciamos um sotaque que estava mais para um dialeto local quando falado entre eles. Conosco, o Zé Carlos havia mencionado que a travessia não podia ser feita reto para o outro lado, pois ali não dá pra desembarcar, já que tem muita “gaiada”. Demoramos, relutamos um pouco, mas quase todos compreendemos que “gaiada” era aquela vegetação de mangue, seja viva ou morta e ressecada que a maré empurra nas praias. É uma vegetação formada por um emaranhado de galhos, uma galhada.

Enquanto, já no Superaguí, prendíamos toda a bagagem de volta às bicicletas, reforçávamos o protetor solar e nos preparávamos para começar o pedal, a Marcela descobriu – com um dia de atraso – o que eram as “gaiada”. Ela passou a noite inteira pensando “que diabos são essas gaiada que vão nos impedir de desembarcar”. Será que é um bicho venenoso ou agressivo? O fato é que só descobriu quando encostamos as bicicletas na gaiada e ficamos imitando a forma de falar do pessoal dali, hehehe. Dali para a frente foi a viagem inteira falando, entre nós mesmos, com uma tentativa de sotaque do local em que estivéssemos – sem deboche ou preconceito, apenas nos divertido com a mudança que percebíamos acontecer. Aos ouvidos dos moradores, deveríamos parecer uns idiotas forçando um sotaque risível.

Ainda sobre a gaiada, pra quem pretenda fazer a viagem no sentido contrário, vindo pela Praia Deserta do Superaguí para atravessar para a Ilha do Cardoso, é bom tomar cuidado. É que a vegetação impede o acesso por terra às casas que ficam de frente para Pontal do Leste, mas do lado do Superaguí. Então, a não ser que se dê a sorte de encontrar um barco passando ali bem naquele momento, fica impossível entrar em contato com alguém para fazer a travessia. Caso alguém conheça uma solução para fazer a rota nesse sentido sul -> norte, por favor compartilhe.

A praia quase deserta, o cavalo branco e a velha emburrada.

Todos prontos e fotos tiradas, demos adeus à gaiada e seguimos viagem, já atravessando o primeiro de muitos riozinhos. O vento já não era tão forte e a visão surreal de praia deserta ainda durou todo o dia, embora seja sempre diferente do dia anterior. Engana-se quem pensa que a paisagem é sempre a mesma. O mar sempre cospe alguma coisa diferente que vai encalhar por ali, ehehe. Esse dia, embora ainda tenhamos visto diversas medusas (ou águas vivas), peixes e umas duas tartarugas mortas, para a alegria dos urubus, foi o dia de encontrar animais vivos (para além das abundantes aves), embora em situação precária.

Após alguns KM de pedal, vimos surgir ao longe uma silhueta branca e em movimento. Precipitado eu gritei “olha, um cachorro”! Estava errado e fui logo corrigido, era um cavalo. Um cavalo branco nos viu e vinha direto em nossa direção, perdido e bastante judiado nas canelas, cheias de sangue e mutucas. Paramos e ele parou junto. Difícil dizer o que aconteceu com ele, mas pareceu um caso de fuga por maus tratos ou talvez abandono. O Juninho tentou levá-lo à água salgada para dar uma lavada nas feridas e espantar as mutucas, mas o bicho não foi. Talvez já tenha sentido as canelas arderem por ali antes. Seguimos em frente, mas ele não veio atrás, embora estivesse apreciando a companhia.

Mais adiante topamos com outra tartaruga morta. Seca, cheia de conchas presas ao casco, parecia bem velha aos olhos dos leigos. Mas essa não tinha urubus por cima – nem furos pelo corpo.

– Opa, pera, ela ainda tem os olhos.
– Urubu só come bicho morto, e começa pelos olhos. Se ela ainda tem olhos, deve estar viva!

O Juninho pegou o bicho com cuidado, carregou até a beira da água, começou a molhá-la e ela esboçou uma leve reação. Estava mesmo viva, mas bem debilitada. Deixada na água, foi empurrada de volta pela maré, que não era muito forte. Na segunda tentativa nadou e sumiu. Provavelmente a velha de 792 anos só queria encalhar naquela praia deserta e morrer em paz, mas foi atrapalhada por 5 ciclistas metidos a heróis hehehe. Não sei como é que tartaruga resmunga, mas o som deve ter ecoado pelos mares do Atlântico Sul.

Dali pra frente ainda pedalamos bastante até vermos os primeiros turistas, um casal que parecia ter alugado bicicletas na Vila do Superaguí e estava ali na praia, bem longe da vila. Logo depois passou um senhor que deve ser morador local, talvez tenha ido resgatar o cavalo, torcemos para isso. Durante todo o trajeto vimos diversas medusas (ou águas vivas) na praia, as cores são incríveis com o bicho ali já meio morto, nem imagino como serão se vistos vivos por um mergulhador.

