Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 3 – 23/12/2013

A zica da saída

O dia amanheceu com o sol entre nuvens, mas com um forte mormaço e, para mim, com uma pequena maré de azar. Todos demos uma limpeza nas relações de marchas das bicicletas, ajustamos freios e nos preparamos bem naquela manhã.

Eu em particular, acordei mais cedo para resolver o problema do meu pneu furado no fim do dia anterior. Depois de toda a limpeza e lubrificação, tirei a câmara velha para remendar outra hora e fui logo instalando a nova que eu tinha comprado especialmente para a viagem, uma continental nas medidas exatas do pneu 700×32. Normalmente rodo com medidas aproximadas, menores, pela dificuldade de achar a correta no mercado. Fui pego de surpresa pelo diâmetro da válvula, que era do padrão presta mas não passava no furo do aro de forma alguma. Peguei então uma câmara emprestada da Marcela, enchi e quando já ia instalar a roda de volta ao quadro a câmara estoura na minha mão, sem que eu fizesse qualquer pressão. Não tinha mais nenhum arame dentro do pneu, pois eu já tinha feito a limpeza e conferência. Talvez tenha sido algum defeito de fabricação. Peguei então outra câmara emprestada da Marcela (devo e não nego, pagarei assim que nos encontrarmos), e não enchi tanto para evitar novos sustos. Somando o meu peso e o da bagagem, o pneu estava bem baixo, mas para pedalar na areia dava pro gasto.

Com muito filtro solar, mangas compridas e camisas jogadas sobre o pescoço, trancamos a casa com novos cadeados e partimos rumo ao sul. O leve vento contra que pegamos no asfalto rumo ao centrinho da Ilha Comprida foi um alerta que não compreendemos totalmente até pisarmos na areia mais à frente.

Após uma parada no supermercado, corri em uma bicicletaria e a única câmara mais ou menos compatível com meu aro/pneu era 700×19. Comprei apenas porque sabia que pedalaríamos direto sobre a areia, então poderia deixar o pneu meio vazio se precisasse. Não era o ideal, mas era a solução possível. Fizemos ainda uma parada para uma foto num parque de diversões tosqueira, numa roda gigante “tipo The Warriors” e outra para tomar um açaí. Por volta das 13h começamos a pedalar de verdade.

The Warriors. Ilha "Coney" Comprida, 23/12/2013. Foto: Juninho.

The Warriors. Ilha “Coney” Comprida, 23/12/2013. Foto: Juninho.

Grupo grande é assim, cada um tem um ritimo, muita coisa chama a atenção e dispersa o foco, os atrasos são normais. Confesso que fiquei um pouco impaciente, mas a própria zoeira dos amigos quanto a isso me fez repensar a situação. Era só uma viagem de 8 dias, não 8 meses. Por mais que eu estivesse encarando tudo como um teste para futuras pedaladas mais longas, não podia perder de vista que por ora era apenas um passeio entre amigos.

O asfalto e a areia

Pedalamos por uns bons 20 KM pelo asfalto, contando desde a casa, aquecendo e já experimentando um pouco mais de vento contra. Enquanto nos afastávamos da área mais povoada, começamos a entender melhor esse lugar maluco que é a Ilha Comprida. Um loteamento gigantesco que em certo momento ficou estagnado. Há muitos lotes vazios e outros com ruinas do que nem chegou a ser uma casa um dia. Quando parecia que ia acabar o negócio apareciam mais algumas casas e obras paradas há muito tempo. A vegetação da região é bem rasteira e as poucas árvores se destacam. Mesmo assim, há muitas aves, de espécies diversas. Chamaram a atenção alguns gaviões com longos vôos e mesmo uma coruja em plena luz do dia. Também perdi essas fotos, pois até parar a bicicleta e pegar a câmera os animais já estariam longe.

Quando o asfalto acabou a estrada continuava em cascalho, mas já era hora de encarar a areia dura. A curiosidade era grande e eu achava que o ideal seria ter essa primeira experiência enquanto ainda houvessem cidades por perto e fácil acesso ao continente: Em caso de algum problema ainda teríamos Iguape/Ilha Comprida atrás e Cananéia, nosso destino do dia, à frente. Eu estava particularmente em dúvida quanto à performance dos pneus 700×32 na areia, mas ao atravessar a pequena faixa de areia fofa logo chegamos a uma areia dura e lisa e percebi que isso não seria um grande problema.

A paisagem na praia quase deserta é surreal. O fim da praia não é visível em nenhum dos lados, o mar é agitado mas não tem ondas muito grandes. As aves marinhas pousam com as canelas na água e quando nos aproximávamos faziam incríveis vôos rasantes para pousar novamente mais à frente.

Tiramos algumas fotos, comemos alguma coisinha e passamos à nova experiência. O piso não era exatamente um problema, na verdade é uma situação bem interessante e divertida. Ao longo da praia precisamos atravessar alguns riozinhos, todos possíveis de cruzar pedalando. Mesmo assim, não tem muito jeito, uma hora ou outra pegamos um ponto mais fundo e o pé acaba molhando um pouco. Pensando nisso eu pedalei de chinelos nesse dia. Já tinha feio a experiência e achado ok, considerando que não estava na cidade nem na rodovia, não teria muito problema de segurança. O que aconteceu foi que a diferença de altura entre a sola do tênis e a do chinelo causou uma mudança na pedalada que levou a uma forte dor no tendão do pé direito. Além disso,  quando molhado o chinelo escorregava e caia do meu pé algumas vezes. O Afrojapa, assíduo leitor do blog do Antigão, foi muito mais esperto e comprou uma papete, que eu acho um treco muito feio mas é de eficiência indiscutível nesse caso.

