Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 1 – 21/12/2013

Finalmente chegou o dia da viagem, estávamos bastante empolgados e um pouco apreensivos com a saída de São Paulo. Não sem razão, pois os dois primeiros dias se provaram a parte mais complicada da viagem. O ponto de encontro era às 5:00h da manhã, na Praça do Ciclista, Av. Paulista, São Paulo. Chegamos com uns minutos de atraso, eu e o Afrojapa, que dormiu na minha casa naquela noite para facilitar a partida. Logo depois veio a Marcela. Antes de todos nós já estavam lá o casal de amigos Loly e Fabi, para uma despedida surpresa. Bike punx prontos para a partida!

Foto da partida, por Fabiana Caruso.

Foto da partida, por Fabiana Caruso.

Descemos a Av. Rebouças e meu ciclocomputador já não queria funcionar muito bem, embora eu tivesse trocado as baterias um dia antes. Demos uma pequena volta no Butantã até achar o caminho da Av. Eliseu de Almeida rumo à rodovia Régis Bittencourt. Estava cedo e as ruas ainda vazias, o principal motivo de atenção ainda não eram os temidos caminhões, mas os ônibus intermunicipais em direção ao Taboão da Serra, que costumam avançar rumo ao ponto e fechar os ciclistas. Já acostumados com isso, seguimos sempre atentos e não chegamos a correr riscos maiores.

No Embu, um pouco antes do Rodoanel meu ciclocomputador voltou a funcionar e não tive mais problemas com ele. O acostamento, no entanto, era o pior da viagem. Muito esburacado, cruel. No cruzamento do Rodoanel o primeiro momento de tensão: muitos caminhões e a necessidade de cruzar a pista para seguir no acostamento do lado direito. Com a bicicleta pesada é necessário estar atento para arrancar com uma marcha favorável, uma marcha muito pesada implica em um arranque muito lento e uma maior demora na travessia da pista. Muita atenção, alguma espera e atravessamos com segurança. Em Itapecerica da Serra e São Lourenço da Serra o acostamento acaba e em um horário de movimento mais forte seríamos forçados a andar pela grama ao lado da pista, como fizemos num curto trecho. Durante toda a manhã garoa ia e voltava e o sol raramente apareceu, embora seja um pouco incômodo, eu gosto mais de pedalar nessas condições do que num sol extremo, que me cansa bastante. Desde Itapecerica as placas já indicavam: Serra do Cafezal (a temida) congestionada.

Passando ao município de Juquitiba o acostamento melhorou muito, a garoa parou e o tempo seguiu nublado. A pedalada rendeu bastante e nos aproximávamos rapidamente da cidade. O trânsito já estava tão pesado que, mesmo pelo acostamento, ultrapassávamos carros e caminhões com facilidade nos 3 ou 4 Km que antecedem a entrada da cidade. Com o trânsito parado caminhoneiros saíam de suas cabines para descarregar a bexiga ou fazer um lanche, alguns se assustando com a nossa presença inesperada.

Chegamos em Juquitiba por volta das 10:00h da manhã, compramos alguns mantimentos que faltavam e seguimos rumo ao nosso primeiro local de pernoite: O Sítio Beija Flor, de propriedade de alguns amigos, embora soubéssemos que não haveria ninguém lá. De posse de um mapa improvisado e de algumas instruções, passamos por estradas de pedra e cascalho, tomamos um corre de um cachorro mais bairrista e seguimos a estrada ao longo do Rio Juquiá, passando pelas empresas que fazem os passeios de rafting pelo rio. A partir de um certo ponto a estrada vai ficando menos movimentada e menos cuidada: buracos, vegetação alta e piso escorregadio devido às chuvas recentes.

Alguns dias antes soubemos que o sítio ficou um tempo desocupado e tinha sido assaltado, ficamos com a missão de verificar o tamanho do estrago. A estrada era mais longa do que parecia, as vegetação um pouco alta entrava nas correntes e o piso deslizava, precisamos empurrar um pequeno trecho e finalmente chegamos. Absolutamente tudo estava revirado nas 2 pequenas casas e no galpão. Os fios elétricos haviam sido cortados e canos de água quebrados. Com as portas arrombadas a umidade entrou com força nas casas e havia bastante mofo. Não foi um simples furto, quem fez aquilo quis sacanear e quebrar tudo. Inclusive algumas coisas que pareciam de valor como guitarra e amplificadores estavam lá, mas quebrados. Felizmente os discos estavam intactos em uma prateleira alta: vários do Fugazi, Seein Red e muitas outras coisas boas. Vai dar um trabalho para por a casa em ordem. Os 3 gatos do sítio já estavam sem ração, mas pareciam estar com a pelagem bonita e bem de saúde, embora bastante carentes. Imagino que sobrevivam devorando roedores e passarinhos que vacilem ali por perto. Na falta de ração fiz um arroz sem sal para deixar lá para eles, mas não se interessaram muito, talvez atraia uns ratos que possam virar alimento de gato, hehehe.

Desgraças à parte o sítio fica num local muito bonito, bem numa curva do Rio Juquiá, com belas corredeiras logo abaixo. Enquanto nos familiarizávamos com o lugar, grupos das empresas que exploram o rafting desciam o rio remando, gritando e cantando. Antes de chegar ao sítio conversamos um pouco na porta de uma das empresas e até deu vontade de voltar um dia para fazer o passeio, mas precisaríamos formar um grupo só de amigos, porque dividir o barco com aquela “galera da firma” ou “turma da facul” não parece muito animador.

Tratamos de limpar o melhor local de camping: uma cozinha aberta, mas com cobertura, e montar nossa barraca por ali. Ainda era cedo e fomos dar uma volta no rio. Dizem que eu não posso ver uma poça d’água e já quero nadar, então aproveitei para dar um tibum e deixar a corredeira me levar. A volta contra a corrente foi difícil e tive que subir pela margem oposta. Vacilei e não levei a câmera, vou ficar devendo essas fotos.

Como não havia energia nem água, passamos a nos organizar antes que a luz do dia acabasse. Munidos de nossas espiriteiras a álcool, duas caseiras e uma comprada pronta, preparamos almoço e jantar com água do rio mesmo, desinfetada com o cloro em pastilhas que levamos justamente para esse propósito. Foi praticamente um camping selvagem já na primeira noite, e passamos no teste. Tentei fazer uma fogueira para dar sinal de vida no sítio e espantar curiosos, embora não acredite que alguém desceria até ali novamente. Essa era a desculpa, o propósito real era a diversão. O problema é que havia chovido e tudo estava meio úmido, gerei muito mais fumaça que fogo.

Sem sinal de celular nem energia elétrica, dormimos cedo, cada um embalado por sua trilha sonora (a minha era um Radio Birdman esperto), mas todos com a mente no dia seguinte: cerca de 140 km até Ilha Comprida, provavelmente o dia mais difícil de toda a viagem.

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11 pensamentos sobre “Viagem de bicicleta de São Paulo – SP até Piçarras – SC: Dia 1 – 21/12/2013

  1. Ruivo, não deixe de colocar a quilometragem rodada a cada dia… Tá empolgante o relato. Acompanharei aqui.

    • Boa, já consta no segundo dia. No primeiro esqueci quanto deu, mas acho que uns 70 ou 80 KM. Abraço!

    • Oi Michele! Sem dúvida não é um passeio descompromissado, mas eu dei um tom de gravidade maior aí no texto, pra que ninguém leia e ache que é moleza. É difícil sim, mas com atenção e cuidado não é tão perigoso.

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