Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 2 – 22/12/2013

O segundo dia de viagem começou cedo e, conforme esperado, foi o mais longo e mais duro da viagem com cerca de 140 KM pedalados. Tomamos café e logo encaramos alguns KM de empurrada morro acima para sair do sítio: terreno molhado, com vegetação alta e escorregadio. Logo que encontramos um cascalho mais pedalavel, montamos e seguimos rumo à rodovia, não sem antes parar para completar nossas garrafas de água na sede da empresa de rafting em que havíamos parado no dia anterior. Queríamos chegar logo à Régis Bittencourt e torcíamos para que o trânsito estivesse mais uma vez lento ou parado naquele trecho. Infelizmente para nós não era o caso e o pedal mais sério começou. Foi um dia para quem curte testar os seus próprios limites: 140 Km pedalados mas com paisagens recompensadoras, sem dúvida.

A BR-116 – Rodovia Régis Bittencourt

De volta à BR-116, só nos restava acelerar o passo. Encaramos uma série de subidas, que não eram muito difíceis, mas no total formaravam uma sequência bem longa. Logo o acostamento começou a se estreitar e, a partir do trecho em obras de duplicação, ficou bem esburacado. A nossa sorte foi que nos últimos KM de subida antes da Serra do Cafezal já haviam cones de sinalização do trecho em obras, o que nos garantia uma segurança a mais em relação ao trânsito da rodovia.

Iniciada a descida fomos mais uma vez beneficiados pelo trânsito intenso, ultrapassando a todos pelo acostamento. Os trechos mais complicados eram os das pontes em curva, que não têm nenhum acostamento e não podem ser divididos com caminhões. Os bi-articulados são especialmente perigosos, pois enquanto a cabine do motorista já segue adiante, a parte final da carga ainda serpenteia muito rente aos bordos da pista. A solução, graças ao trânsito lento, era sinalizar para os veículos e passar as pontes em meio ao fluxo, para então voltar ao acostamento.

Quando a descida já se aproximava do fim um caminhão menor, provavelmente realizando algum frete local, emparelhou comigo e o carona começou a perguntar de onde vínhamos e para onde íamos, quase não acreditando quando disse que tinha saído de Juquitiba e que no dia anterior havia partido de São Paulo. A partir daí sentimos a presença do sol e a temperatura aumentou bastante. Fizemos uma rápida parada para guardar as capas de chuva, comer um lanche e dar uma esticada nos músculos, mas logo encaramos o retão quente e movimentado. Nesse trecho, até o que seria a metade do nosso dia de pedal, a passagem para a SP 222, o acostamento é bem largo e os caminhões só incomodam pelo barulho e pelas rajadas de vento quando passam.

Seguíamos firmes com o objetivo de passar logo para a SP-222, fazendo apenas mais uma pausa na localidade chamada Pedro Barros, para nos refrescar e comer mais um pouco. Já devia ser um pouco mais que meio dia, encostamos em uma mercearia de beira de estrada e compramos 1,5 L de coca cola e alguns pães, que comemos com uma glutadela que o Afrojapa levou. Para quem não conhece, a glutadela é uma espécie de mortadela de origem 100 % vegetal. O negócio não é especialmente saboroso, mas facilita a nossa vida, porque somos vegetarianos e aquilo não estraga muito facilmente, mesmo após alguns dias fora da geladeira.

A SP-222

Ao atingir a entrada da SP-222, baseado numa olhada no google maps, eu imaginava que dali para diante encararíamos uma grande descida e a seguir um retão até a Ilha Comprida. Embora estivesse certo quanto às retas, fui pego de surpresa por 8 KM de subida antes que pudéssemos de fato começar a descer. Foi uma lição: observar melhor os mapas, sem ser otimista demais. A minha sorte é que gosto de pedalar morro acima. A subida ali não tem acostamento, mas o movimento é turístico,  bem mais tranquilo, e os carros nos ultrapassavam a uma distância bem segura. Cheia de plantações de banana e de vegetação nativa da Mata Atlântica, a estrada é bem bonita. Mais uma vez choveu, mais forte dessa vez, e só tínhamos a comemorar com isso. A chuva nos esfriou o corpo e renovou as forças. Infelizmente perdi umas boas fotos por medo de molhar a câmera – tenho pensado cada vez mais se não vale a pena comprar uma GoPro. Subimos os 7 ou 8 KM ininterruptos e a água parou de cair pouco antes de chegarmos ao topo, onde paramos em uma lanchonete para uma água de côco e algumas bananas e vimos um adesivo de um grupo de ciclistas viajantes de Itanhaém. O Afrojapa já quer fazer um nosso.