O vento

Alguns KM e riozinhos depois, o vento forte que era uma curiosidade do ambiente se tornou um obstinado oponente. Pedalávamos em marchas bem leves e com alguma dificuldade conseguíamos manter algo entre 10 e 14 KM/h, enquanto na estrada as médias estavam, com facilidade, em torno de 20 KM/h. Passamos então a pedalar em grupos, assumindo uma posição mais aerodinâmica em que só encara o toda a força do vento o primeiro do pequeno pelotão. Revezávamos a posição para ninguém cansar demais e a situação melhorou um pouco. Coisa de ciclista atleta mesmo, que nenhum de nós é e, quando aparecia algo para fotografar ou qualquer coisa que distraísse a atenção, o pelotão logo se desfazia e o sofrimento voltava, hehehe. Tem uma foto do Juninho em que nós estávamos numa formação perfeita, acho que é na Ilha do Cardoso, vou incluir no relato do dia.

Em determinado momento vimos a carcaça de uma enorme tartaruga. Alguém já tinha levado o casco. É difícil dizer se ela foi pescada ou se morreu ali e depois removeram o duvidoso troféu, o fato é que foi o primeiro de muitos animais mortos que vimos ao longo dos dias em que pedalamos na areia. Não sei dizer se as criaturas encalham ali quando a maré baixa, se eles morrem no mar e são jogados para essas praias desertas ou se são vítimas de redes de pescadores. Pelo fato de serem praias desertas, e algumas em ilhas sem contato de pontes ou estradas com o continente, não há um serviço público de limpeza e o que encalha por ali acaba virando parte da paisagem. Mais sobre isso será documentado nos relatos dos próximos dias.

Depois de fazer muita força contra o nosso inimigo número um, o vento, resolvemos parar um pouco em um quiosque. Há alguns por ali, e muita gente acessa esses quiosques de carro ou moto pela areia mesmo. Eu acharia melhor se esse tráfego não existisse, mas não chegava a atrapalhar. O vento refresca e não chegávamos a sentir o calor de 38º que marcava o meu termômetro. O perigo é que o sol não para de queimar, embora você não perceba. A maioria de nós estava bem protegida, mas a Marcela deu uma vacilada e sofreu com pescoço em chamas no dia seguinte. O Juninho, não lembro se nesse dia ou em outro, esqueceu de passar o protetor logo acima do joelho, uma das áreas em que o sol mais castiga o ciclista. Suas pernas ficaram como duas glutadelas, bastava fatiar.

Após algumas águas de côco e um breve lanche, o rapaz do quiosque avisou que faltavam cerca de 19 KM até Cananéia e que deveríamos nos apressar, pois após as 17:30h a maré estaria cheia e não seria mais possível seguir pela areia dura. A informação não batia com a tábua de marés da região que eu tinha impresso e trazido na viagem, mas não quisemos duvidar da sabedoria local e fizemos o possível para seguir na média de 13 ou 14 KM/h, não era fácil. O vento só piorava e, com as bicicletas carregadas de alforges a aerodinâmica é a pior possível. Eu cheguei a andar com minha marcha mais leve, 27×30, como se estivesse subindo alguma serra. Vivenciamos então um paradoxo: a praia se tornava uma enorme montanha plana.

A chegada

Balsa para Cananéia, 23/12/2013. Foto: Juninho.

Balsa para Cananéia, 23/12/2013. Foto: Juninho.

Ao chegar ao ponto de Cananéia em que os veículos não podem mais trafegar na praia, percebemos que a informação do rapaz do quiosque não era muito precisa. Havia ainda alguma margem para pedalarmos pelo menos mais 1h na areia dura. Descansamos um pouco, tiramos algumas fotos e perguntamos para um garoto que estava com sua namorada qual era o caminho da balsa e se ele sabia o horário de saída da última. O rapaz disse que achava que era 17 ou 18h. Estávamos em cima da hora e corremos mais uma vez, atravessamos esbaforidos os cerca de 6 KM da estrada de cascalho que dá acesso à balsa para ao fim descobrir que tem travessias até tarde da noite, segunda informação local descabida do dia.

Atravessamos de balsa, e vimos que Cananéia em seu pequeno porto e no centro histórico é uma cidade bem bonita e tranquila. Paramos na pracinha logo de frente para a balsa e comemos umas batatas fritas enquanto pensávamos sobre a comida para aquele dia e o próximo, perguntávamos sobre campings para alguns taxistas, e ríamos do fato de que o Brian era na verdade um boneco de presépio que pedalava conosco. Um dos taxistas foi bem simpático, nos deu diversas orientações e, mais tarde, quando ainda estávamos saindo do supermercado, nos encontrou e disse para seguirmos seu carro que nos deixaria na frente do Camping Casa Verde. Que diferença para os Taxi Drivers de São Paulo, hehehe.

O Camping Casa Verde capitaneado pelo receptivo Jonas, é novo e muito bem estruturado. Montamos nossas barracas, ameaçou uma chuva e logo o Juninho resolveu dormir em um quarto do hostel Casa Verde. Por conta do show do Ratos de Porão (exemplo meramente ilustrativo) dias antes e das baratas da noite anterior, estava com o sono bastante atrasado e queria mesmo era uma cama. Banhos tomados e uma balanceada refeição de 2 miojos e alguns legumes para cada um, seguida das inseparáveis bolachas Trakinas, e logo fomos dormir. Precisávamos daquele descanso, pois o dia seguinte prometia ser duro, já que estava programado que passaríamos pela incógnita Estrada do Ariri.

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