Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 4 – 24/12/2013

A estrada que não pegamos.

Dia 4, acordamos cedo, fizemos uma limpeza nas bicicletas para tirar a areia do dia anterior. Confirmamos o caminho até a Estrada do Ariri com o Jonas e nos preparamos para um dia de pedalada forte em estrada de cascalho, com previsão de buracos e um pouco de lama. No caminho passei em duas bicicletarias tentando achar uma câmara de ar mais compatível com meu pneu, mas nada feito. Chegamos ao deck da balsa que leva de Cananéia ao continente. Logo um dos guardas da DERSA se aproximou e começou a conversar, não consigo me lembrar do nome dele agora. Interessado nas bicicletas e na viagem, nos informou que passaríamos aperto na Estrada do Ariri com as bikes carregadas. Ele conhecia a estrada, tendo feito o trajeto de moto, e disse que tinha muitos buracos, barro e algumas subidas.

Ficamos divididos. Por um lado sabíamos que era possível fazer o percurso e que outros ciclistas viajantes já haviam feito. O plano era acessar a Vila do Ariri por estrada, pela diversão de pedalar mas também para economizar na travessia, que de lá para a Ilha do Cardoso seria provavelmente bem mais barata. Por outro lado, eu estava rodando com uma câmara de ar improvisada, com baixa pressão, e numa estrada ruim a chance de furar seria grande. A alternativa era voltar ao trapiche em Cananéia e pechinchar com os barqueiros uma travessia até a Ilha do Cardoso.

Para a decepção do Afrojapa, que estava louco para estrear seu boné com mosquiteiro, comprado especialmente para a estrada do Ariri, decidimos pela segunda opção e fomos pechinchar. O primeiro barqueiro queria R$ 50,00 por pessoa + R$ 10,00 por bicicleta. Enquanto eu fiquei com as bikes o pessoal foi rodar e ver com outros barqueiros. O mesmo cara, o Zezinho, voltou e disse que faria a viagem sem cobrar as bikes, o que acabou sendo a opção mais em conta naquele momento.

A travessia de lancha.

Embarcamos e, como eram 5 bicicletas, sendo 4 com aros 700, deu um trabalho para encaixar tudo na lancha e ainda foi preciso tirar toda a bagagem de cada bicicleta. O Brian já começou a marear em cima do trapiche, mas logo pulou para o banco central da lancha e se enfiou no colete salva vidas. O Afrojapa também estava apreensivo, mas com o colete do seu Zezinho, quis encarar o banco da lateral direita. Aliás, muito precavido, ele carregou na bagagem um colete salva vidas durante a viagem inteira – mas não usou nenhuma vez.

Com o motor ligado logo atrás de mim, eu pouco ouvi da viagem, mas todos vimos o quanto a região é impressionante. Montanhas no horizonte dão lugar a manguezais e aos canais que separam as ilhas e finalmente levam ao mar, em algum lugar por ali passa a Estrada do Ariri. Vimos aí diversas aves como garças, gaivotas diversas e um tipo de garça ou flamingo rosado, não sei exatamente o nome da espécie. Dentro dos canais os golfinhos apareceram algumas vezes, sempre nadando em pequenos grupos. Sumiam tão rápido quanto apareciam, e fico devendo a foto.  No meio do nada, em uma pequena ilha, vi uma casa completamente isolada – provavelmente de algum pescador solitário.

O susto da viagem ficou por conta de um galho que brotava para fora da água e que o Zezinho demorou para ver, já que as bicicletas estavam todas posicionadas à frente da lancha e prejudicavam um pouco a visibilidade. Quem estava do lado esquerdo logo viu o galho se aproximando, mas todos achávamos que o Zezinho estava ciente. Passamos a poucos centímetros do galho, num desvio de ultima hora, pois o Zezinho confundiu o galho com alguma ferragem através do emaranhado de bicicletas.

Almoço e frustração para remendar o ínfimo furo.