Dali em diante a programação volta ao que eu esperava: uma ótima descida (que com o devido cuidado é melhor fazer no meio fluxo do que no canto da pista, muito esburacado). Ao fim da descida um retão de vários KM, bastante puxado mas com um visual bonito. As nuvens se misturavam com o sol ao longo da tarde, e no horizonte se desenhavam montanhas. As garoas passageiras e o visual agradável quase nos faziam esquecer o cansaço, mas o vento contra vindo do litoral golpeava firme, para não nos deixar relaxar demais.

Segundo o nosso planejamento esse segundo dia tinha duas possibilidades: 1) atingir a planície em que agora estávamos e tentar acampar em algum sítio ou quintal de beira de estrada, para partir cedo no dia seguinte e encontrar o Juninho e o Brian na Ilha Comprida; 2) atingir a Ilha Comprida no mesmo dia, com um esforço bastante grande, o maior da viagem. Ainda estávamos bem e nem haviamos almoçado. Decidimos parar, fazer um miojo (comida ruim que quebra um galho) num ponto de onibus (ao abrigo do vento) e seguir viagem. Logo à frente as bancas dos vendedores de frutas apareceram às dezenas e resolvi comprar uma caixa de lixias (cultivadas na região, assim como as bananas), que comemos em outro ponto de ônibus alguns KM à frente. Quando já terminávamos a sobremesa a Marcela recebeu sinal no celular e uma mensagem do Juninho: chegariam à Ilha Comprida por volta das 19h.

Nós já estávamos bem cansados, mas fizemos as contas e vimos que se mantivéssemos o ritmo a 20 KM/h, chegaríamos junto com eles ou até antes. Mais que cansaço, sentíamos as dores de segurar o guidão e sentar no selim por muitas horas seguidas, mas mesmo assim tentamos puxar o ritimo naquela baixada que parecia infinita. As montanhas que apareciam no horizonte mudavam sempre de posição, já que a estrada faz algumas curvas, especialmente quando se aproxima do Rio Peropava, e nos confunde quanto ao ponto em que atinge o litoral. Chegamos a temer que ela subisse as montanhas (ainda que fossem pequenas), mas ao atingir a ponte sobre o Rio da Ribeira do Iguape, percebemos que logo após a estrada passa a contorná-las.


A chegada

Na ponte, com a sensação de já estarmos bem próximos a Iguape (cerca de 8 KM da entrada da cidade), fizemos uma merecida parada para aproveitar o visual e tirar algumas fotos. O clima estava agradável e o sol já ia bem baixo, mostrando-se apenas parcialmente entre as nuvens, iluminando as árvores, montanhas e parte do rio ao fundo. Sem dúvidas era a paisagem mais interessante da viagem até agora e com o destino tão próximo, parecia que já se podia cantar vitória.

Montamos na bike e bastaram duas pedaladas para eu perceber meu pneu traseiro colado ao chão: o primeiro furo a gente nunca esquece e nada estava vencido. Achei o maldito arame que causou o estrago, mínimo e quase imperceptível. Para removê-lo precisei usar a tesourinha do meu alicate como se fosse uma pinça.  Faltava tão pouco, e a gente achava que ainda conseguiria chegar antes do ônibus dos caras, fiquei meio obcecado com isso e não quis remendar o furo nem trocar a câmara de ar. Decidi encher o pneu como estava e forçar a pedalada. Fiz isso uma, duas, três vezes, mas já dentro de Iguape nós erramos o caminho. Não sei se não vimos alguma placa ou se ela realmente não existe, mas fomos parar num bairro totalmente fora de mão, nada a ver com o que precisávamos: a ponte para a Ilha Comprida. Já “derrotados”, passeamos por Iguape para achar a ponte e descobrimos que a cidade, entre canais e a pequena montanha, é bem bonita e totalmente diferente da cidade de praia genérica que imaginávamos. Eu estava cansado demais, nem lembrei de pegar a câmera, mas devia ter registrado algumas imagens daquele fim de tarde.