O final da Ilha do Superaguí e a travessia antecipada.

Por volta das 12 ou 13h atingimos um ponto em que a praia faz uma curva grande para a direita, formando-se bancos de areia e algumas piscinas rasas. A Ilha do Mel já se apresentava à frente e a vontade era de entrar na água ali mesmo. Como não sabíamos a que distância estávamos da Vila do Superaguí, ficamos só na vontade. A areia aí já era mais macia e dificultava a pedalada. Não demorou muito e chegamos à vila, antes do que imaginávamos.

Tendo chegado cedo decidimos que, ao contrário do planejado, atravessaríamos direto para a Ilha do Mel e passaríamos duas noites lá. Assim evitaríamos ter que montar e desmontar a barraca naquele dia e no dia seguinte. A Marcela foi até um restaurante, não gostou da cara da comida mas conseguiu logo um pescador para nos atravessar (R$25,00 por cabeça). Esperamos na sombra do pier enquanto ele e seu ajudante buscavam o barco. Demorou, mas finalmente apareceu um desses barcos de pescador mesmo, com braços para arrasto de rede e tudo, diferente das lanchinhas que tinham nos atravessado até aquele momento.

Embarcamos tudo novamente, não sem certa dificuldade para encaixar as bicicletas no meio do barco. Foi preciso tirar algumas bagagens mas nem todas. Os alforges acabam servindo pra proteger as bicicletas das pancadas no balanço do mar. Nos posicionamos no barco, Marcela, Juninho e Brian na cabine de proa, eu e o Afrojapa na popa com o capitão e o ajudante. Atrás de tudo ainda foi a bicicleta da Marcela, que não coube junto com as outras e foi deitada ali mesmo. Nós fomos segurando a coitada, pra que não fosse parar no fundo do mar.

Dada a partida (o acelerador é uma cordinha tão fina quanto um varal, toda remendada), o motor girou, gritou e expeliu fumaça loucamente até que o barco se pôs em movimento. No começo, ainda bem dentro da bahia, o mar batia pouco e seguiu tudo em tranquilidade. Enquanto navegávamos e o visual se transformava, eu cantarolava em minha mente:

Louie, Louie
I gotta go
Louie, Louie
Me gotta go

A fine little girl, she wait for me
Me catch the ship across the sea
I sailed the ship all alone
I never think I´ll make it home.

À medida que nos aproximávamos da Ilha do Mel e das Ilhas das Palmas o mar começou a bater um pouco mais e a moçada foi ficando meio enjoada. Em determinado momento o motor travou e o barco parou, fazendo um barulho ainda mais ensurdecedor. Demorou algum tempo mas o garoto, em uma manobra arriscada, enfiou o braço e conseguiu retirar um galão de plástico, vazio, que havia caído e travado bem no eixo do motor. Segue viagem. No meio do trajeto estávamos indo de frente para uma barreira de pedras onde as ondas estouravam e o mar batia bastante. Eu estava me divertindo bastante com aquilo, mas lá na cabine o pessoal estava oprimido pelo calor, pelo cheiro de combustível e por um CD do Amado Batista que o capitão banguela pôs pra tocar. Não demorou para vomitarem por ali mesmo, já que a beira do barco estava inacessível, bloqueada pelas bicicletas.

O barco deu uma volta nas pedras e logo o Afrojapa já estava dando uma leve vomitadinha do meu lado, dessa vez sobre o mar. Atingimos a praia do Farol após cerca de 1h. Eu não passei mal e estava bem, mas o pessoal saiu do barco para o mar e correu para a areia. Deitaram ali como se fossem náufragos em uma ilha deserta. O Juninho não teve tempo de passar mal, pois o capitão banguela já tinha jogado uma bicicleta em sua mão para levar até a areia. Fizemos o desembarque das tralhas, pagamos o barqueiro e ficamos ali por uns minutos até todos se recuperarem.

O camping e a subida ao Farol das Conchas.

Essa travessia antecipada para a Ilha do Mel foi providencial, pois teríamos uma tarde a mais para conhecer a Ilha. Achamos o Camping que havíamos reservado, o Billymar, na Praia de Brasília, mas que também tem acesso pela Praia do Istmo (que é a continuação da Praia do Farol). O camping ainda estava vazio (mas logo o movimento aumentaria), fomos bem recebidos, deixamos as coisas e saímos para almoçar no PF mais barato que encontramos (R$15,00). Feijão sem bacon era a condição e rolou numa boa. Dali fizemos a leve trilha até o Farol das Conchas, tiramos algumas fotos da vista, que é muito bonita, e aproveitamos o fim de tarde na praia. O Afrojapa, como sempre, se esbaldou no rasinho, como uma criança de 1,90m.

Após o pôr do Sol voltamos para montar acampamento, apanhar das mutucas e preparar o jantar. O dia seguinte seria para conhecer a Ilha, um belo descanso… assim pensávamos.

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