Após cerca de 1h de lancha, chegamos à Vila do Marujá, na Ilha do Cardoso. Bem próximo à Vila do Ariri, mas já na Ilha. Desembarcamos as bicicletas e a bagagem e, enquanto eu dava mais uma conferida no pneu que tinha baixado novamente. Não achei furo algum, enchi, e fomos almoçar no único dos dois restaurantes que tinha bastante salada, feijão sem carnes/bacon e uma comida razoável.

O pneu baixou novamente e tratei de mais uma vez achar o furo invisível. O Brian ficou me ajudando, enquanto o resto foi procurar uma sombra pra se esticar e dar uns mergulhos. Consegui achar outro arame ínfimo e o Brian conseguiu localizar o furo enfiando a câmara cheia na pia do restaurante, era ridiculamente mínimo. Tentamos uma, duas, três, quatro vezes. No desespero, para remover a cola do remendo errado anterior, chegamos a passar um pouco de querosene como solvente, o que até funcionou, mas o remendo não colava. Remendo park tool, remendo autocolante, remendo da estrelinha amarela, nada funcionava. Como dali para a frente ainda pedalaríamos em muita areia, instalei a câmara 700×19 que havia comprado na Ilha Comprida, e segui com o pneu mais baixo que nunca.

De volta ao pequeno deserto.

Partimos da Vila do Marujá já por volta da 16:00h, mas o sol seguia bem alto. Empurramos pela trilha de areia fofa, entre a vegetação rasteira, e finalmente atingimos a praia. Mais ainda deserta que a Ilha Comprida, com a vila escondida pela vegetação, não havia nenhum vestígio humano.

No plano inicial o quarto dia terminava no Ariri e no quinto dia pedalaríamos pela Ilha do Cardoso, atravessaríamos com algum pescador da vila de Pontal do Leste para a Ilha do Superaguí e seguiríamos até a Vila do Superaguí, no outro extremo da ilha. Como chegamos à Ilha do Cardoso um dia antes e ainda tínhamos uma tarde inteira para pedalar, decidimos seguir até o Pontal do Leste e pernoitar por lá.

Do Marujá até lá foram cerca de 19 KM de praia totalmente deserta. Era mais uma praia em mar aberto e é visível que em épocas de maré cheia o mar ataca com força e sobe até não haver mais praia. Nesse trecho víamos um ponto grande na areia ao longe. Sobre os pontos urubus pousados. Ao chegar perto percebemos que se tratava de uma carcaça de golfinho. Os urubus são os faxineiros por ali, e começam pelos olhos. Não sei se os demais furos são feitos pelos urubus ou pelos siris, que também se empanturram com o pútrido banquete.

Depois de duas ou três carcaças de golfinhos, avistamos o que seria a coisa mais impressionante da viagem: uma ossada de baleia, meio enterrada na areia. Já bastante decomposta, restavam além dos ossos uma textura que parecia uma corda ressecada, mas na verdade era o que restava da pele. Talvez tenha encalhado ali com a maré alta e, se estava velha, fraca, machucada ou doente, não tenha tido forças para se libertar. Eu nunca vi uma baleia de verdade por perto, a primeira e única que vi até hoje foi essa ossada. Não sei se é das grandes, mas é enorme. Cada costela é maior que minha cabeça (que não é modesta). O crânio, infelizmente, estava enterrado na areia. Para mim era como ver um fóssil de dinossauro.

Ponta do Leste.

Após algum tempo pedalando vimos uma pequena construção de madeira, uma âncora presa a uma corda e um pescador remendando sua rede. Estamos perto da vila, pensamos. Após alguns minutos a areia vai ficando mais fofa e o mar entra no continente, revelando o enorme canal. Do outro lado, a Ilha do Superaguí. Chegamos, mais rápido do que esperávamos, mas não havia sinal de vila. Demos a volta pela areia difícil, por vezes empurrando, até que  vimos, já dentro do canal, os barcos de pescadores atracados. No caminho até lá passamos por um bando de gaivotas pousadas na areia, que alçavam voo assim que nos aproximávamos, apenas para dar a volta e pousar no mesmo lugar – a coreografia de boas vindas se repetiu com cada um de nós 5.