Ali, diante da ponte, falamos com o Juninho que já tinha chegado, e passamos à Ilha Comprida ao encontro dos novos membros da gangue. Demos mais uma leve errada de caminho na Ilha Comprida, nos comunicamos por telefone e finalmente achamos o caminho. Pedalamos ainda mais uns 8 a 10 Km até finalmente encontrar a casa em que passaríamos a noite.

O plano então era: chegar à casa que o Juninho tinha emprestado de um amigo, encontra-lo junto ao Brian, talvez até com um rango pronto, e tranquilamente descansar de um dia tão puxado. A realidade era: chegamos no escuro, a casa estava trancada e o Juninho tinha falado no telefone com o dono, confirmando que entregou a chave errada e nos autorizando a arrombar os cadeados, bastando apenas substituí-los por outros no dia seguinte.

5 ciclistas punks, vagabundos, tatuados, suados, cansados, tentando arrombar uma casa de praia. O Juninho tratou logo de ir conversar  com os vizinhos e tranquilizá-los, porque aquilo não ia acabar bem, hehehe. Com a serra do canivete o Brian atacou o já frágil e enferrujado cadeado, que logo depois abriu com uma pancada. A casa na verdade é dividida em duas, então o processo se repetiu na outra porta. Entramos, verificamos que havia gás, energia, água e, entre os estrados das camas… duas enormes colônias de férias de baratas. Das grandes.

Não havia mais tempo a perder, precisávamos comer e descansar para o pedal do dia seguinte, e a situação era crítica. Começamos a cozinhar e a tomar banho enquanto alguém foi comprar um veneno para baratas. Voltaram, comemos, contamos as peripércias do dia e passamos à guerra: Veneno em uma mão, chinelos em outras 5, promovemos o massacre.

O Juninho e o Brian, na casa/quarto ao lado passaram a noite ouvindo o crepitar de uma barata sobrevivente, que pela manhã descobrimos que estava caída dentro de uma panela ou copo, não me lembro bem. Ninguém teve coragem de dormir sobre as camas, apenas abrimos nossos sacos de dormir sobre os colchões dispostos no chão e capotamos. A Marcela em particular, encapotada, fechou completamente o saco de dormir, com mais medo das baratas que do calor, que não era pouco. O Afrojapa, como de praxe, deitou e não abriu a boca, acho que dormiu. Eu abri o saco de dormir sobre o colchão embaratado, apenas para evitar o contato direto, e dormi perto da porta escancarada,  à procura de uma brisa do mar – não sem antes pedir licença ao morcego que entrava e saia do telhado logo acima. Cheguei a ouvir algum inseto grande voando pelo quarto, mas resolvi que só queria descobrir o que era quando o bicho caísse sobre alguém, o que não aconteceu.

Era mais de meia noite quando enfiei um Leave Home nos ouvidos pra tentar relaxar e acho que logo apaguei. Acabavam finalmente o segundo dia e a primeira fase da viagem. Dali pra frente começaríamos a pedalar pela tão famosa areia dura da região e estávamos bastante curiosos com a experiência.

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10 pensamentos sobre “Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 2 – 22/12/2013

  1. Linda a foto das bicicletas curtindo o visual enquanto descansam…. e o piratinha tá ali, na dele, réréré. A padronização das roupas é proposital?

    • Algumas dessas roupas de material esportivo são bem parecidas mesmo, mas a camisa amarela é de um evento que fomos no ano passado, o Encontro do Clube de Cicloturismo. Calhou que nós dois levamos a mesma camiseta, e numa viagem dessa não se leva muito mais que 2 ou 3 camisetas, então não dá pra variar muito o visual, hahaha.

      • É Ruivo, na hr de pensar no look nao custa dar uma ligadinha pra ver se ninguem vai de par de vaso!

  2. Trip legal… eu quase que só pedalo em asfalto, passei direto por esses lances de caminhões pra lá e pra cá: Anhanguera, BR-116, Dutra…

    Tenho umas fotos em São José do Barreiro (Rodovia dos Tropeiros), na Represa do Funil que é quase idêntica a essas aí. Vou acompanhar detalhes do resto da viagem, pois pretendo ir a Ilha do Mel em março ou abril.

  3. Ficou legal o lance das roupas. Vocês já estão pensando no adesivo, não é? Pois então criem o pacote Logo adesivo/camiseta/blog e vão à luta rumo à Ushuaia! Estou com umas idéias, depois a gente se fala…

  4. Pingback: Montando a bicicleta. | Going Southbound

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