Na entrada da vila logo encontramos um pescador que foi nos levando para o centro por uma trilha bem aparada. Toda a vila aliás, muito bem cuidada, pintada e organizada, inclusive com diversos painéis de energia solar instalados. Conversamos com o pescador, falamos sobre a viagem e que gostaríamos de acampar. Nos compreendemos normalmente, mesmo com o sotaque forte e já no estilo do caiçara paranaense, embora estivéssemos ainda em território do estado de São Paulo. Ao chegar na Vila e sermos apresentados ao pessoal local a surpresa: o rapaz começou a conversar com eles, e todos entre si, em um dialeto incompreensível para nós. Eu chutaria que tem algo de indígena misturado com português, mas é só achismo.

Fomos apresentados ao Zé Roberto, um senhor que é uma espécie de Incrível Hulk curtido pelo sol, mas extremamente simpático e bonzinho. Acampamos no quintal do Zé Roberto pagando R$ 15,00 por pessoa, e resolvemos dar mais R$ 15 porque ele nos arranjou um KG de arroz e nos deixou usar a cozinha, além de puxar uma mesa para o meio do quintal. Ainda deu tempo de voltarmos ao canal e tomarmos um banho na água transparente e de temperatura amena. Tirei algumas fotos e vimos ainda um voo de um casal de aves que pareciam ter sido pintadas à mão ou ligadas a uma bateria que acendia o neon rosa. A cor era muito gritante, indescritível. Passaram tão rápido que perdi mais essa foto.

Quando o sol se pôs, nós jantamos, combinamos com um pescador a travessia do dia seguinte, tomamos banho, montamos as barracas e o Zé Roberto seguiu para a festa de natal da comunidade. Mesmo em um lugar tão isolado, para o terror da fauna local, os fogos e rojões marcaram presença. Só assim para lembrarmos que era natal, então pensei  na minha família reunida no Rio de Janeiro, em especial meus avós, pais e irmã, mas ali nem sinal de celular existia. Como nenhum de nós é religioso e nem queria cair no forró, acendemos as lanternas e fomos para o lado contrário, o da praia, saindo pela entrada da vila em que vimos o primeiro pescador e passamos direto. Vimos algumas estrelas cadentes e arrisquei umas fotos do céu completamente estrelado, mas ainda é muito para mim e em pouco tempo algumas nuvens se apresentaram. De lanternas apagadas víamos apenas alguns tênues borrões de luz no horizonte, talvez Ilha do Mel, talvez Pontal do Sul – não sabemos, mas era na direção para onde seguiríamos no dia seguinte.

Anúncios

7 pensamentos sobre “Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 4 – 24/12/2013

  1. Olás, lamentei profundamente não terem seguido pela Estrada do Ariri. Não deixem de conhecê-la futuramente. Tem bastante lama em determinada época do ano, mas é show de roda. No mais, belíssimo relato e uma extraordinaria cicloviagem. Parabéns ao grupo! Abraços do Antigão.

    • Obrigado pelo comentário Waldson, essa é uma daquelas pulgas que ficam atrás da orelha e que nos deixa com vontade de retornar para conferir. Com certeza voltaremos até lá. Obrigado pela leitura, um abraço!

      • Opa, desculpe, eu estou elaborando o post e sem querer publiquei. Ainda falta parte do relato e as fotos. Desculpe-me pelo email desnecessário.

      • Waldson, tentei acessar seu blog ha pouco e diz que está liberado apenas para convidados. Se for isso mesmo, respeito total a escolha. Só estou avisando caso tenha ativado essa opção sem querer, hehe. Já estão até perguntando lá no fórum do pedal.com.br

        A propósito, o post que eu tirei do ar porque estava cortado já está lá no meu site, completo.

        Um abraço.

  2. Nós também lembramos de você, Felipe!
    Fazia tempo que não tínhamos um Natal tão cheio lá na vovó… Você e o Rafael fizeram falta!

  3. Lindas as fotos, em especial a solitária casa do pescador na ilha. Destaco também o porto de Cananéia, as aves contra a montanha e a “foto de banda”. Melhores roupas pra noite natalina? Interessante notar, em Pontal do Leste, a substituição das palmáceas por coníferas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s